Como orar pelos governantes?

Admoesto-te, pois, antes de tudo, que se façam deprecações, orações, intercessões, e ações de graças, por todos os homens; pelos reis, e por todos os que estão em eminência, para que tenhamos uma vida quieta e sossegada, em toda a piedade e honestidade (1Tm 2.1-2).

file0001059522887Após uma conferência inteira em que eu falei sobre a visão bíblica da política, enfatizando principalmente a tradição cristã reformada de pensamento político, surgiu uma pergunta. Eu tinha falado pouco a respeito do dever cristão de orar pelos governantes.

Eu havia dito que precisamos limitar o poder do governo, que precisamos nos organizar como cristãos associados para promover diversas causas independentemente do uso do poder coercitivo do governo, e que precisamos nos educar para entender corretamente o lugar da política no reino de Deus. Mas não falei nada sobre a oração.

Tudo o que eu falei pressupunha a oração, que é “a parte mais importante da gratidão que Deus exige de nós” (Catecismo de Heidelberg, Domingo 45), mas há jeitos certos e errados de se orar. Há um grande problema com certas orações que são feitas pelo governo e pelos governantes. É preciso corrigir esses erros para que tais orações sejam bíblicas e fiéis.

Ore ao Deus verdadeiro

Primeiramente, muitas vezes nós oramos a Deus para prover nossas necessidades, mas confiamos num falso deus que alegadamente responderá a essas orações. Em nossa oração, chamamos a Deus de “Pai nosso”, indicando, com nossos lábios, “esperar do Seu poder infinito tudo aquilo que necessitamos para os nossos corpos e almas” (Domingo 46). Porém, em nossa vida política, pode ser que implicitamente atribuamos a algum ídolo essa capacidade de prover o que necessitamos para o corpo.

É verdade que Deus escolheu meios terrenos para esse fim – ele escolheu o trabalho, a atividade econômica, a transformação da natureza em bens e serviços que podem ser trocados voluntariamente para satisfazer às necessidades práticas que nós temos e muito mais. Não é idolatria orar para que Deus use o meio que ele mesmo escolheu para esse fim, mas é idolatria absolutizar esse meio, como a Fonte Última do nosso sustento.

O cristão que ora para ter comida no prato, mas que desperdiça o pouco que tem com apostas, jogos de azar e consumismo supérfluo está contradizendo com a vida o que seus lábios afirmam: “Pai nosso”. Que ele use com afinco seus bens e talentos, meios que Deus mesmo disponibilizou, como resposta a essa oração. E não é errado pedir ajuda à Igreja (especialmente à sua diaconia), ou a outras organizações cristãs que podem auxiliar tanto no curto como no longo prazo.

Também é fácil nos esquecer que, ao orarmos por isso, estamos orando pelas provisões básicas e por nossa sobrevivência. Muitos de nós oram por essas coisas com um certo conforto, mas é bom lembrar, a cada refeição que tomamos, que há várias pessoas passando fome, e que precisam de ajuda. Oramos para que Deus use os meios que ele disponibilizou para nos ajudar. Pode ser que você mesmo seja um meio para uma pessoa que tem orado. Pode ser que você precise pensar melhor em como servir ao próximo, seja vendendo, contratando, emprestando, doando ou até mesmo comprando.

Ore por aquilo que Deus ordenou

Em segundo lugar, um dos fatores fundamentais na oração que Deus escuta é que ela seja feita “por … aquilo que Ele nos ordenou orar” (Domingo 45). Não ore para ganhar na loteria. E também não ore para Deus abençoar uma outra pessoa que vai roubar de quem tem para dar a você, que não tem.

Essa é uma outra idolatria, que absolutiza o papel do governo civil na vida social. O governo civil é chamado para promover a justiça pública, e não para promover a redistribuição ou o igualitarismo. ao orar pelo governo e pelos governantes, esqueça o que você aprende na escola sobre o papel do governo. A oração que Deus responde deve ser feita por aquilo que ele nos ordenou orar.

Ore pela justiça pública. Ore para que Deus tenha misericórdia da sua terra. Ore para que ele estabeleça a justiça, especialmente no caso dos mais vulneráveis, que não têm como se defender. Ore para que ele traga justiça aos homicidas, ladrões e corruptos. Aos que cometem fraude e estupro. Aos que sequestram e aos que inflacionam a moeda.

Ore para que o governo seja eficaz naquilo que é biblicamente o seu papel. Não ore para que o governo seja eficaz naquilo que não é o seu papel. É verdade que muita gente não entende esse papel. Ore pelo trabalho de cristãos reformados que têm procurado esclarecer ao povo essas questões. Ore pelos institutos que ensinam o papel bíblico do governo. Ore para que o eleitor aprenda e mude sua postura.

Ore, também, por arrependimento. Arrependimento dos governantes que violam a lei, seja ela a lei da nação ou o princípio bíblico que limita o papel do governo. E, por que não, ore para que esse arrependimento vá além do campo social e atinja também a vida espiritual dos nossos governantes.

Eu já fui várias vezes à “oração vespertina” nas catedrais inglesas. Fiz isso várias vezes, mas ainda me impressiono quando escuto essas orações cantadas no meio da semana. A Igreja da Inglaterra ainda ora pela Rainha e pela Família Real. Ora pela salvação de suas almas. Ora para o Espírito Santo santificar as suas vidas. Ora para que cumpram bem o seu cargo. Ora para que tenham sabedoria piedosa.

O termo “piedosa” não é por acaso. Existe a sabedoria da desobediência antibíblica, existe a “eficiência governamental” para fazer o mal, que muita gente pede equivocadamente a Deus, e existe a sabedoria piedosa, em obedecer o mandato que Deus deu ao magistrado civil.

Eu gastei uma conferência inteira falando sobre para que serve o governo, e o que é legítimo e moral na política cristã. É claro que devemos orar, e é claro que muitas vezes nossa oração envolverá de alguma forma a vida política da nação. Mas oração é coisa séria, e deve ser feita da forma certa, informada por esses princípios bíblicos sobre o papel e a legitimidade do governo civil.

O Nosso Senhor teve que ensinar seus discípulos a orar. E o que ele fala sobre política na oração que ensinou? Ele ora a Deus: “venha o teu reino” e “seja feita a tua vontade na terra, como no céu”. Você pode colocar “justiça pública” como parte disso. Sobre as suas provisões e subsistência, que vão além da justiça pública, diga “o pão nosso de cada dia dá-nos hoje”. Diga isso ao seu Pai no céu, e não aos que ocupam os assentos do Congresso, do Senado e da Presidência.

Lucas G. Freire é editor do Política Reformada.

Bolha Econômica

por Lucas G. Freire

O governo Dilma anunciou, às vésperas da eleição, um pacote econômico que injetará mais moeda e crédito na economia. O objetivo do pacote é estimular o investimento e o consumo, trazendo um crescimento imediato a certos setores da economia.

O cristão não tem motivo prático ou moral para celebrar.

Continuar lendo

Universo Normativo

por Lucas G. Freire

Estarei em breve apresentando um trabalho na Universidade de St. Andrews na Escócia sobre algumas ideias políticas no mundo antigo. Os antigos acreditavam que existia perversidade e mal na política, e que isso deveria ser evitado. De certa forma, eles estão mais próximos da verdade que muita gente ‘científica’ hoje em dia.

Os reis do Oriente Próximo não acreditavam que tinham o poder absoluto. Embora alguns desses reis de fato tivessem bastante poder, chegando a ponto de serem idolatrados, eles ainda assim entendiam que deveriam responder por suas ações.

Esses reis da antiguidade se viam como responsáveis, diante dos seus deuses, pelo bem-estar do povo governado. Além disso, mesmo um rei poderoso que conquistava o território de outros reis, impondo-lhes tributo, deveria respeitar os limites estipulados pelos juramentos feitos a esses reis subordinados.

Caso o juramento fosse quebrado, ou o rei fosse muito injusto e parcial ao julgar o seu povo, ele cria que seria punido pelos deuses – ele, sua família e todo o país – com maldições diversas, como, por exemplo, a fome, a pobreza e a derrota na guerra.

Alguns achados arqueológicos registram a oração de alguns reis, reconhecendo essa ligação entre o mal que fizeram e o mal que lhes sobreveio. Uma oração do rei dos hititas, por exemplo, suplica aos deuses que suspendam uma epidemia e uma invasão estrangeira que estão prestes a devorar o país inteiro.

Na corte, os reis dispunham de profetas, que tinham a responsabilidade de falar inclusive contra o rei, mostrando que as políticas dele iam contra a justiça exigida pelos deuses, ou que eram excessivamente agressivas contra os reinos adversários.

Mais tarde, quando os impérios da antiguidade começaram a se formar, esse sistema foi subvertido. Na Assíria, por exemplo, os deuses eram vistos como sempre favoráveis ao país. Os profetas da corte se tornaram meros bajuladores do monarca. O rei estava praticamente isento de responder por seus atos.

Mas isso era ilusão. Havia um limite externo. Um império devorava o outro. Havia, também, um limite interno. Um rei arbitrário e injusto logo era substituído por um golpe. Em vários casos, a própria família do rei o matava, para que fosse substituído.

A ideia geral era de um universo normativo. Isto é, o universo não é arbitrário. Existem normas que moldam o mundo à nossa volta.

Embora essa ideia esteja correta, sua aplicação por esses povos politeístas foi pesadamente criticada pela Bíblia. No Salmo 82, por exemplo, podemos ler:

Deus está na congregação dos poderosos;
julga no meio dos deuses.
Até quando julgareis injustamente,
e aceitareis as pessoas dos ímpios?
Fazei justiça ao pobre e ao órfão;
justificai o aflito e o necessitado.
Livrai o pobre e o necessitado;
tirai-os das mãos dos ímpios.
Eles não conhecem,
nem entendem;
andam em trevas;
todos os fundamentos da terra vacilam.
Eu disse: Vós sois deuses,
e todos vós filhos do Altíssimo.
Todavia morrereis como homens,
e caireis como qualquer dos príncipes.
Levanta-te, ó Deus,
julga a terra,
pois tu possuis todas as nações.

Mesmo aqueles povos, que acreditavam num universo normativo, estavam equivocados no seu conceito de justiça. O autor do Salmo 82 não hesita em afirmar que, em última análise, Deus vai julgar a terra, e impera sobre todas as nações (ver, por exemplo, 2Re 19.35-37).

O cristão afirma a existência de normatividade no universo. A vida social, política, estética, jurídica, cultural, e a assim por diante, acontece dentro de uma malha de normas que foram colocadas no mundo por um Criador, a quem todos nós respondemos por nossos atos.

A intriga e a maldade na política não são novidade. A embriaguez com a concentração de poder também não. O que é novidade é a visão do universo como algo arbitrário e sem propósito.

O discurso político atual tem girado em torno da pergunta: “o que funciona?”, ao invés de girar em torno da pergunta: “o que é legítimo fazer?” Os antigos faziam essa segunda pergunta.

Do ponto de vista cristão, sua resposta foi errada, mas ao menos a escolha da pergunta foi adequada. E, já que estamos falando não de normas isoladas, e sim duma malha normativa, responder bem à pergunta sobre o que é “legítimo” é responder bem à pergunta sobre o que “funciona”.

Na política, o que é “legítimo” é um governo limitado ao seu papel de promover a justiça pública. Isso, não por coincidência, é também o que “funciona”. O Estado-babá, o Estado-empresário, o Estado-cientista – nada disso é “legítimo” nem “funciona” no longo prazo.

O cristão confessa a existência dum universo normativo. Por isso, sua política é também normativa. Essa lição dos antigos nós podemos tirar. E não custa nada ir além, olhando para a Sagrada Escritura para evitar o erro dos antigos. E, obviamente, é preciso também evitar o erro dos modernos.

Aborto: Não basta ser contra

por Lucas G. Freire

Entre nossos políticos e burocratas, assistentes sociais e ativistas, militantes e intelectuais, existe uma tendência a tratar o aborto como prática normal, e sua liberalização como um alvo desejável. O aborto que se pretende legalizar no Brasil é um tipo de homicídio. Os que desejam sua legalização querem que o governo promova aquilo que é mau e dificulte aquilo que é bom. Nessa inversão de vida e morte, a mulher que teme a Deus nada contra a corrente da sociedade contemporânea. Faz ela muito bem.

Porém, sua estratégia muitas vezes é incompleta. É que, em diversas ocasiões nosso combate ao mal deixa a desejar, não vai além do básico. Para não dizer falso testemunho contra o próximo, basta fechar a boca. Para defender a honra do seu próximo, em palavra e pensamento, é preciso um esforço consideravelmente maior. Na luta contra o pecado, a tendência é pensar que basta não fazer o mal. É muito mais difícil ir além, promovendo ativamente o bem que esse pecado fere.

Continuar lendo

Não é hora de desespero!

por Lucas G. Freire

Nesta época de polarização política esquerda e direita, vermelhos e azuis, muita coisa interessante tem aparecido entre os jornalistas e comentaristas. Uma delas é o senso de emergência, de que o nosso país está sob ameaça e precisa reagir de alguma forma.

Os vermelhos desejam um tom ainda mais vermelho na nossa política. Os azuis desejam mudar a cor do país. Não sei o que desejam os “nem lá nem cá” que preferem o verde-e-amarelo. De qualquer forma, o discurso da emergência e da ameaça está lá.

Continuar lendo

Esquerda ou Direita? Não é esse o ponto!

por Lucas G. Freire

Os comentários do escritor Paulo Brabo sobre cristianismo, “direita” e “esquerda” se resumem nos seguintes pontos: muitos cristãos são de direita ou esquerda, e isso depende mais da sua preferência política que de sua leitura do cristianismo. É complexo e difícil definir direita e esquerda – mais ainda do ponto de vista dos supostos “direitistas” e “esquerdistas”. Mas a definição (diz Brabo) se resume ao seguinte:

De direita é quem de alguma forma sustenta que a desigualdade social é coisa necessária ou inevitável; de esquerda é quem sustenta que não.

Essa é a “raiz,” diz ele, de onde “brotam todos os ramos.” De onde ele tirou essa definição eu não sei. Mas suponhamos que seja assim, suponhamos que o programa político da “direita” é defender a desigualdade, e o da “esquerda” é atacar a direita.

Continuar lendo

O Rei dos Patos e o Rei dos Reis

por Lucas G. Freire

“Os Reis dos Patos” é um reality show do canal americano A&E na TV a cabo que retrata a vida duma família rural bem-sucedida no negócio de venda de equipamentos de caça. A família confessa a fé cristã e tem presença ativa na igreja evangélica local. Phil Robertson, apresentado no programa como o “patriarca” dessa grande família, e líder do empreendimento, tem sido duramente criticado por ter expressado na TV a sua crença de que o homossexualismo é pecado. O canal repudia sua atitude e suspendeu o Sr. Robertson do programa.

Continuar lendo

Mensalão e (In)justiças

por Vinícius S. Pimentel

O julgamento da ação penal 470, que apura os crimes cometidos no chamado “escândalo do mensalão,” representa sem dúvida um evento emblemático na história política brasileira. Aqueles que desejam engajar-se numa atuação política distintamente cristã não podem se furtar de acompanhar o desfecho do caso. Contudo, devem tomar o cuidado de fazê-lo de um modo que não desonre o mandamento divino “não dirás falso testemunho contra o teu próximo”.

Continuar lendo

Rato no Refrigerante

por Lucas G. Freire

A televisão mostrou recentemente a triste história de um homem que está processando a Coca-Cola brasileira na justiça de São Paulo.

O caso tem gerado bastante polêmica, pois a vítima tem problemas de saúde atribuídos ao consumo de uma amostra defeituosa do refrigerante.

Continuar lendo

Protestos no Brasil: Chegou a Hora de uma Política Reformada?

Traduzido e adaptado pelo próprio autor. O artigo “Protests in Brazil: Time for Reformed Politics?” foi publicado originalmente pela revista Christian Renewal 31, no.16-17 (Julho/Agosto 2013): 8

Continuar lendo