Sobre a Declaração do Congresso Vida Nova 2016 (Parte 1)

O Congresso de Teologia Vida Nova discutiu em março deste ano o que a teologia evangélica pode fazer pela sociedade e cultura, principalmente no caso do Brasil. A editora Vida Nova é responsável por uma excelente revista, Teologia Brasileira, e pela tradução de diversos livros evangélicos de boa qualidade sobre a bíblia e questões políticas e econômicas.

Como parte do Congresso, foi emitida no dia 17 de março uma Declaração sobre a Atual Conjuntura Sociopolítica da Nação. O leitor atento verá que a Declaração tem quatro partes distintas. Do ponto de vista cristão e reformado há muito o que se elogiar nessa declaração, e as diferenças com a doutrina e prática reformadas devem ser minimizadas na avaliação do documento. Tal avaliação simpática, mas cuidadosa, é o que se pretende aqui.

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Antes da Declaração propriamente dita, temos um preâmbulo que basicamente chama os cristãos (em geral) a confessar certos pecados, a repudiar outros e a participar de forma ativa no presente “momento crítico em nossa história nacional.”

Em seguida, o documento faz três afirmações principais que possuem caráter abrangente e refletem uma linguagem confessional. Em primeiro lugar, a soberania da Santíssima Trindade sobre a criação, a história e principalmente a liderança das nações  é afirmada. É inclusive mencionado que Deus determina “que tudo, invariavelmente, atenda à sua vontade.” Em segundo lugar, afirma-se que é necessário que “cada cristão” tenha parte na vida pública. Isso é retratado como instrumento para espalhar a paz e justiça do reino de Deus “em todas as áreas” da vida social. Finalmente, afirma-se que a igreja fiel em sua missão (pregar a palavra e ministrar corretamente o batismo e a ceia) capacita, assim, os cristãos a servirem os mais vulneráveis na sociedade.

O cristão reformado pode dizer “sim” a esses pontos, com entusiasmo, notando principalmente a afirmação da soberania absoluta de Deus, e do seu governo sobre todas as coisas. Também do ponto de vista reformado é interessante notar que, contrariamente aos ensinos anabatistas de antigamente e também de várias igrejas hoje, há um chamado para o cristão (homem e mulher) participar da vida social, e não se isolar, rebaixando a vida pública a algo inferior ou “do mundo.” A ideia de um cristianismo que afeta todas as áreas da vida é promovida com entusiasmo pela cosmovisão bíblica e reformada. Além disso, a afirmação de que a igreja fiel equipa seus membros a servirem ao próximo é também refletida na confissão reformada sobre o papel da igreja.

É preciso notar, entretanto, alguns detalhes relevantes. Como um documento amplo e geral, a Declaração deseja falar a evangélicos (principalmente) de diversas tradições, incluindo pentecostais, batistas e outros. Por isso, o documento sabiamente evita definições pormenorizadas em cada um de seus pontos. Porém, ao dizer “sim” a este documento, o cristão reformado traz consigo um entendimento particular de certos aspectos que ele não deve abandonar.

A soberania de Deus

Ao versar sobre o absoluto controle de Deus, em sua providência, sobre tudo o que ocorre, o documento deixa subentendido que também o terrível momento atual pelo qual a nossa nação passa foi decretado por Deus. Essa ideia, apenas implícita na Declaração, deve ser lembrada em qualquer reflexão sobre o momento atual (Confissão Belga 13). A quadrilha de governantes larápios que têm, aos poucos, destruído o nosso país, dividido nossa sociedade e explorado ricos e pobres foi colocada a cargo da nação pelo próprio Deus Justo e Soberano.

Nossa primeira atitude diante desse fato deve ser de humildade e de reverência – e não de protesto ou reclamação – diante do Juiz Supremo, que hoje usa tais víboras – que zombam dele e de tudo o que é bom – para julgar nosso país, mas que no Juízo Final terá toda a razão em condenar qualquer criminoso que jamais se converteu de seus maus caminhos (Confissão Belga 37). Humilhados, e talvez perplexos, que aprendamos, assim, a nos ajoelhar em confissão de nossas faltas, pelas quais o país tem sido julgado, e a igreja, disciplinada, sabendo que a própria oração é um meio que esse Deus Soberano aproveita para executar sua vontade suprema.

Participação na vida pública

Ao mencionar que é preciso cada cristão se envolver na vida pública para expandir a paz e justiça que imperam no reino de Deus a cada área da convivência social, o documento também deixa margem para um entendimento reformado dessa ação na sociedade. Não se trata duma ação do chamado evangelho social ou da teologia da libertação ou duma suposta missão integral, e sim de um testemunho orientado pela transformação e redirecionamento que o evangelho traz. Esse evangelho deve ser proclamado e vivido, e essa vida não pode se limitar ao âmbito da interação eclesiástica, mas deve se engajar com tudo aquilo que é bom, proveitoso, edificante e lícito (Catecismo de Heidelberg, Domingo 12).

Serviço ao próximo

No que tange à capacidade da igreja fiel em preparar o cristão para o serviço ao próximo, é interessante notar a escolha de termos feita pelos autores da Declaração. Primeiro, o batismo e a ceia são mencionados por nome, e não pela categoria geral de sacramentos. Isso torna a Declaração aceitável também àqueles que negam o caráter sacramental a esses ritos. Porém, o cristão reformado entende que tanto a pregação das Escrituras, também mencionada como atividade da igreja fiel, como a administração dos sacramentos são meios de graça que equipam o membro da igreja fiel a amar a Deus e o próximo.

Além disso, o cristão reformado acrescentaria uma terceira marca da igreja fiel, a saber, a disciplina eclesiástica (Confissão Belga 29). Esse ponto fica também implícito na Declaração, pois ela fala da “administração correta” do batismo e da ceia. Sem disciplina, não há como executar corretamente essa tarefa.

Disciplina eclesiástica

Porém, é importante notar que a disciplina eclesiástica tem um papel fundamental em restringir o mal no seio da igreja – a mesma igreja que deve ser sal na terra e luz no mundo. A igreja fiel, ao aplicar a disciplina eclesiástica, cuida para que o nome de Deus não seja blasfemado na sociedade por causa do mau comportamento de seus membros (Catecismo de Heidelberg, Domingo 47). Ela também zela para que a conduta cristã em cada área da vida seja regulada pela lei de Deus (Confissão Belga 32). Finalmente, ela manifesta a autoridade de julgar, à luz das Escrituras, não somente a conduta, mas também a doutrina daqueles que Deus colocou sob seu governo (Catecismo de Heidelberg, Domingo 31). E, falando em governo, a disciplina eclesiástica é um importante meio usado por um dos mais importantes governos que Deus colocou na vida cristã – o governo de Cristo por meio da liderança na igreja local.

Em suma, a Declaração coloca três afirmações iniciais. Ela confessa a soberania de Deus, declara que é correto e necessário ao cristão envolver-se na vida pública e reitera a importância da igreja fiel. Além da humildade e da oração em reconhecimento ao juízo e disciplina de Deus na sua vontade soberana ao enviar esse momento difícil à nação, o cristão é chamado a repensar seu papel na vida social e, ao mesmo tempo, usar os meios de graça da igreja fiel, aceitando também sua relevância na promoção dos ensinos, valores e conduta vitais para uma verdadeira reforma da nossa cultura e sociedade.

Lucas Freire é editor do Política Reformada.

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Como orar pelos governantes?

Admoesto-te, pois, antes de tudo, que se façam deprecações, orações, intercessões, e ações de graças, por todos os homens; pelos reis, e por todos os que estão em eminência, para que tenhamos uma vida quieta e sossegada, em toda a piedade e honestidade (1Tm 2.1-2).

file0001059522887Após uma conferência inteira em que eu falei sobre a visão bíblica da política, enfatizando principalmente a tradição cristã reformada de pensamento político, surgiu uma pergunta. Eu tinha falado pouco a respeito do dever cristão de orar pelos governantes.

Eu havia dito que precisamos limitar o poder do governo, que precisamos nos organizar como cristãos associados para promover diversas causas independentemente do uso do poder coercitivo do governo, e que precisamos nos educar para entender corretamente o lugar da política no reino de Deus. Mas não falei nada sobre a oração.

Tudo o que eu falei pressupunha a oração, que é “a parte mais importante da gratidão que Deus exige de nós” (Catecismo de Heidelberg, Domingo 45), mas há jeitos certos e errados de se orar. Há um grande problema com certas orações que são feitas pelo governo e pelos governantes. É preciso corrigir esses erros para que tais orações sejam bíblicas e fiéis.

Ore ao Deus verdadeiro

Primeiramente, muitas vezes nós oramos a Deus para prover nossas necessidades, mas confiamos num falso deus que alegadamente responderá a essas orações. Em nossa oração, chamamos a Deus de “Pai nosso”, indicando, com nossos lábios, “esperar do Seu poder infinito tudo aquilo que necessitamos para os nossos corpos e almas” (Domingo 46). Porém, em nossa vida política, pode ser que implicitamente atribuamos a algum ídolo essa capacidade de prover o que necessitamos para o corpo.

É verdade que Deus escolheu meios terrenos para esse fim – ele escolheu o trabalho, a atividade econômica, a transformação da natureza em bens e serviços que podem ser trocados voluntariamente para satisfazer às necessidades práticas que nós temos e muito mais. Não é idolatria orar para que Deus use o meio que ele mesmo escolheu para esse fim, mas é idolatria absolutizar esse meio, como a Fonte Última do nosso sustento.

O cristão que ora para ter comida no prato, mas que desperdiça o pouco que tem com apostas, jogos de azar e consumismo supérfluo está contradizendo com a vida o que seus lábios afirmam: “Pai nosso”. Que ele use com afinco seus bens e talentos, meios que Deus mesmo disponibilizou, como resposta a essa oração. E não é errado pedir ajuda à Igreja (especialmente à sua diaconia), ou a outras organizações cristãs que podem auxiliar tanto no curto como no longo prazo.

Também é fácil nos esquecer que, ao orarmos por isso, estamos orando pelas provisões básicas e por nossa sobrevivência. Muitos de nós oram por essas coisas com um certo conforto, mas é bom lembrar, a cada refeição que tomamos, que há várias pessoas passando fome, e que precisam de ajuda. Oramos para que Deus use os meios que ele disponibilizou para nos ajudar. Pode ser que você mesmo seja um meio para uma pessoa que tem orado. Pode ser que você precise pensar melhor em como servir ao próximo, seja vendendo, contratando, emprestando, doando ou até mesmo comprando.

Ore por aquilo que Deus ordenou

Em segundo lugar, um dos fatores fundamentais na oração que Deus escuta é que ela seja feita “por … aquilo que Ele nos ordenou orar” (Domingo 45). Não ore para ganhar na loteria. E também não ore para Deus abençoar uma outra pessoa que vai roubar de quem tem para dar a você, que não tem.

Essa é uma outra idolatria, que absolutiza o papel do governo civil na vida social. O governo civil é chamado para promover a justiça pública, e não para promover a redistribuição ou o igualitarismo. ao orar pelo governo e pelos governantes, esqueça o que você aprende na escola sobre o papel do governo. A oração que Deus responde deve ser feita por aquilo que ele nos ordenou orar.

Ore pela justiça pública. Ore para que Deus tenha misericórdia da sua terra. Ore para que ele estabeleça a justiça, especialmente no caso dos mais vulneráveis, que não têm como se defender. Ore para que ele traga justiça aos homicidas, ladrões e corruptos. Aos que cometem fraude e estupro. Aos que sequestram e aos que inflacionam a moeda.

Ore para que o governo seja eficaz naquilo que é biblicamente o seu papel. Não ore para que o governo seja eficaz naquilo que não é o seu papel. É verdade que muita gente não entende esse papel. Ore pelo trabalho de cristãos reformados que têm procurado esclarecer ao povo essas questões. Ore pelos institutos que ensinam o papel bíblico do governo. Ore para que o eleitor aprenda e mude sua postura.

Ore, também, por arrependimento. Arrependimento dos governantes que violam a lei, seja ela a lei da nação ou o princípio bíblico que limita o papel do governo. E, por que não, ore para que esse arrependimento vá além do campo social e atinja também a vida espiritual dos nossos governantes.

Eu já fui várias vezes à “oração vespertina” nas catedrais inglesas. Fiz isso várias vezes, mas ainda me impressiono quando escuto essas orações cantadas no meio da semana. A Igreja da Inglaterra ainda ora pela Rainha e pela Família Real. Ora pela salvação de suas almas. Ora para o Espírito Santo santificar as suas vidas. Ora para que cumpram bem o seu cargo. Ora para que tenham sabedoria piedosa.

O termo “piedosa” não é por acaso. Existe a sabedoria da desobediência antibíblica, existe a “eficiência governamental” para fazer o mal, que muita gente pede equivocadamente a Deus, e existe a sabedoria piedosa, em obedecer o mandato que Deus deu ao magistrado civil.

Eu gastei uma conferência inteira falando sobre para que serve o governo, e o que é legítimo e moral na política cristã. É claro que devemos orar, e é claro que muitas vezes nossa oração envolverá de alguma forma a vida política da nação. Mas oração é coisa séria, e deve ser feita da forma certa, informada por esses princípios bíblicos sobre o papel e a legitimidade do governo civil.

O Nosso Senhor teve que ensinar seus discípulos a orar. E o que ele fala sobre política na oração que ensinou? Ele ora a Deus: “venha o teu reino” e “seja feita a tua vontade na terra, como no céu”. Você pode colocar “justiça pública” como parte disso. Sobre as suas provisões e subsistência, que vão além da justiça pública, diga “o pão nosso de cada dia dá-nos hoje”. Diga isso ao seu Pai no céu, e não aos que ocupam os assentos do Congresso, do Senado e da Presidência.

Lucas G. Freire é editor do Política Reformada.

O povo pode desobedecer ao governo?

Então, disse Saul: Deus me faça o que bem lhe aprouver; é certo que morrerás, Jônatas. Porém o povo disse a Saul: Morrerá Jônatas, que efetuou tamanha salvação em Israel? Tal não suceda. Tão certo como vive o Senhor, não lhe há de cair no chão um só cabelo da cabeça! Pois foi com Deus que fez isso, hoje. Assim, o povo salvou a Jônatas, para que não morresse. — 1 Samuel 14.44,45

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A Bíblia ensina claramente que não há autoridade que não proceda de Deus, e portanto todo homem deve estar sujeito às autoridades superiores. As autoridades que existem foram por ele instituídas. De modo que aquele que se opõe à autoridade resiste à ordenação de Deus; e os que resistem trarão sobre si mesmos condenação. (Romanos 13) Cabe a todos nós, portanto, pagar a todos o que lhes é devido:a quem tributo, tributo; a quem imposto, imposto; a quem respeito, respeito; a quem honra, honra. O quinto mandamento continua em vigor, nos instruindo que faz parte de uma vida de gratidão e obediência ao nosso Deus gracioso nos submeter com alegria aos nossos superiores.

Mesmo neste momento de crise, é bom lembramos da exortação do apóstolo: “Exorto que se use a prática de súplicas, orações, intercessões, ações de graças, em favor de todos os homens, em favor dos reis e de todos os que se acham investidos de autoridade, para que vivamos vida tranquila e mansa, com toda piedade e respeito.” Esta oração deve incluir a Presidente, todo o Congresso Nacional, todos os níveis do governo federal, estadual e municipal, todos os magistrados, a polícia, e o exército. Não é por nada que o apóstolo Paulo nos diz que devemos orar sem cessar. Temos muitos assuntos que precisam ser colocados diante do trono da graça. Estamos sendo fiéis nisto? Continuar lendo

É lícito participar das manifestações políticas no domingo?

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R Loewenthal/Flickr.com

A resposta é: depende. Os princípios bíblicos são claros e imutáveis; como estes princípios se aplicam pode variar conforme a situação de cada um. Deixe-me compartilhar alguns princípios:

  1. O que não provém da fé é pecado. Quem tem dúvidas sobre a legitimidade de participar, não deve participar. Ponto. Romanos 14.23.
  2. O domingo é em primeiro lugar um dia reservado para adoração, em comunhão com os santos, debaixo da pública pregação da Palavra, com a administração dos sacramentos, a oração, e a oferta pelos pobres. Historicamente a Igreja tem entendido que só obras de necessidade e caridade são razões suficientes para deixar de participar na assembleia solene. As manifestações políticas não se enquadram em nenhuma dessas duas categorias. Portanto, Biblicamente é impossível justificar uma decisão de propositadamente se ausentar do culto solene para participar em uma manifestação. Será que existe atividade mais importante no universo do que entrar por trás do véu pelo novo e vivo caminho que Cristo abriu, para se encontrar com o Rei dos reis, o Senhor dos senhores, em obediência à santa convocação? Salmo 95, Atos 2.42-47, Hebreus 10.23-25, 1Coríntios 16.2.

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