Esporte e Escola

por Lucas G. Freire

No final de uma olimpíada ou copa do mundo, existe sempre uma ladainha nos jornais: o Brasil não conquistou muitas medalhas. Não foi bem como deveria ter ido. O país tem grande potencial esportivo, mas falta investimentos do governo nos nossos atletas.

O mesmo discurso foi mais uma vez divulgado nestas olimpíadas. O Brasil poderia ter ido melhor se tivessem jogado mais dinheiro no setor esportivo. Se os empresários não fazem isso, então o governo deveria fazer.

Essa não é a única demanda por dinheiro público hoje. Enquanto professores e funcionários das universidades federais estão de greve, muitos tem discutido uma melhor forma de se investir na educação.

Educação, eles dizem, é essencial para o país. Por isso, o governo deve bancar mais e mais a melhoria do nosso sistema de ensino. Dinheiro é sempre a solução. Dinheiro que vem dos cofres de Brasília.

Acontece que, em última análise, os cofres de Brasília são o meu bolso e o seu. O governo e boa parte da população alegam que é legítimo cobrar impostos para começar, desenvolver e manter universidades federais. A questão dos esportes é um pouco mais duvidosa, porém muitos também apoiariam esse uso dos impostos.

Do ponto de vista legal, esperar o uso de dinheiro público para manter universidades ou atletas pode ser até sem problemas. Mas e do ponto de vista bíblico? O que as igrejas reformadas confessam por todo lado a respeito do papel do governo?

É de surpreender que muitos cristãos não conheçam a fé que alegam confessar, na sua aplicação política. A pergunta é simples: segundo a confissão reformada, é legítimo esperar ou exigir que o governo invista em educação e esportes?

Vejamos o exemplo da Confissão Belga (Artigo 36). Ela afirma que o governo foi estabelecido “para restringir os excessos dos homens e para que tudo transcorra em boa ordem”. Isso é uma afirmação geral.

Alguém poderia dizer que “boa ordem” inclui lazer, no caso dos esportes, e civilidade, no caso da educação pública. Mas a Confissão não afirma a ideia sem explicar. O que especificamente ela afirma sobre restringir excessos e manter a ordem?

Sem muita surpresa, não encontramos aqui um chamado à educação e às olimpíadas. Citando a carta de S. Paulo aos Romanos, a Confissão Belga diz como devemos esperar que o governo restrinja os excessos e mantenha a ordem: O magistrado civil deve “castigar os malfeitores e proteger os que praticam o bem”.

Em outras palavras, o governo deve promover a justiça pública. Se nossos líderes, cristãos ou não, fizerem bem essa tarefa, a Confissão nos diz que existirá um efeito colateral muito positivo.

Que efeito é esse? A Igreja ficará livre para atuar em diversas áreas do Reino de Cristo. Isso não quer dizer somente que ela terá liberdade de culto e de pregar o evangelho. Ela terá condições de promover o serviço a Deus em cada aspecto da vida, inclusive apoiar na educação dos necessitados.

É sensato os cristãos se preocuparem com essas áreas da educação e da escola, e nada proíbe que apreciem os esportes e o lazer. Porém, o que devem esperar do governo é que os malfeitores sejam castigados e que sejam protegidos aqueles que praticam o bem. O pedido da igreja em relação ao governo deve ser, portanto, de justiça pública.

Quer dizer, então, que devemos nos rebelar ou parar de pagar os impostos que são utilizados para outros fins?

Não é bem assim, segundo a Confissão de fé. Se o governo usa injustamente seu poder, é evidente que podemos protestar, mas de forma ordeira, decente e reconhecendo a autoridade.

Enquanto a lei de nosso país continua aceitando que esporte e escola podem ser distorcidos pela mão do governo, não cabe ao cristão sonegar e desobedecer.

Cabe sim protestar, antes de tudo, pedindo que seu representante no governo defenda a justiça pública, e não o governo gigante, inflado, que faz qualquer coisa, menos proteger os bons daqueles que praticam a agressão.

 

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