Pastores-políticos: pode isso, Perkins?

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Nos últimos dias, surgiram nas redes sociais várias discussões entre cristãos sobre se seria lícito a um pastor cumular um ofício político, como o de vereador. Esses debates não focavam o aspecto da laicidade do Estado — como por vezes se discute, sobretudo entre os progressistas, se deveria haver algum tipo de impedimento ao exercício de cargo político por pessoas professadamente religiosas. Em vez disso, a conversa girava em torno da ética vocacional cristã: se há várias situações em que se admitem ministros evangélicos bivocacionados (por exemplo, quando exercem o magistério), por que a vocação política seria uma exceção?

Acredito que podemos encontrar muita sabedoria para lidar com este assunto no livro A Treatise of the Vocations (“Um tratado das vocações”), do puritano William Perkins (1558–1602), que apresenta de forma sistematizada e pretensamente exaustiva uma “teologia prática” das vocações.

A obra se estrutura do seguinte modo: após definir “vocação” ou “chamado” (“é um certo tipo de vida, ordenado e imposto ao homem por Deus, para o bem comum”) e distinguir entre vocação geral e particular, Perkins discorre sobre como fazer uma boa escolha, uma boa entrada, um bom progresso e umbom término do chamado.

No capítulo sobre a “boa entrada no chamado”, Perkins responde se é lícito a alguém entrar em duas vocações ao mesmo tempo. Ele defende que essa dupla vocação é aceitável em alguns casos, mas não em outros.

É lícito exercer duas vocações em três circunstâncias:

1. Quando o próprio Deus determina a combinação de dois chamados. O exemplo mais óbvio é o de Melquisedeque, que foi designado rei e sacerdote.

2. Quando o duplo chamado não contraria as Escrituras e, ao mesmo tempo, serve ao bem comum em determinadas circunstâncias peculiares. Perkins usa os exemplos de Eli (sacerdote e juiz), Samuel (profeta e juiz) e Moisés (profeta e governante civil) e explica que, “naqueles períodos, ambos os ofícios estavam tão corrompidos que não se podiam achar homens comuns suficientes para exercer cada chamado separadamente”.

3. Quando dois chamados podem ser cumulados sem se atrapalharem mutuamente ou impedirem o bem comum. Aqui, Perkins está falando de vocações que são tipicamente cumuladas, como as de pai e de profissional, mas também de situações em que necessidades particulares exigem a dupla vocação, como quando o apóstolo Paulo fazia tendas em Corinto. Perkins diz que, em casos de similar necessidade, um ministro evangélico pode exercer outro chamado, desde que isso não seja um empecilho à sua vocação principal nem se torne numa afronta aos homens.

Em sentido contrário, a dupla vocação se torna ilícita também em três circunstâncias:

1. Quando Deus dissocia dois chamados por sua Palavra e mandamento.

2. Quando a prática de um chamado atrapalha a do outro.

3. Quando a combinação de dois chamados prejudica o bem comum.

Perkins usa então alguns exemplos em que a dupla vocação é inaceitável: o Senhor Jesus, sendo Mestre da igreja, se recusou a ser juiz num conflito entre dois irmãos pela herança; os apóstolos, em virtude dos deveres do seu chamado, se recusaram a exercer o ofício de diáconos. E conclui:

A partir disso inferimos que nas cidades, corporações e sociedades, deve-se tomar cuidado (tanto quanto possível) para que os diversos ofícios e encargos, sendo em si mesmo pesados e de espécies distintas, não sejam postos sobre os ombros de um só homem. Pois a execução de todos eles causa distrações — e as distrações incapacitam até o mais apto homem de desincumbir-se de um ofício que seja.

O argumento geral de Perkins (com o qual concordamos) nos permite afirmar duas coisas. Por um lado, não é possível afirmar que a cumulação dos ofícios de ministro eclesiástico e magistrado civil seja sempre ilícita, já que eles não foram expressamente dissociados nas Escrituras. Todavia, por outro, é altamente recomendável que essas duas vocações permaneçam separadas; pois cada uma envolve grandes atribuições (são “em si mesmas pesadas”) e há pouca ou nenhuma sobreposição entre si (são “de espécies distintas).

Portanto, a partir da sabedoria bíblica exposta por William Perkins, a dupla vocação de ministro e magistrado somente seria possível em circunstâncias altamente peculiares, nas quais não houvesse número suficiente de homens aptos para que cada um dos ofícios fosse exercido por indivíduos diferentes. Fora dessa hipótese incomum, é mais provável que a cumulação desses chamados seja um obstáculo ao bem comum: sofrerá a igreja, sofrerá a sociedade.

Os Salmos e a Primeira Guerra Mundial

Czech NT Psalms 2Todo mundo sabe como tudo começou. Era o final de junho em 1914. As tensões vinham crescendo há décadas entre as potências europeias rivais. O herdeiro do trono Austro-húngaro, o arquiduque Franz Ferdinand, estava visitando Sarajevo, a capital da Bósnia-Herzegovina, quando ele e sua esposa foram assassinados por um nacionalista sérvio chamado Gavrilo Princip. A então anexação por Viena daquela província seis anos antes tinha quase levado à guerra, mas agora as vias de fato estavam a apenas um mês de acontecer. Quando a poeira baixou e a guerra terminou, quatro anos depois, cerca de dezesseis milhões de pessoas tinham perdido suas vidas, e o mundo nunca mais foi o mesmo. Antigos impérios caíram, reis e imperadores tombaram de seus tronos e foram exilados. Populações inteiras foram cruelmente arrancadas de seus lares, simplesmente por viverem no lado errado de fronteiras arbitrariamente estabelecidas durante e depois das hostilidades terem terminado.

Há quase quatro décadas atrás, eu visitei Praga, a capital do que ainda era a Tchecoslováquia comunista e, antes da primeira guerra mundial, parte do Império Austro-Húngaro. Durante minha estadia lá, comprei em uma livraria de antiguidades o Novo Testamento e os Salmos em checo publicado em 1845 para “Cristãos Evangélicos de Confissões de Augsburgo e Helvética”, ou seja, para luteranos e cristãos reformados. A impressão estava em fonte German black letter e algumas palavras já haviam caído em desuso.

Há aproximadamente sete anos, notei algo interessante sobre o Livro dos Salmos neste volume. O proprietário anterior do livro, cujo sobrenome era Lány, leu os Salmos ao ritmo de aproximadamente um salmo por dia (exceto, claro, pelo Salmo 119), lembrando de marcar a data no cabeçalho de cada um. Ele começou com o Salmo 1 em primeiro de agosto de 1914, e continuou até ler o Salmo 150 em 19 de janeiro de 1915.

Estou convencido de que o momento de suas orações pelos Salmos não foi acidental. A guerra tinha estourado quatro dias antes, e o mundo inteiro seria rapidamente engolido no desenrolar do conflito. Se Lány tinha filhos que poderiam estar sujeitos à convocação militar ou se ele temia pela segurança de seu lar e de sua comunidade não se pode ter certeza.

Contudo, ao tempo em que a batalha de Tannenberg estava se estendendo para o Norte, Lány orava pelo mais que apropriado Salmo 27: “Ainda que um exército se acampe contra mim, não se atemorizará o meu coração; e, se estourar contra mim a guerra, ainda assim terei confiança”. Não muito depois, no dia em que a Rússia derrotou a Áustria na batalha de Rawa, Lány orava no Salmo 42: “Digo a Deus, minha rocha: por que te olvidaste de mim? Por que hei de andar eu lamentando sob a opressão dos meus inimigos? Esmigalham-se-me os ossos, quando os meus adversários me insultam, dizendo e dizendo: O teu Deus, onde está?”

Os Salmos podem ter fornecido conforto a Lány, ou eles podem ter expressado seus temores e sua ira nas semanas iniciais da guerra. Claro, ao orar usando os Salmos ele não fazia nada novo; ele estava apenas seguindo os exemplos da igreja primitiva, da Regra de São Bento, e até da sua própria comunidade eclesiástica, a qual suspeito que tenha sido Luterana.

Um século depois, ainda não conseguimos expressar facilmente as emoções que nossos antepassados experimentaram naqueles dias sombrios do início da guerra. Os últimos veteranos se foram, e aqueles que possuem uma vaga memória do conflito têm mais de cem anos de idade.

Entretanto, a história não para. Enquanto escrevo, as tensões aumentam entre a Rússia e grande parte do mundo (ocidental) a respeito do endosso russo ao separatismo na Ucrânia. E o Estado Islâmico pode, a longo prazo, extinguir um país cuja existência se deve à vitória Anglo-francesa em 1918. Apesar de esses conflitos parecerem improváveis a nos conduzir a outra guerra mundial, eles ilustram que, passado um século, a situação da humanidade permanece a mesma. Não passaram-se sequer dois ou mais milênios. Em uma das minhas bíblias o Salmo 82 tem o seguinte título: “Um clamor por justiça”, e se encerra com as seguintes palavras: “Levanta-te, ó Deus, julga a terra, pois a ti compete a herança de todas as nações.” De fato, todos os nossos falíveis esforços humanos por justiça são dependentes do reconhecimento desta simples verdade bíblica.

Tradução: José Reginaldo Jr.

Fonte: One Hundred Years Later: The Psalms and the First World War

Graça e evangelho até as entranhas

por Douglas Wilson

Sem domínio próprio, nenhuma outra forma de governo justo é possível. A única maneira de equilibrar ordem e liberdade em qualquer sociedade mais liberal é quando seus indivíduos sabem como equilibrar ordem e liberdade em suas próprias vidas. O referencial de liberdade organizada é a liberdade do vício no nível individual.

Aqueles que exercem autoridade despótica sabem disso tanto quanto os amantes da liberdade. É por isso que oferecem suborno. Licenciosidade sexual, fumar maconha, pornografia generalizada e bebedeira criam sensações de liberdade, mas tudo isso são coisas que podem ser permitidas no cubículo de uma cela de prisão. Oferecidas sensações incompletas de liberdade e impostas grandes restrições sobre a liberdade externa, você tem uma sociedade que é, ao mesmo tempo, licenciosa e legalista. É onde nos encontramos hoje.

bees-276190_1920É conveniente, para uma república livre, eleger um presidente para representá-los. Mas quando uma república começa a se transformar em um enxame coletivista, como a nossa se transformou, o nome mais apropriado para o líder desse governo seria algo como “apicultor”. As abelhas são coagidas externamente, mas antinomianas por dentro.

É fácil considerar o legalismo como uma ponta do espectro e a licenciosidade como a outra, com a liberdade ocupando algum tipo de posição intermediária, como se fosse um caso de calcular a média entre legalismo e licenciosidade. Mas isso está longe de ser verdade. A liberdade não é uma questão do ideal aristotélico [“a virtude está no meio”]. Legalismo e licenciosidade são siameses ligados numa ponta, com a liberdade na outra. A liberdade é a única alternativa a ambos.

Jesus disse que nossa justiça precisava exceder a dos fariseus (Mt 5.20). Elas eram um amontoado de regras, restrições e “não toqueis” (legalismo), mas também um amontoado voraz de concupiscências (Mt 23.25). Internamente, era tudo permissividade. Eles não eram justos, e nem de longe justos o suficiente.

Esta liberdade sobre a qual estou falando, a liberdade do homem livre, só é possível como a liberdade de um homem cristão. E isso significa graça e evangelho até as entranhas.

Fonte: Blog & Mablog

Tradução: Leonardo Bruno Galdino

A base do governo livre

por Douglas Wilson

chains-19176_1920A base de toda forma de governo livre — quer na família, nos assuntos civis ou no governo da igreja — é a autonomia. Se as pessoas não têm autocontrole, pode ter certeza de que elas serão controladas por forças externas.

É fácil lamentar o despotismo quando ele oprime, quando os impostos são dívidas e quando as regulamentações são onerosas. Quando Faraó exige tijolos mas não fornece as palhas, todos os escravos lamentam a escravidão. Sempre que as contas vencem, o mundo inteiro é libertário.

Assim, precisamos comparar dois ensinos da Escritura. O primeiro é que a liberdade é obra do Espírito de Deus. “Ora, o Senhor é o Espírito; e, onde está o Espírito do Senhor, aí há liberdade” (2Co 3.17). E a segunda passagem é esta: “Mas o fruto do Espírito é […] domínio próprio” (Gl 5.22-23). Um dos principais instrumentos que o Espírito Santo usa para promover a verdadeira liberdade é libertar da imoralidade os que dela são escravos. Ele corta suas correntes. Mas o autor do hino sabe o que necessariamente resulta disso. Levantei-me, segui adiante e Te segui.

Uma geração de escravos do pecado não pode ser livre. Eles não sabem o que é liberdade. Ela os aterroriza. Se lhes fosse concedida, não teriam ideia de como preservá-la. “Como cidade derribada, que não tem muros, assim é o homem que não tem domínio próprio” (Pv 25.28). É por isso que a embriaguez é uma questão política. É por isso que a pornografia é uma questão tão séria. Uma geração de fumantes de maconha não pode ser livre.

Se algum déspota propusesse acorrentar você na parede de um calabouço, mas prometesse implantar um eletrodo na central de prazer do seu cérebro de tal forma que você tivesse uma euforia incessante até o dia de sua morte, o que você acharia disso? Mas se você não aceitaria esse grandioso suborno, por que está perdendo tempo com suborninhos? Se você não aceitaria um prazer desmedido em troca de sua liberdade, por que está se conformando com prazeres insignificantes em troca dela?

Só há um modo de homens e mulheres libertarem-se: se forem endireitados.

Tradução: Leonardo Bruno Galdino

Original: The Foundation of Free Government

 

Arte urbana

por Peter Leithart

Apocalipse 21-22 fornece uma visão de uma cidade adornada. Reis trazem-lhe tesouros, mas a cidade não é um galpão de objetos de arte. A cidade é um objeto de arte. A ordem civil inteira é uma criação artística.

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Imagem: “Tapeçaria do Apocalipse”, Castelo de Angers, França.

Se a cidade é um objeto de arte, segue-se que todas as demais funções e ações que entram na estrutura e criação de uma cidade possuem uma dimensão artística. Note a descrição da cidade em Apocalipse 18.22-24. As coisas que faltam na Babilônia são aquelas que compõem a vida civil:

E voz de harpistas, de músicos, de tocadores de flautas e de clarins jamais em ti se ouvirá, nem artífice algum de qualquer arte jamais em ti se achará, e nunca jamais em ti se ouvirá o ruído de pedra de moinho. Também jamais em ti brilhará luz de candeia; nem voz de noivo ou de noiva jamais em ti se ouvirá, pois os teus mercadores foram os grandes da terra, porque todas as nações foram seduzidas pela tua feitiçaria. E nela se achou sangue de profetas, de santos e de todos os que foram mortos sobre a terra.

Essas são as “artes” da vida urbana, e incluem não apenas as belas artes, mas as artes mecânica, política e econômica.

Uma cidade é um ambiente construído, e há uma dimensão estética óbvia para a organização de seu espaço, os tipos de prédios e outras construções que a compõem, a harmonia dos edifícios, parques, calçadas e estradas.

Há uma dimensão artística para a política. Um governante hábil harmoniza e orquestra as pessoas e recursos para criar uma ordem civil não apenas bela, mas justa. A própria justiça é um tipo de beleza, de harmonia. Certamente é possível brutalizar seu caminho para uma cidade bela, mas uma ordem de justiça e liberdade é parte da beleza de uma cidade. Você pode criar uma cidade “bonita” que é construída para excluir determinadas pessoas de participarem plenamente dela, mas sua beleza será comprometida.

Há uma dimensão artística para os negócios, que produz e distribui bens e serviços que intensificam as vidas dos habitantes, que adornam a cidade com riqueza e beleza.

Fonte: First Things

Tradução: Leonardo Bruno Galdino

Queres tu não Temer a autoridade?

Temer

O afastamento da presidente Dilma Rousseff de suas funções, consequência da instauração do processo de impeachment pelo Senado Federal, tem provocado reações diametralmente opostas entre os brasileiros. Uns consideram o avanço do processo de impedimento uma tentativa de “golpe de estado”; outros comemoram a saída (ainda temporária) de Dilma como se assistissem à apocalíptica queda da Grande Meretriz.

Certamente há algo a celebrar. O afastamento da presidente, espera-se, prenuncia a justa retribuição pelo criminoso desequilíbrio fiscal que se instalou em Brasília. Programas sociais caríssimos, mas de eficácia duvidosa; uma máquina estatal agigantada para acomodar todos os “donos do poder”, seus parentes e amigos; e espúrias alianças com empresas privadas para fraudar licitações e contratos administrativos, não só para o enriquecimento ilícito de seus mentores, mas também para possibilitar a perpetuação de um projeto político de inclinações totalitárias – tudo isso levou a um superendividamento dos cofres públicos que o governo federal tentou ocultar por meio das famosas “pedaladas fiscais”. Essa conduta irresponsável e ilegal causou danos a toda a população e, sem dúvidas, merece ser julgada e punida pela autoridade competente – no caso, o Senado da República.

Além disso, os primeiros atos do presidente em exercício, Michel Temer, sinalizam alguma brisa de liberdade sobre a nação. Podem-se comemorar o possível enxugamento de cargos públicos (com a redução dos ministérios), bem como as propostas de flexibilização das leis trabalhistas, de reforma do regime de contratação dos entes públicos, de simplificação da legislação tributária e de não intervenção do Banco Central sobre o câmbio. É improvável que Temer empreenda reformas mais profundas que reduzam significativamente o tamanho do estado, aproximando-o da norma bíblica de governo limitado à esfera da justiça pública. Mas, em terra de cego, quem tem um olho é rei; alguma liberdade é, sim, melhor do que nenhuma. E ouvir discursos inteligíveis e articulados em língua portuguesa é, por assim dizer, um “plus a mais”.

Todavia, permanece no novo governo Temer algo de preocupante: o fato de que os brasileiros ainda hão de dormir e acordar preocupados com o governo.

Você, sem dúvidas, sabe de que falamos. O governo civil estendeu seus tentáculos de tal forma que dificilmente conseguimos passar um dia sem sentir sua influência sufocante. Cidadãos honestos pagam seus tributos rigorosamente, e mesmo assim temem cair na “malha fina”. Empresários deixam de contratar empregados porque temem os custos da lei trabalhista. Pais deixam de corrigir e disciplinar seus filhos porque temem o Estatuto da Criança e do Adolescente. Outros resistem ao desejo de encarar o homeschooling porque temem o Conselho Tutelar. Professores são negligentes com a indisciplina dos alunos porque temem sofrer processos. E a dona de casa teme ir ao supermercado e não conseguir comprar, com o mesmo dinheiro, os mesmos produtos que adquiriu no mês anterior.

A Sagrada Escritura nos indica que um governo civil submisso à autoridade divina não traria esse tipo de temor ao homem de bem, mas apenas ao malfeitor: “Queres tu não temer a autoridade? Faze o bem e terás louvor dela, visto que a autoridade é ministro de Deus para teu bem. Entretanto, se fizeres o mal, teme; porque não é sem motivo que ela traz a espada; pois é ministro de Deus, vingador, para castigar o que pratica o mal” (Romanos 13.3-4). No Brasil, contudo, os homens de bem assistem aos noticiários porque temem as próximas invenções e trapalhadas do governo civil.

Michel Temer não inventou o estatismo. Ainda assim, entristece saber que as migalhas de liberdade se restringem a aspectos periféricos da esfera econômica e que muitos brasileiros, em vez de honrarem o chamado divino de se associarem para cultivar a vida social, continuarão passivamente esperando que o estado seja o socorro dos oprimidos, dos famintos, dos encarcerados, dos abatidos, dos cegos, dos órfãos, das viúvas, dos forasteiros…

O cristão reformado, porém, deve acompanhar o avanço do rito do impeachment com santa tranquilidade. Ele celebra quando o governo se aproxima, ainda que inadvertidamente, do princípio da soberania das esferas. E lamenta quando as inclinações totalitárias dominam a vida política. Contudo, nem Dilma nem Temer inspiram sua confiança última, tampouco o seu temor; todos eles, impichados ou não, voltarão ao pó e terão cessados os seus desígnios, os mais bondosos e os mais perversos.

O cristão sabe que, sem a vontade do Pai celeste, nenhum fio de cabelo será perdido – tampouco seu sustento, sua família, sua liberdade. Somente Deus – não a presidente afastada nem o seu vice – é nosso consolo na vida e na morte. Portanto, não há o que Temer.

Os Testamentos da Bíblia e a posse de armas

por Douglas Wilson

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Outra boa razão para ter uma arma — embora você já conte com um monte de boas razões — é que ela dá a oportunidade de fazer um curso de teologia prática. E o curso que tenho em mente é a diferença crucial entre o Antigo e o Novo Pacto.

Há algumas inverdades sobre a relação entre os testamentos muito fáceis de perceber. Por exemplo, o Deus do Antigo Testamento (AT) era um Deus de ________. Se você não preencheu com a palavra “ira”, então você deve ter se sentido incomodado na classe de catecúmenos. Isso está em contraste com o Deus do Novo Testamento (NT), um Deus de ________. É isso mesmo, classe: presume-se que a resposta certa seja “amor”.

Só que Deus é extraordinariamente amoroso no AT (Sl 136), e sua ira arde mais ferozmente no NT do que em qualquer outro lugar (Ap 19.3).

Outro erro — o que estamos considerando aqui — é Deus munir seu povo com bênçãos temporais e tangíveis no Antigo Testamento, e com bênçãos espirituais no Novo. Supõe-se que isso explique o fato do povo de Deus no AT ser bélico (Sl 144.1) e, no NT, abandonar as armas carnais e adotar armas muito mais poderosas e espirituais (2Co 10.4).

Temos de declarar agora nos termos mais fortes possíveis: há momentos em que o povo de Deus — os cristãos — deve lutar como gatos selvagens, e outros em que devemos seguir como cordeiros para o matadouro. Esses dois “momentos” não têm relação com o Antigo Pacto e o Novo Pacto. Quando for decidir o que fazer, o crente deve procurar saber em que momento ele se encontra, e não em que milênio.

Aqui está a razão:

Em se tratando deste assunto — e todos os pontos cardeais relacionados a ele —, precisamos estudar especialmente o capítulo 11 de Hebreus. O que os grandes homens e mulheres de fé no AT confessaram? Que eles eram “estrangeiros e peregrinos na terra” (Hb 11.13). Todos confessaram isso, não apenas os mártires. Guerreiros e mártires assim o fizeram.

O que essa fé resultou para eles? Para alguns, em martírio; para outros, em vitórias espetaculares.

“32 E que mais direi? Faltar-me-ia o tempo contando de Gideão, e de Baraque, e de Sansão, e de Jefté, e de Davi, e de Samuel e dos profetas, 33 os quais pela fé venceram reinos, praticaram a justiça, alcançaram promessas, fecharam as bocas dos leões, 34 apagaram a força do fogo, escaparam do fio da espada, da fraqueza tiraram forças, na batalha se esforçaram, puseram em fuga os exércitos dos estranhos. 35 As mulheres receberam pela ressurreição os seus mortos; uns foram torturados, não aceitando o seu livramento, para alcançarem uma melhor ressurreição; 36 e outros experimentaram escárnios e açoites, e até cadeias e prisões. 37 Foram apedrejados, serrados, tentados, mortos ao fio da espada; andaram vestidos de peles de ovelhas e de cabras, desamparados, aflitos e maltratados 38 (dos quais o mundo não era digno), errantes pelos desertos, e montes, e pelas covas e cavernas da terra. 39 E todos estes, tendo tido testemunho pela fé, não alcançaram a promessa” (Hb 11.32-39).

Olhe para todas as vitórias “carnais” até o versículo 35, e para as “espirituais” a partir do versículo 36. Um momento de reflexão, naturalmente, deveria nos revelar que todas essas vitórias foram obtidas pela fé, e os dois diferentes tipos de vitória não diziam respeito à era pactual em que estavam vivendo.

Reflita, então, sobre o fato de que todas essas vitórias, não apenas algumas delas, nos foram estabelecidas como modelos a ser imitados (Hb 12.1). Devemos correr nossa corrida com Davi (o homem que venceu grandes batalhas com sua fé) e Isaías (o homem que foi serrado ao meio por sua fé) nas arquibancadas. Isso exige discernimento moral e ético por parte dos cristãos. Descobrir se você vive antes ou depois de Cristo, porém, não requer nenhum discernimento. Achar que qualquer era do pacto nos proporciona uma ética simples e fácil de usar sobre a questão da violência, em que um tamanho serve para todos, é cometer uma injustiça radical contra o ensino da Escritura.

Desse modo, isso remete à posse de arma. Por isso que o Cerco de Leiden foi uma nobre diligência cristã por parte dos protetores, e por que a não resistência de Latimer e Ridley foi um nobre martírio cristão. A igreja de Deus abrange guerreiros e contemplativos, pessoas que lutam e que amam. Não os temos somente agora: sempre os tivemos. O que estamos por fazer vai depender das circunstâncias, não do calendário.

No Antigo Pacto, Jeremias foi um patriota quando disse aos habitantes de Jerusalém que não lutassem com os babilônios. No Antigo Pacto, Neemias foi um patriota ao manter seus homens trabalhando nas muralhas da mesma cidade com uma arma em uma das mãos e uma ferramenta na outra. Em contraste, o militarista e pacifista modernos têm algo em comum, e é um sentimento compartilhado muito significativo. Ambos estão em busca de respostas fáceis.

Então, se você tem uma arma em casa, você deve guardá-la com segurança e pegar sua Bíblia. E por quê? Porque você é um cristão cansado de respostas fáceis.

Fonte: Blog & Mablog

Tradução: Leonardo Bruno Galdino

Revisão: Rogério Portella

Qual o problema com o bloqueio do WhatsApp?

YgaSXWJogZfREHq-800x450-noPadÀs vezes eu me espanto com o moralismo “cristão” que aprova a expansão do poder e da autoridade do governo civil além do dever do governo civil de promover a justiça pública. O caso do WhatsApp bloqueado é mais um exemplo.

Antes de tratar desse caso, porém, deixe-me contar uma história para deixar clara a diferença entre justiça e lei.

Morei e trabalhei no Reino Unido por vários anos. Recentemente, eu me mudei para a África. Um dia, chegou uma carta do governo britânico dizendo que eu deveria me apresentar como jurado no tribunal da cidade onde eu tinha morado. Meu nome ainda estava no registro eleitoral e eu acabei sendo sorteado para servir à comunidade como jurado no tribunal.

A atuação como jurado é uma das poucas vezes em que o cidadão não versado nas complexidades do direito e da lei tem a oportunidade mais direta de ajudar a promover a justiça.

Fui dispensado por morar fora, mas caso fosse possível, eu teria participado do julgamento com gosto. Fico pensando que, se fosse necessário, meu veredito no voto do júri poderia até mesmo contrariar o que o senso comum ou a lei determina. Por exemplo, se o “crime” fosse um crime de não-agressão à pessoa ou seus bens, eu ficaria inclinado a não dar ao governo a autoridade para punir o suposto “criminoso”.

Como jurado (e talvez para horror dos promotores e advogados que põem a lei acima da justiça), minha abordagem seria a de promover a justiça pública, por mais que a lei em si às vezes vá contra a justiça pública. Saber isso de antemão provavelmente ajudará a promotoria a me dispensar de um futuro serviço como jurado.

Tudo isso eu digo para fazer um breve comentário sobre o bloqueio do WhatsApp que tem oprimido a população brasileira. Primeiro, o WhatsApp foi bloqueado por conta duma investigação a uma quadrilha de tráfico de drogas. Meu problema com quadrilhas de tráfico de drogas não é que eles compram ou vendem drogas (fora dos parâmetros de compra e venda de drogas duma farmácia), e sim que eles, por exercerem atividade ilegal, acabam tendo que criar um sistema paralelo para cumprir os “contratos”, principalmente com o uso ilegítimo da violência. Meu problema é que esses grupos volta e meia estão envolvidos em crimes reais como o homicídio, o sequestro, o roubo e assim por diante. Por isso mesmo, seria bom que o governo se preocupasse com esses crimes reais e não com o “crime” de comprar e vender.

Pressupondo que o motivo real da investigação tem a ver com crimes em que há vítimas, podemos até dar uma colher de chá ao governo e trabalhar com o argumento de que ele está tentando cumprir o dever de promover a justiça pública punindo crimes reais. Então deixemos de lado o motivo da investigação que engatilhou todo esse processo.

Segundo, o governo então forçou a companhia encarregada do WhatsApp que quebrasse a privacidade e o sigilo das mensagens do indivíduo sob investigação. A companhia recusou: afinal, parte do seu “contrato” com o consumidor é que as mensagens privadas são… privadas. O governo, por sua vez, considera-se dono ou da internet, ou das mensagens privadas em geral, ou (pior ainda) da atividade econômica na nação, para julgar que tem autoridade para mandar e desmandar dessa forma.

Se eu não apontar isso, alguém vai: o governo, se quer fazer a justiça pública, deve garantir que os contratos sejam cumpridos. Ele não deve obrigar empresas a quebrarem os contratos. A situação piora. Por causa desse caso isolado, de um indivíduo sob investigação, toda a população é punida, como se ela fosse também perpetradora de crimes hediondos. Até agora, tirando o caso do “crime” de comprar e vender, que deixamos de lado, já temos duas violações da justiça pública feitas pelo governo. Uma é a obrigação de uma empresa descumprir seus contratos, e a outra é a de punir injustamente toda a população.

Repare: tudo isso pode estar perfeitamente dentro do que a lei permite (ainda assim há um debate sobre isso). Porém, esse é um dos casos em que a lei estaria contrária à justiça. E o que estamos discutindo aqui é a justiça pública, que o governo civil é chamado a ministrar, lembrando que parte desse ministério do governo é o de punir o agressor com a coerção e de facilitar a vida dos que fazem o bem (Rm 13) – e não o contrário!

Possíveis problemas

E agora, podemos pensar em possíveis problemas. Primeiro, isso abre um precedente para o governo bloquear as comunicações no país por algum outro motivo. Por exemplo, se você anda a protestar legitimamente contra o governo atual (seja ele o governo corrupto de Dilma ou o governo corrupto de Temer) e precisa usar as redes sociais para articular uma passeata, você pode perder esse instrumento, tornando o protesto menos efetivo, caso o governo conclua que há motivos suficientes para bloquear o WhatsApp. Se aconteceu por causa de um crime sob investigação, por que não poderia ocorrer por causa de milhares de crimes em potencial contra a ordem pública? Afinal, mesmo no protesto mais dócil, um ou outro carro pode acabar sendo queimado, e uma ou outra pessoa sendo ferida.

Segundo, qual outra empresa vai querer oferecer um serviço gratuito à população, sabendo que ela ficará à mercê do governo civil? No longo prazo, perdemos todos com isso.

Eis aqui uma alternativa mais compatível com o dever do governo de punir o agressor e de facilitar a vida dos que fazem o bem: deixar claro (e cumprir) que toda agressão será punida proporcionalmente, após processo justo, e deixar o resto para a sociedade tratar.

A quadrilha de drogas? Espero que todos os que de fato cometeram um crime real sejam presos e punidos. Espero que as vítimas de seus crimes (se ainda vivas) sejam compensadas de alguma forma. Mas espero também que o processo de investigação em si não seja injusto e não crie mais vítimas de crimes reais, crimes de agressão à pessoa ou propriedade promovidos pelo governo em nome da justiça.

Lucas Freire é editor do Política Reformada.

O dever do riso

por Douglas Wilson

Dia desses joguei um tweet no abismo digital e observei-o rodopiar para baixo, bem para baixo, o que me lembrou essas sementinhas que caem rodopiando das árvores.

De qualquer forma, foi isso o que eu disse:

Aqueles que não podem responder a exemplos de loucura cultural com o riso estão em processo de tornarem-se loucos.

E aqui está a minha explicação desse sentimento, pois acho que isso exige uma explicação.

Há dois tipos básicos de filmes sobre catástrofes. O primeiro é quando você está lidando com uma fileira de vulcões abaixo da principal via pública da sua cidade, e um superintendente mal pago do serviço de esgoto, com uma assistente atraente, é responsável por colocar uma cortiça neles todos, para que não pereçamos – ou algo desse tipo.

O outro tipo de filme sobre catástrofe é quando a força motriz é humana, demasiadamente humana durante todo o tempo. A esse tipo de filme chamamos de impostura (farsa).

Existe ainda um terceiro tipo, em que é feita uma tentativa de junção: aquele no qual um vilão extremamente competente assume o papel da fileira de vulcões, do asteroide gigante, do tsunami, ou do que quer que seja.

Martin-Luther-1aOra, o pecado habitual dos conservadores é acreditar que eles estão no terceiro tipo de filme, em vez de estar onde realmente estão, que é no segundo.

Lembro-me da definição dada pelo lexicógrafo Ambrose Bierce à palavra idiota:

Idiota: um membro de uma extensa e poderosa tribo cuja influência nas relações humanas sempre tem sido dominante e controladora. Sua atividade não está confinada a qualquer campo específico de pensamento ou ação, mas “invade e regula o todo”. Ele tem a última palavra em tudo; sua decisão é inapelável. Ele estabelece as modas e opiniões de gosto, dita os limites do discurso e circunscreve a conduta com prazo determinado.

Os conservadores tendem a cuidar dos seus próprios negócios, buscando criar os seus filhos, fazer as suas próprias coisas. Quando começa a ficar evidente para eles que a Alta Loucura agora está comandando o show, a resposta comum é ou raiva ou medo. Motivados por isso, lançam-se em uma vida de ativismo. Mas ambas as motivações são facilmente incorporadas pelo adversário, que as usa para o seu proveito. Raiva e medo concedem autoridade demais ao inimigo – sempre nos julgamos contra Marx, mas acabamos por ser os Irmãos de Marx.

E então chegamos ao ponto. Há um certo tipo de riso que é a única resposta séria eficaz.

Dito isto, permita-me responder a uma objeção específica. Particularmente, não acho que a danação humana seja engraçada. De modo semelhante, não acho a depravação de grandes repúblicas engraçada. Não convoco um levante de riso quando a grande máquina da pobreza que é o socialismo é solta em cima das pessoas.

Mas é engraçado ver pessoas instruídas (que conseguiram tirar carteira de motorista) defendendo o socialismo. Isso se dá porque, em outro sentido, o orgulho e o senso de importância pessoal sempre são engraçados. E é esse orgulho e presunção que constroem as prisões em que as tragédias ocorrem. Se você quer sair dessa prisão, caberá a você zombar dos carcereiros. Curvar-se perante eles os deixaria mais calmos, e provocá-los com insultos de raiva apenas agrava a sua própria prisão.

“Aquele que habita nos céus se rirá; o Senhor zombará deles” (Salmo 2.4).

De Elias escarnecendo dos sacerdotes de Baal a Jesus ridicularizando os fariseus, passando por Lutero estapeando o papado, vemos o poder da zombaria justa. Não caia no erro de pensar que o “humorista” é alguém leviano nesses nossos assuntos mortalmente sérios. Ele pode ser o único a levar a ameaça tão a sério quanto mereça, e pode ser o único a oferecer um contraponto eficaz.

Tradução: Leonardo Bruno Galdino

Original: Laughter Duty

 

O espírito comunista: espírito de escassez

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Fidel Castro. Foto: Roberto Chile/Telesur

Fidel Castro apareceu em público recentemente, e deu uma palestra no 7º Congresso do partido comunista na Cuba. Muito pode ser dito a respeito do desarticulado e vago discurso dele. Hoje, vou me limitar a alguns comentários sobre o espírito que assombrou a sua palestra. Aparentemente, ele invocou o “espírito comunista”. Assim foi o manchete no site de Telsurtv.net. Para a esquerda totalmente desvinculada da realidade, o espírito comunista representa uma marcha de progresso rumo à perfeição, cheia de lealdade e unidade. No mundo real, a realidade na qual vivem as vítimas do comunismo, o espirito de comunismo é uma fantasma de violência, opressão, sofrimento, e escassez. Especialmente escassez.

Na sua palestra, Castro falou sobre o “grande problema” de ter bilhões de pessoas na terra, todas precisando de comida e água. Na realidade Bíblica, mais pessoas significa mais vida, mais produtividade, mais alegria, mais comunhão, mais talento, mais criatividade, mais glória a Deus. Mas o espírito de comunismo, o espírito de escassez, estava assombrando a palestra de Castro. Para Fidel, a existência humana é uma grande luta na competição por recursos limitados. “Quem irá alimentar e dessedentar tantos bilhões de pessoas?” Essa é uma pergunta tão antiga quanto Malthus.

A resposta invariavelmente envolve algum tipo de solução que enxerga os seres humanos como pragas ou parasitas, devorando os recursos do planeta, com a necessidade de amplos projetos intervencionistas estatais que promovam uma “distribuição justa” dos recursos. Ao fim, todos estão igualmente miseráveis, igualmente famintos, igualmente desesperados… Apesar de que alguns (os amigos e parentes dos líderes da ditadura do proletariado) são mais iguais do que outros.

O que é de fato triste no socialismo e no comunismo é que eles acabam sendo profecias autorrealizáveis. Gostaria de apresentar a Venezuela como prova: amigos meus no Facebook estão postando pedidos de oração por membros da família que estão na Venezuela literalmente passando fome e sem acesso a remédios. Já muitos anos atrás, Chavez rogava ao povo venezuelano que não acendesse a luz à noite quando se acordassem para usar o banheiro.  Hoje o governo está dando aulas pela televisão, ensinando como tomar um banho com apenas um copo de água. Viva nas trevas e na sua própria sujeira, tudo para apoiar la revolución! Assim está a vida na Venezuela, paraíso comunista. Caso encerrado.

Vejo e ouço traços desta opressora, temível, avarenta e gananciosa visão de mundo anticristã em discussões, comentários, e artigos compartilhados por companheiros cristãos. Isso me preocupa, porque você só pode confessar duas verdades fundamentalmente opostas por um curto espaço de tempo. Não vai demorar muito até que seu coração dividido produza uma vida de duplicidade e falta de integridade. Colhemos o que semeamos. Não devemos nos enganar. Não podemos servir a Deus e a Lênin.

A Bíblia ensina que a criação está gemendo debaixo de maldição por causa do nosso pecado. Ela ensina que trabalhamos pelo pão diário com o suor do nosso rosto. Mas ela não nos ensina a abraçar um estilo de vida no qual, para agradar ao grande líder e poupar preciosos recursos para o governo, temos de sentir vergonha de cada caloria, cada trinta segundos extra debaixo do chuveiro quente, cada litro de combustível.

O mundo foi projetado para suportar um número indescritível de pessoas, vivendo a vida deleitando-se ao máximo e profundamente em todos os recursos que Deus colocou aqui para que desfrutássemos para a glória dele. Sim, a Bíblia ensina a moderação, mas tal moderação não significa viver como um avarento miserável que sente culpa por cada bocado que mastiga.

O chamado bíblico à moderação envolve beber vinho até que isso alegre o seu coração, deleitar-se em comer e beber como um ato de culto e glória a Deus, e ter uma casa cheia de crianças e uma família que ante os olhos maliciosos dos mercadores da cultura da morte e da fome exaure muitos recursos e tem uma enorme pegada de carbono.

O problema, em primeiro lugar, não é que os recursos são limitados, ou que há demasiada competição por eles. O problema é que o campo do homem pobre produz safra abundante, mas a injustiça a arrasta.

Sugiro que a abordagem cristã ao lidar com recursos não deve e não pode abraçar a visão de mundo castrista e seus princípios subjacentes. A abordagem Cristã se deleita na abundância da criação, glorifica a Deus pelos incríveis avanços na ciência e tecnologia e pela sabedoria prática que produz uma abundância sem precedentes de riqueza de uma maneira eficiente como jamais vista, que concentra-se em criar e defender um meio-ambiente de liberdade e justiça no qual cada homem possa comer do fruto de seus próprios labores, e usufruir dele completamente ao usar os recursos da criação para o piedoso deleite de sua família. Não há necessidade de culpa.

Bem, esse é meu discurso matutino. Agora vou me preparar para o dia tomando um longo banho quente, sem sentir culpa nenhuma por estar desfrutando com gratidão dos abundantes recursos que o Deus gracioso providencia mesmo neste mundo caído. Soli Deo Gloria!