O dever do riso

por Douglas Wilson

Dia desses joguei um tweet no abismo digital e observei-o rodopiar para baixo, bem para baixo, o que me lembrou essas sementinhas que caem rodopiando das árvores.

De qualquer forma, foi isso o que eu disse:

Aqueles que não podem responder a exemplos de loucura cultural com o riso estão em processo de tornarem-se loucos.

E aqui está a minha explicação desse sentimento, pois acho que isso exige uma explicação.

Há dois tipos básicos de filmes sobre catástrofes. O primeiro é quando você está lidando com uma fileira de vulcões abaixo da principal via pública da sua cidade, e um superintendente mal pago do serviço de esgoto, com uma assistente atraente, é responsável por colocar uma cortiça neles todos, para que não pereçamos – ou algo desse tipo.

O outro tipo de filme sobre catástrofe é quando a força motriz é humana, demasiadamente humana durante todo o tempo. A esse tipo de filme chamamos de impostura (farsa).

Existe ainda um terceiro tipo, em que é feita uma tentativa de junção: aquele no qual um vilão extremamente competente assume o papel da fileira de vulcões, do asteroide gigante, do tsunami, ou do que quer que seja.

Martin-Luther-1aOra, o pecado habitual dos conservadores é acreditar que eles estão no terceiro tipo de filme, em vez de estar onde realmente estão, que é no segundo.

Lembro-me da definição dada pelo lexicógrafo Ambrose Bierce à palavra idiota:

Idiota: um membro de uma extensa e poderosa tribo cuja influência nas relações humanas sempre tem sido dominante e controladora. Sua atividade não está confinada a qualquer campo específico de pensamento ou ação, mas “invade e regula o todo”. Ele tem a última palavra em tudo; sua decisão é inapelável. Ele estabelece as modas e opiniões de gosto, dita os limites do discurso e circunscreve a conduta com prazo determinado.

Os conservadores tendem a cuidar dos seus próprios negócios, buscando criar os seus filhos, fazer as suas próprias coisas. Quando começa a ficar evidente para eles que a Alta Loucura agora está comandando o show, a resposta comum é ou raiva ou medo. Motivados por isso, lançam-se em uma vida de ativismo. Mas ambas as motivações são facilmente incorporadas pelo adversário, que as usa para o seu proveito. Raiva e medo concedem autoridade demais ao inimigo – sempre nos julgamos contra Marx, mas acabamos por ser os Irmãos de Marx.

E então chegamos ao ponto. Há um certo tipo de riso que é a única resposta séria eficaz.

Dito isto, permita-me responder a uma objeção específica. Particularmente, não acho que a danação humana seja engraçada. De modo semelhante, não acho a depravação de grandes repúblicas engraçada. Não convoco um levante de riso quando a grande máquina da pobreza que é o socialismo é solta em cima das pessoas.

Mas é engraçado ver pessoas instruídas (que conseguiram tirar carteira de motorista) defendendo o socialismo. Isso se dá porque, em outro sentido, o orgulho e o senso de importância pessoal sempre são engraçados. E é esse orgulho e presunção que constroem as prisões em que as tragédias ocorrem. Se você quer sair dessa prisão, caberá a você zombar dos carcereiros. Curvar-se perante eles os deixaria mais calmos, e provocá-los com insultos de raiva apenas agrava a sua própria prisão.

“Aquele que habita nos céus se rirá; o Senhor zombará deles” (Salmo 2.4).

De Elias escarnecendo dos sacerdotes de Baal a Jesus ridicularizando os fariseus, passando por Lutero estapeando o papado, vemos o poder da zombaria justa. Não caia no erro de pensar que o “humorista” é alguém leviano nesses nossos assuntos mortalmente sérios. Ele pode ser o único a levar a ameaça tão a sério quanto mereça, e pode ser o único a oferecer um contraponto eficaz.

Tradução: Leonardo Bruno Galdino

Original: Laughter Duty

 

O espírito comunista: espírito de escassez

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Fidel Castro. Foto: Roberto Chile/Telesur

Fidel Castro apareceu em público recentemente, e deu uma palestra no 7º Congresso do partido comunista na Cuba. Muito pode ser dito a respeito do desarticulado e vago discurso dele. Hoje, vou me limitar a alguns comentários sobre o espírito que assombrou a sua palestra. Aparentemente, ele invocou o “espírito comunista”. Assim foi o manchete no site de Telsurtv.net. Para a esquerda totalmente desvinculada da realidade, o espírito comunista representa uma marcha de progresso rumo à perfeição, cheia de lealdade e unidade. No mundo real, a realidade na qual vivem as vítimas do comunismo, o espirito de comunismo é uma fantasma de violência, opressão, sofrimento, e escassez. Especialmente escassez.

Na sua palestra, Castro falou sobre o “grande problema” de ter bilhões de pessoas na terra, todas precisando de comida e água. Na realidade Bíblica, mais pessoas significa mais vida, mais produtividade, mais alegria, mais comunhão, mais talento, mais criatividade, mais glória a Deus. Mas o espírito de comunismo, o espírito de escassez, estava assombrando a palestra de Castro. Para Fidel, a existência humana é uma grande luta na competição por recursos limitados. “Quem irá alimentar e dessedentar tantos bilhões de pessoas?” Essa é uma pergunta tão antiga quanto Malthus.

A resposta invariavelmente envolve algum tipo de solução que enxerga os seres humanos como pragas ou parasitas, devorando os recursos do planeta, com a necessidade de amplos projetos intervencionistas estatais que promovam uma “distribuição justa” dos recursos. Ao fim, todos estão igualmente miseráveis, igualmente famintos, igualmente desesperados… Apesar de que alguns (os amigos e parentes dos líderes da ditadura do proletariado) são mais iguais do que outros.

O que é de fato triste no socialismo e no comunismo é que eles acabam sendo profecias autorrealizáveis. Gostaria de apresentar a Venezuela como prova: amigos meus no Facebook estão postando pedidos de oração por membros da família que estão na Venezuela literalmente passando fome e sem acesso a remédios. Já muitos anos atrás, Chavez rogava ao povo venezuelano que não acendesse a luz à noite quando se acordassem para usar o banheiro.  Hoje o governo está dando aulas pela televisão, ensinando como tomar um banho com apenas um copo de água. Viva nas trevas e na sua própria sujeira, tudo para apoiar la revolución! Assim está a vida na Venezuela, paraíso comunista. Caso encerrado.

Vejo e ouço traços desta opressora, temível, avarenta e gananciosa visão de mundo anticristã em discussões, comentários, e artigos compartilhados por companheiros cristãos. Isso me preocupa, porque você só pode confessar duas verdades fundamentalmente opostas por um curto espaço de tempo. Não vai demorar muito até que seu coração dividido produza uma vida de duplicidade e falta de integridade. Colhemos o que semeamos. Não devemos nos enganar. Não podemos servir a Deus e a Lênin.

A Bíblia ensina que a criação está gemendo debaixo de maldição por causa do nosso pecado. Ela ensina que trabalhamos pelo pão diário com o suor do nosso rosto. Mas ela não nos ensina a abraçar um estilo de vida no qual, para agradar ao grande líder e poupar preciosos recursos para o governo, temos de sentir vergonha de cada caloria, cada trinta segundos extra debaixo do chuveiro quente, cada litro de combustível.

O mundo foi projetado para suportar um número indescritível de pessoas, vivendo a vida deleitando-se ao máximo e profundamente em todos os recursos que Deus colocou aqui para que desfrutássemos para a glória dele. Sim, a Bíblia ensina a moderação, mas tal moderação não significa viver como um avarento miserável que sente culpa por cada bocado que mastiga.

O chamado bíblico à moderação envolve beber vinho até que isso alegre o seu coração, deleitar-se em comer e beber como um ato de culto e glória a Deus, e ter uma casa cheia de crianças e uma família que ante os olhos maliciosos dos mercadores da cultura da morte e da fome exaure muitos recursos e tem uma enorme pegada de carbono.

O problema, em primeiro lugar, não é que os recursos são limitados, ou que há demasiada competição por eles. O problema é que o campo do homem pobre produz safra abundante, mas a injustiça a arrasta.

Sugiro que a abordagem cristã ao lidar com recursos não deve e não pode abraçar a visão de mundo castrista e seus princípios subjacentes. A abordagem Cristã se deleita na abundância da criação, glorifica a Deus pelos incríveis avanços na ciência e tecnologia e pela sabedoria prática que produz uma abundância sem precedentes de riqueza de uma maneira eficiente como jamais vista, que concentra-se em criar e defender um meio-ambiente de liberdade e justiça no qual cada homem possa comer do fruto de seus próprios labores, e usufruir dele completamente ao usar os recursos da criação para o piedoso deleite de sua família. Não há necessidade de culpa.

Bem, esse é meu discurso matutino. Agora vou me preparar para o dia tomando um longo banho quente, sem sentir culpa nenhuma por estar desfrutando com gratidão dos abundantes recursos que o Deus gracioso providencia mesmo neste mundo caído. Soli Deo Gloria!

Dia da Terra, ambientalismo e mordomia

por Douglas Wilson

communism-wallpaper-with-hills1Hoje, 22 de abril, é o dia da Terra, e já que ainda não escrevi sobre essa tolice, deixe-me fazer isso agora.

Você foi treinado para pensar — embora condicionado a pensar seja um modo mais acurado de dizer isso — que o debate sobre o meio-ambiente é um debate entre aqueles que querem cuidar do planeta e aqueles que não querem. Mas, como Lao Tzu talvez diria, “não é isso”.

C.S. Lewis certa vez expôs, em A abolição do homem, que quando falamos do homem conquistando a natureza, geralmente falamos de homens conquistando outros homens, com a natureza sendo usada como instrumento. Este é o caso aqui.

Se houvesse dez de nós em uma sala, e alguns pensassem que a sala está quente demais e outros que ela está fria demais, e alguém se pusesse na posição de termostato com um revólver com o objetivo definir e controlar o debate, seria pouco acurado dizer que ele tivesse simplesmente “controlado a temperatura”, embora fosse isso. Se quiséssemos entender o que estava acontecendo, teríamos de reconhecer que ele controlou as pessoas na sala, usando a temperatura como sua “causa” alegada, a questão que finalmente o forçou a agir.

Pense nisso. Para que serve o revólver? Ele não pode balear a temperatura.

Ambientalistas não podem controlar o meio-ambiente. Eles podem controlar você, usando o meio-ambiente como instrumento. Ah, não, de modo algum, você diria, eles não querem dirigir a vida de ninguém… Aguarde um momento, eu tenho de separar o meu lixo.

Eles são os únicos empunhando multas e penas de prisão, e usando o clima como seu instrumento.

É claro que se o debate fosse entre defensores da boa mordomia cristã e defensores da má mordomia, os cristãos iriam querer estar do lado certo, o dos bons mordomos. Mas a mordomia somente se aplica se você tiver autoridade, a qual só é possível se estivermos falando de propriedade privada. Mas quando um homem do governo surge e ameaça você por coletar água da chuva ou algo do tipo, ele não está mostrando boa mordomia sobre a terra, está demonstrando má mordomia sobre você.

Entendo que os ambientalistas são mordomos, mas de um tipo bem peculiar:

Se aquele servo disser consigo mesmo: Meu senhor tarda em vir, e passar a espancar os criados e as criadas, a comer, a beber e a embriagar-se, virá o senhor daquele servo, em dia em que não o espera e em hora que não sabe, e castigá-lo-á, lançando-lhe a sorte com os infiéis. (Lucas 12.45-46)

Tradução: Márcio Santana Sobrinho

“A masculinidade roubada”

Faz mais de 25 anos, um quarto de século, que o mundo viu a queda do Muro de Berlim, e em seguida o colapso do império soviético. Os desorientados decretaram “o fim do socialismo”; porém, não foi assim.

Em “A origem da família, da propriedade privada e do Estado”, publicado em 1884, ano seguinte à morte de Marx (1883), Friedrich Engels mostrou aos marxistas que o capitalismo está estritamente ligado à família. Portanto, para destruir o capitalismo, é necessário destruir a família.

O século 20 pode ser chamado de “século do marxismo”: todos os países do mundo, quase sem exceção, foram aplicando todas e cada uma das dez medidas econômicas enumeradas por Marx e Engels no “Programa mínimo” do Manifesto Comunista de 1848, capítulo 2. Assim o capitalismo foi eliminado em muitos países, e em outros foi seriamente mutilado, e tolhido em sua capacidade de gerar riqueza, em especial para os mais pobres.

Primeira consequência: o salário normal de um trabalhador ou empregado não é suficiente para sustentar uma família, e cada lar necessita de pelo menos dois salários para subsistir. Segunda consequência: o trabalho da esposa já não é uma opção livremente escolhida, para realizar-se fora do lar, em seu negócio, ofício, profissão ou atividade lucrativa, mas uma obrigação premente, por causa da escassez material, em razão da aplicação do marxismo clássico ortodoxo à economia.

Em uma economia capitalista, o trabalho fora do lar seria para cada mãe uma opção, não um fado. E ao escolhê-la, tal ingresso permitiria que encontrasse paliativos para sua ausência momentânea de casa, sem conflitos; porém isso é impossível quando tal fato é absolutamente necessário, dada a insuficiência do ingresso apenas do marido em uma economia não capitalista, pouco eficiente e pouco rentável. Assim, são inevitáveis os conflitos domésticos, causando disfunções e rupturas familiares em massa. Gol do marxismo!

Assoberbada com as tarefas de casa que se superpõem às suas obrigações laborais, a mulher do século 20 teve muito pouco tempo para pesquisar e informar-se antes de exercer seu inflamado direito ao sufrágio. De tal sorte que a habilidosa propaganda socialista encontrou no eleitorado feminino um voto quase cativo, presa fácil de argumentos falaciosos, porém altamente emocionais, em prol dos “mais necessitados”, e da imagem do “Estado paternalista”: como pai responsável que vela pelo bem-estar de seus “filhos e filhas”, dando “educação e saúde grátis”, e programas “sociais” financiados com impostos selvagens e inflação apenas disfarçada, que nos empobrece, e uma dívida galopante, que empobrece os nossos filhos.

Thatcher

Exceções à parte, como a senhora Thatcher, cabeça do Partido Conservador inglês, faltou aos líderes da direita má coragem para oporem-se às correntes dominantes, às quais dobraram-se docilmente. Mais gols para o marxismo!

Entre essas correntes “progressistas” estava a “Nova Pedagogia”, imposta desde os anos 1970 pelos socialistas no comando da Educação. A “educação não autoritária” ou “não diretiva”: a qual nos diz que “não se deve ensinar conhecimentos que o aluno pode aprender depois, por conta própria, deve-se ensinar a pensar”.

Porém, como “pensar” no vazio, sem conteúdo, sem conhecimentos a serem expostos, raciocinados e transmitidos? Eis a armadilha: o que fazem é transmitir puros slogans progressistas, de modo emocional e não racional, que são “interiorizados” pelo aluno, sem questionamento algum.

Inger Enkvist

É o que demonstra outra mulher admirável, a pedagoga sueca Inger Enkvist, que pesquisa as causas do fracasso escolar, educativo em geral, e profissional. Foi assim que os socialistas conseguiram outro de seus objetivos no fronte educacional: destruíram a capacidade de pensar. Que golaço do marxismo!

Dorothy Sayers

Décadas antes, em 1947, a escritora britânica Dorothy Sayers, havia descoberto o antídoto para este veneno modernista: o retorno à educação clássica. Porém, como sempre, quase ninguém deu atenção a essa “reacionária”, e as esquerdas prosseguiram tenazmente em seu trabalho destrutivo até os dias de hoje.

María Calvo

Citei três mulheres brilhantes, porém há mais: a professora María Calvo, de Madrid, advogada e psicopedagoga que acaba de descobrir outras falhas desastrosas naquilo que nos disseram ser “progressos”, como a educação mista para crianças e adolescentes de ambos os sexos, juntos nas aulas.

Cubierta_La masculinidad robada_18mm_310811.inddA educação separada por sexos não era uma ideia ruim de “conservadores retrógrados”, como disseram os “educadores” socialistas nos anos 1980 e 90, que nos decretaram o ensino misto, não como opção a escolher, mas como força de lei, como todas as “soluções” dos marxistas.

Em seus livros, como La masculinidade robada (2011), Calvo explica, por exemplo, os efeitos de negar as óbvias e naturais diferenças entre meninos e meninas: a menina é mais tranquila, e por isso as professoras a põem como modelo de comportamento a ser imitado. A educação mista deu o tiro de misericórdia na família, ao feminilizar o homem, novo “sexo frágil”, ou colocá-lo em uma tremenda crise de identidade. Leiam María Calvo!

Há três coisas nessas quatro mulheres que faltam em muitos homens: (1) boa informação sobre os fatos, e sobre as teorias ruins e suas consequências nefastas; (2) inteligência cultivada para processar corretamente tal informação; (3) coragem para defender as conclusões que surgem desse processamento intelectual, que vão bater de frente com as correntes dominantes do feminismo, o “progressismo” e o “politicamente correto”, estimulados pelas esquerdas de todas as cores e matizes.

A civilização está em perigo, e não se pode fazer política liberal sem tratar destes temas culturais.

Alberto Mansueti é advogado e cientista político.

Tradução: Márcio Santana Sobrinho

Perspectivas pós-deflagração de impeachment

Por Norma Braga

 

maxresdefaultMuita gente no Facebook está reclamando da qualidade dos deputados. Citaram até os cabelos malfeitos (também notei as cores heterodoxas e os implantes esquisitos; de cima, a câmera mostrava tudo sem dó). A concordância verbal, a exemplo do Lula ao telefone, foi espancada gloriosamente. Professores de português em Brasília têm um vasto campo ali, inexplorado.

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Ouvi boa parte dos minidiscursos (alguns nem tão “mini” assim) dos votantes ontem. Apenas um deles me encantou: o de Sérgio Reis. E nem sei dizer se não terá sido principalmente por causa da linda voz ou do personagem dele em Pantanal.
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Mas o que eu queria dizer mesmo é o seguinte. Em seu voto, Bolsonaro invocou o coronel Ustra e Wyllys cuspiu nele na saída. Vozes se levantaram no Facebook: “Bem-feito!” E Wyllys se tornou uma espécie de vingador de torturadores. (Sendo que seu cuspe vingava o próprio cuspidor.) É engraçado como não percebem o óbvio: Bolsonaro e Wyllys têm mais em comum do que se pensa. Um puxa para o autoritarismo de direita, o outro, para o autoritarismo de esquerda. Pois é, sinto dizer, mas Bolsonaro está muito longe de um conservador típico do jeito que o entendo (leia Burke, Roger Scruton, Pereira Coutinho). Nenhum conservador típico louvaria em público um torturador da ditadura militar. Há um autoritarismo entranhado em nossa matriz cultural de que TODO brasileiro precisa se arrepender, sem exceção, para ser um conservador típico.
Eu só votaria em Bolsonaro em um caso muito específico: voto útil. Ou seja: entre ele e qualquer político de partidos comunistas e socialistas, fico com ele. Convicta. Afinal, a opção da ditadura militar já se esgotou no país; Bolsonaro não vai resgatá-la. Mas ainda tem muita gente que está doida para implantar uma ditadura de esquerda aqui. E, caso você não saiba, as ditaduras de esquerda têm um potencial destrutivo infinitamente maior. O militar queria moralizar o Brasil e acabar com as guerrilhas; o esquerdista totalitário quer bancar Deus e criar o homem novo do zero. Por esse simples motivo, os Wyllys da vida se tornam muito mais perigosos que Bolsonaro. Só que esse tipo de autoritarismo tem sido mais difícil de detectar, porque se disfarça de amor às “minorias oprimidas” e traz em seu bojo o messianismo estatal que ainda encanta o brasileiro.É isso, acima de tudo, que eu desejo para o Brasil: que o “autoritarismo do oprimido” se torne claro como o dia. Quando a indignação com um Bolsonaro citando Ustra for diretamente proporcional ao escândalo de um Wyllys orgulhosamente fantasiado de Che Guevara, teremos perspectivas políticas bem melhores.

Originalmente publicado no blog da autora.

Liberalismo econômico e o teológico

Liberalismo é uma palavra polissêmica: tem vários significados ou acepções. Na Europa e América do Norte, liberalism (em inglês) equivale às esquerdas, ao socialismo. Designa os promotores de governos intervencionistas e limitantes, de mercados interditados, isto é, limitados, e de propriedade coletiva ou estatal.

Em nossa América Latina, todavia, “liberalismo” pode significar exatamente o contrário, sobretudo quando seguida do adjetivo “clássico”: designa os partidários de governos limitados a umas poucas funções próprias muito específicas quanto ao livre mercado e à propriedade privada.

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Convém jamais confundir estes dois liberalismos

Nos países anglo-saxões houve, não faz muito tempo, uma saudável resistência ao socialismo; e por isso os socialistas evitavam se chamar pelo nome, e passaram a se autodenominar “progressistas” (progressives), desde o século 19. Porém, no século 20 foram desmascarados, e mudaram novamente para “liberais” (liberals). E como as esquerdas haviam se apropriado do conceito de “liberalismo”, desde os anos 1950 Hayek recomendou aos verdadeiros liberais o uso da expressão composta “liberalismo clássico” (classical liberalism).

Contudo, o termo em inglês para referir-se ao oposto do socialista (liberal) é mais simples e comumente “conservador” (conservative). Porém, não agradava a Hayek, que então vivia na Inglaterra, onde o Partido Conservador havia abandonado as bandeiras do liberalismo clássico, e se apegado às ideias estatistas do Partido Trabalhista.

Quais as bandeiras distintivas?

São principalmente quatro: liberdade, justiça, igualdade e progresso. Porém, entendidas da seguinte forma: (1) liberdade negativa, no sentido de Isaiah Berlin: uma garantia de autonomia dos indivíduos em todas as esferas privadas, a salvo das interferências e intromissões abusivas de leis más e de governantes; (2) justiça como “dar a cada um o que é seu”: reconhecer como propriedade privada, em tais esferas, o que corresponde a cada qual por direito natural; (3) igualdade perante a lei, sem privilégios para ninguém, sem “monopólios” no sentido de favores especiais decretados legalmente; (4) progresso como avanço na consagração destes princípios.

As esquerdas foram inteligentes no combate a tais bandeiras. “Pois os filhos deste mundo são mais astutos no trato entre si do que os filhos da luz”, lemos em Lucas 16.8 (NVI). Os socialistas não rechaçaram os termos liberdade, justiça, igualdade e progresso, enquanto signos ou “significantes”, porém mudaram por completo seus respectivos significados, para “significar” exatamente o contrário.

Para os socialistas, as quatro palavras são significadas desta outra forma: (1) liberdade “positiva”, no sentido de Isaiah Berlin: garantia legal para uma extensa lista de “direitos humanos” como emprego, moradia, educação, serviços médicos, aposentadorias e pensões etc., que “o Estado” está obrigado a proporcionar gratuitamente a todos, a qualquer custo, inclusive liberdades e propriedades alheias, de outras pessoas, que serão confiscadas para esse fim; (2) justiça como “igualitarismo”, ou seja, “nivelar o campo de jogo” (assim afirmam adeptos do Partido Democrata americano), mediante a concretização de todos esses “direitos” para que “estejamos todos no mesmo nível”; (3) “igualdade”, claro, entendida como de resultados ou ao menos de “oportunidades”; e (4) “progresso” como avanço na sanção legal destes princípios, que são diametralmente opostos aos do liberalismo clássico.

Implementando falsos conceitos

Porém antes de nos dar constituições e leis falsas, tinham de nos dar conhecimentos falsos. Aproveitando o poder do Estado na educação, puseram tais conceitos em lugar dos verdadeiros, em cada área do conhecimento:

  1. Nas ciências naturais, santificaram Darwin para usar a ideia de “evolução” em cada aspecto da vida social e em cada passo da história;
  2. Na Filosofia, retiraram todo vestígio de realismo, e impuseram todos os ceticismos, relativismos e subjetivismos (agora o pós-modernismo), negando toda verdade objetiva e a capacidade da razão de descobri-la;
  3. Na Psicologia, retiraram a moral e abriram espaço para o pavlovianismo, o condutismo e agora o “humanismo”;
  4. Na Economia, desqualificaram o livre mercado, e mesclaram marxismo, keynesianismo, “desenvolvimentismo” e toda a grande família do pensamento estatista; inclusive o monetarismo, com o qual nos dão um dinheiro que também é falso;
  5. Nas ciências políticas e jurídicas impuseram o estruturalismo e o funcionalismo, descendentes ideológicos do pragmatismo americano, e o positivismo legal rigoroso, apagando todo rastro de direito divino revelado, e inclusive o direito natural, seu “reflexo imperfeito” segundo os clássicos;
  6. Poderiam deixar livre a Teologia, ciência subversiva, cunha da ideia bíblica de governo limitado tanto em funções como em poderes e recursos, nas Escolas de Tradutores de Toledo e nas aulas dos teólogos católicos de Salamanca, e com o protestante (calvinista) John Locke? Não, desde então; quando as esquerdas religiosas se apoderaram das igrejas, da mão do romantismo chegou o liberalismo teológico aos seminários para educação dos candidatos ao ministério.

A teologia “liberal” não somente desqualificou a Bíblia, mas também a razão como fonte de conhecimento humano. Julgueis segundo “a reta justiça”, recomendou Jesus (João 7.24), porém Kant descreditou a capacidade de julgar. E seguindo Kant ao invés de Cristo, Sleiermacher fundamentou a religião em sentimentos e emoções; e esse é o “cristianismo” falsificado que temos nas igrejas, junto com o “evangelho social” das esquerdas e sua irmã latina, a teologia marxista “da libertação”.

Faltando em termos eleitorais, o voto pela esquerda, ao menos hoje em dia, é majoritariamente cristão em sua composição, tanto católico-romano como evangélico. Se esclarecermos as pessoas a respeito de muitas de suas ideias e palavras, podemos retirar do socialismo o voto cristão; e todo seu imenso poder cairá de bruços ao solo, como um ídolo com pés de barro.

Alberto Mansueti é advogado e cientista político.

Tradução: Márcio Santana Sobrinho.

Como [não] tentar justificar o socialismo

cuba-742252_1920Quase não há resposta à pergunta sobre quais são os argumentos a favor do socialismo, porque a maior parte dos argumentos dos socialistas não é em favor do socialismo, mas contra o capitalismo. Mais do que falhas econômicas, atribuem ao capitalismo supostos defeitos morais. Só que, nos últimos cem anos, os socialistas tiveram de ir mudando seus argumentos contra o capitalismo à medida que tais argumentos iam caindo. Vejamos:

1. Exploração

No século 19, Marx e Engels acusaram as empresas capitalistas de explorar seus trabalhadores mediante a suposta “mais-valia” que lhes era “extraída” (como uma chupada de sangue do Drácula). Porém, acontece que na Europa e Estados Unidos, os empregados e operários da Standard Oil, Shell, Ford, General Motors, General Eletric, e muitas outras empresas, não se tornaram cada vez mais pobres, como antecipava a profecia de Marx, pelo contrário, saíram da pobreza, e muitos prosperaram, dentro de poucos anos. Esse argumento contra o capitalismo caiu.

2. Crise

Foi a manipulação do dinheiro por parte do banco central americano que causou a Grande Crise de 1929; porém, como sempre, os socialistas jogaram a culpa no capitalismo. Contudo, após a Segunda Guerra Mundial, os países derrotados abandonaram a economia planificada e fizeram reformas liberais. E assim escaparam da crise, desemprego e pobreza. Esse argumento também caiu.

3. Imperialismo e dependência

Os professores da Sorbonne e os experts da Comissão Econômica para a América Latina e Caribe (Cepal), seguindo Lenin, acusaram o capitalismo de explorar mediante “imperialismo” os países do Terceiro Mundo. Porém aqueles países mais “dependentes” do comércio internacional, e mais abertos à economia global, como Hong Kong, Singapura, Taiwan e Coreia do Sul, saíram da pobreza massiva, e se tornaram ricos, em poucos anos. Outro argumento que cai.

4. Juventude oprimida

Em maio de 1968 em Paris, e em Berkeley, na Califórnia, Herbert Marcuse e os marxistas culturais acusaram o capitalismo de “oprimir os jovens”, aos quais convidaram a que se rebelassem. Porém, depois, uma turminha de garotos imberbes como Bill Gates e Steve Jobs, no Vale do Silício, da própria Califórnia, e agora Mark Zuckerberg com o Facebook, ficaram multimilionários antes dos 40, sem pedir nada ao governo. E na década de 1990 umas reformas “neoliberais” muito tímidas e parciais, ainda muito longe de serem realmente capitalistas, abriram certas oportunidades em alguns mercados de ações e dividendos, e os jovens “yuppies” foram os que mais tiraram delas proveito para ganhar independência. Esse argumento caiu.

5. Machismo

A esquerda lançou-se com o feminismo, acusando o capitalismo de “oprimir a mulher”. Porém na China, Índia e América Latina, pequenas janelas de um capitalismo muito incompleto se abrem às pessoas na economia informal, e quem mais aproveita tais oportunidades para ascender são as mulheres. Diferentemente das pobres mulheres presas em sua dependência crônica do insustentável estado de bem-estar social, que agora implode, e cujos escombros caem sobre a Europa e Estados Unidos.

6. Racismo

Para piorar as coisas, a enorme maioria dessas mulheres da economia informal na América Latina são indígenas de pele avermelhada, bem como seus pais, maridos, irmãos e filhos dessa mesma cor, de modo que os socialistas não conseguem bom uso do argumento indigenista e racista contra o capitalismo.

7. Prejuízo ecológico

O capitalismo é acusado de “destruir o meio-ambiente”. Porém em alguns lugares da África (agora poucos) estão provando que a propriedade privada é superior ao Estado no cuidado e preservação do meio ambiente e das espécies, pela simples razão de que cada um cuida melhor do que é seu, e “o que é de todos não é de ninguém”. Os vermelhos se vestem de verde e investem contra os transgênicos e nos assustam com notícias de que as indústrias multinacionais de alimento estão nos envenenando. Porém, em seguida aparece a confissão de Mark Lynas, um ex-“verde” arrependido, que diz: “Perdão, estávamos mentindo”.

Mas eles vão seguir. Os socialistas estão no poder, e são muito criativos em inventar defeitos para o capitalismo.

Alberto Mansueti é advogado e cientista político.

Tradução: Márcio Santana Sobrinho.

Idolatria estatal e tentativas de calar a igreja

Sobre a Declaração do Congresso Vida Nova 2016 (Parte 2)

Vimos que a Declaração do congresso Vida Nova sobre a atual conjuntura sociopolítica da nação tem quatro partes distintas. Duas delas foram comentadas na primeira parte da nossa análise. Após isso, a Declaração inclui uma seção de protesto, falando de certos fatores que seus signatários repudiam. E então, o documento faz uma convocação, chamando a igreja a agir.

Hush

Na seção de protesto, a Declaração passa a listar seis pontos marcados pelo verbo “repudiar”. Os seis fatores repudiados são: a idolatria ao Estado, qualquer tentativa de silenciar a igreja na esfera pública, o silêncio dos que deveriam fazer uma crítica profética à atual situação, a corrupção, a relativização da Constituição Federal e a desarmonização do executivo, legislativo e judiciário.

Idolatria ao Estado

O primeiro ponto diz respeito à idolatria ao Estado, ligando tal ato de idolatria à “iniquidade, conivência, omissão e dissimulação da impiedade”. O cristão reformado está acostumado a confessar a soberania absoluta de Deus sobre tudo e todos. Uma implicação dessa confissão é que existem limites naturais e normativos para todo poder e autoridade nesta terra. Os limites naturais são aqueles inerentes ao caráter humano de qualquer um que ocupe um ofício ou cargo de liderança. Tal pessoa é falha, num mundo afetado pelo pecado, mas também limitada pela condição de criatura. Mesmo antes do pecado afetar o mundo, vemos que o ser humano era limitado de várias formas, por ser criatura, e não Criador. Porém, com a presença do pecado na nossa forma de pensar e agir, existe uma limitação (e, muitas vezes, uma força contraprodutiva) em qualquer atividade humana envolvendo um ofício ou cargo de autoridade e liderança. Deus, pelo contrário, por ser Criador e por ser santo e perfeito, não possui tais limitações: Ele é plenamente capaz de ter autoridade absoluta sobre tudo e todos, e de fato a tem.

Qualquer pretensão contrária é rejeitar a própria estrutura da criação. É como se eu decidisse ignorar que dois corpos não ocupam o mesmo espaço ao mesmo tempo e, correndo contra uma parede, tivesse a pretensão de atravessá-la sem me machucar e sem quebrar a parede. Da mesma forma, a idolatria ao Estado parte da ilusão, por exemplo, de que os burocratas do Estado são divinos, e têm a capacidade de superar sua limitação de criatura falha, afetada pelo pecado, e de fazer cálculos políticos e econômicos complexos que permitiram alegadamente ao governo de fato ser o provedor e mantenedor de todas as coisas. Não é preciso mencionar os horrores que os governos com tal pretensão, como a Coreia do Norte, fazem seus cidadãos sofrerem para que o ponto fique claro. Existe, portanto, um limite natural a toda e qualquer autoridade nesta terra e, comparada à autoriade de Deus, ela é naturalmente limitada.

Além disso, é óbvio (mas não custa lembrar) que existem também limites normativos à autoridade do governo civil. Repare no civil: não é um termo de redundância, e sim uma palavra que se acrescenta aqui para deixar claro o seguinte: o Estado está longe de ser o único governo que Deus colocou na sociedade para o nosso bem, e para combater o mal. Deus também colocou o próprio autogoverno do indivíduo sobre seus impulsos, o governo da família e a autoridade dos pais e assim por diante. Há um governo diferente em cada ofício para cada tipo de esfera da vida. O maestro governa sua orquestra, e o professor, sua sala de aula. O professor não governa a família dos seus alunos, a não ser que seja de fato o pai deles, e o maestro não tem autoridade em outra esfera sobre os musicistas de sua orquestra, a não ser que seja, por exemplo, um oficial superior numa banda militar. Não é preciso ser um gênio para entender que há uma pluralidade de autoridades coexistindo na vida de cada um, mas é necessário ser um gênio do mal para persuadir as pessoas de que a autoridade do Estado tem algo “especial” e certa prerrogativa e superioridade sobre as demais esferas.

E, no entanto, cá estamos, praticamente convencidos de que deve ser assim. Um lado do espectro político quer sequestrar o Estado para impor de cima para baixo uma transformação cultural que vai ajeitar a sociedade brasileira, levando-a de volta aos “bons e velhos tempos”. O outro lado deseja endeusar o Estado porque acha que ainda estamos nos “velhos tempos” e precisamos que os burocratas imponham de cima para baixo uma agenda “progressista”. E isso é só o aspecto cultural. Quando olhamos para todos os aspectos da vida em sociedade, vemos que a idolatria do Estado tem pressuposto que essa instituição social deve abraçar o mundo, por assim dizer, e deve tomar parte em tudo o que acontece e tudo o que se faz. Não é de surpreender, portanto, que o Estado acaba fazendo mal a sua tarefa de promover a justiça pública e que, muitas vezes ele mesmo se torna promovedor de uma infinidade de coisas não-estatais ao mesmo tempo em que viola a norma da justiça pública. E, assim, o governo se transforma num covil de salteadores. “Mas não tem problema! Afinal o Estado, que é nosso pai e mãe, nosso médico, nosso professor e o consumador de nossa fé (sic.) está fazendo grandes avanços na agenda que queremos promover! Podemos ignorar os meios, desde que o fim seja obtido.” Por conta de nossa idolatria ao Estado, passa a existir uma conivência e omissão para com a iniquidade e dissimulação da impiedade.

Tentar calar a igreja

O segundo ponto a ser repudiado é a tentativa de silenciar a igreja, empurrando-a para a esfera privada e tirando-a da esfera pública. Aqui, temos duas ideologias que no tempo contemporâneo se reforçam. Uma afirma que religião é o ópio das massas e que só serve para reforçar a exploração do sistema atual. Essa ideologia coletivista quer uma revolução, mas a religião é parte do sistema que mantém as massas sob controle e que evita que essa revolução aconteça. A outra ideologia vem duma matriz diametralmente oposta, do pseudoliberalismo contemporâneo, que afirma que tudo o que é público deve ser baseado no “mínimo denominador comum” entre todos os indivíduos da sociedade. E por causa disso, e por causa da variedade de opiniões religiosas na soicedade, a esfera pública deve ser “limpada” de qualquer influência religiosa: a religião secularista é a única que deve ter lugar no Estado moderno.

O sujeito que quer silenciar a igreja porque deseja uma revolução e que afirma ser a religião o ópio das massas não se dá conta de que as massas são oprimidas atualmente pela ideologia que ele mesmo promove, e que essa ideologia é a religião (da idolatria ao Estado ou à luta de classes) que tem mantido as massas no escuro. O cristão reformado entende que a situação atual não é boa, e que as massas têm sido oprimidas por um sistema totalitário, e que esse sistema promove uma certa religião que mantém as massas no lugar (junto com pão e circo). O sintoma é esse, mas o diagnóstico é diferente para o cristão reformado, pois ele crê que o evangelho e o governo de Jesus Cristo sobre tudo e todos é a única cura cabal para o problema da opressão e da falsa consciência que essa falsa religião estatólatra promove na nossa sociedade. A única “revolução” capaz de lidar com esse problema de forma efetiva é a “revolução” espiritual do redirecionamento do coração humano para que deixe de ser rebelde ao seu Criador e passe a viver uma vida de piedade, amor e gratião a Ele, obedecendo Sua lei. Por isso, a igreja precisa de sua voz, para proclamar a boa-nova da redenção em Cristo pelo poder do Espírito Santo, e para denunciar todo falso esquema e falsa religião que é de fato um ópio para as massas. A igreja deve, sim, ser livre para proclamar que esse redirecionamento deve ter efeito prático na vida de cada um, e na vida da sociedade que se converte como um todo.

Já, do outro lado, o sujeito que quer silenciar a igreja ao empurrá-la para a esfera privada porque a pública deve ser reduzida ao mínimo denominador comum entre todo tipo de filosofia de vida e preferência – esse sujeito, do ponto de vista cristão e reformado, não se dá conta de que não existe neutralidade religiosa na vida. Existem alguns no seio da igreja que pressupõem exatamente isto: que existe sim a possibilidade de neutralidade religiosa, e que a igreja não deve se “misturar” com as coisas “deste mundo”. É preciso ter paciência com essas pessoas, pois elas desejam manter a integridade das tarefas da igreja, entendendo que ela deve se concentrar na proclamação do evangelho, mas isso não quer dizer que o cristão não deva procurar formar uma opinião bíblica e adotar um curso de ação conforme as Escrituras na sua atuação política. Negar isso é afirmar que deve haver um certo “vácuo” no compartimento da vida cristã que experimenta a política e a vida social no dia-a-dia, e que esse “vácuo” é religiosamente neutro. Esse tipo de pensamento coloca combustível no dínamo dessa religião rival, do humanismo secular, que deseja expulsar a religião (e, portanto, a igreja) da esfera pública. Porém, não há neutralidade. A vida, toda a vida, é religião. O cristão reformado afirma que tal tentativa de silenciar a voz da igreja na esfera pública deve ser alvo de repúdio.

Lucas Freire é editor do Política Reformada.

Confissões de um cidadão de dupla nacionalidade

Como muitos leitores talvez já saibam, nasci como cidadão americano nos arredores de Chicago, e me tornei canadense há pouco mais de duas décadas. Como minha família era politizada, muito cedo tomei consciência dos acontecimentos em nosso país e no resto do mundo. Minha memória mais antiga é da campanha presidencial de 1960, quando aconteceu o evento certamente mais traumático da minha infância, que foi o assassinato do presidente John Kennedy. A Guerra Fria e a ameaça comunista estavam próximas da superfície dos nossos pensamentos na maior parte do tempo, especialmente porque um dos nossos vizinhos fora prisioneiro no Gulag Soviético por dez anos depois do fim da guerra.

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“Tenha calma e evite ilusões políticas”

As campanhas das eleições presidenciais sempre despertavam nosso interesse. Naqueles anos, ambos os partidos tinham alas progressivas e conservadoras. Batistas brancos do sul e católico-romanos tendiam a votar nos democratas, enquanto os evangélicos do norte e a maioria dos protestantes geralmente votavam nos republicanos. Democratas e republicanos não estavam tão distantes, ambos alegavam pertencer à grande tradição liberal, diferindo apenas em qual partido era o herdeiro legítimo.

Entretanto, no tempo em que estive vivendo no Canadá, a política do meu país natal se tornou irreconhecível e cada vez mais intrigante, mesmo para um cientista político acadêmico. Em 2008 os americanos votaram para presidente em um homem cuja máquina de campanha o retratou em termos quase messiânicos. Prometendo unir novamente uma nação polarizada, ele buscou políticas de divisão que indicavam, entre outras coisas, a falta de compreensão da importância da liberdade religiosa, especialmente fora das quatro paredes de uma igreja. Ainda assim manteve a conduta presidencial – quase régia – e conseguiu inspirar a confiança da maioria do eleitorado.

Infelizmente, seus dois oponentes de 2008 e 2012 não eram concorrentes de destaque, e o resultado das duas eleições só aumentou a polarização do eleitorado.

Nostalgia?

Este ano em particular me tem feito coçar a cabeça, já que os americanos têm apoiado candidatos mais extremos de ambos os partidos.

Donald Trump não tem experiência política para contar, mas é consideravelmente familiarizado com o mundo negro do capitalismo voraz, indo tão longe quanto processar uma senhora em razão de sua casa, que ficava sobre uma cobiçada propriedade para seus investimentos imobiliários. Com suas declarações ultrajantes, Trump está obviamente drenando uma veia de raiva que corre por um determinado segmento do eleitorado, trazendo à cena americana algo com o sabor do russo Vladmir Putin. Nostalgia por um passado quando a América era aparentemente maior que hoje, em certa medida um paralelo do saudosismo russo pela extinta União Soviética.

No lado Democrata, um número crescente de americanos apoia um socialista democrata confesso, o senador Bernie Sanders, de Vermont. No passado, só a palavra “socialismo” já seria o beijo da morte em uma campanha política. Depois de 1932, que representa o grande trunfo de um partido socialista nas urnas, tornou-se contaminada de no mínimo associações verbais com o Nacional Socialismo alemão e o estilo soviético de comunismo, cujas ilusões ideológicas deixaram um rastro de dezenas de milhões de vítimas.

Entretanto, o socialismo de Sanders carece do elemento comum da maioria dos movimentos socialistas. Ele é algo como um político solitário, mais semelhante a Jimmy Stewart em 1939 no filme A mulher faz o homem do que a Vladmir Lenin ou até ao nosso Thomas Mulcair. Em vez disso, Sanders é mais um “new dealer” no estilo Roosevelt, empurrando programas de bem-estar social que canadenses e europeus já têm como certos. Figura independente, ele se juntou ao partido Democrata apenas próximo de sua nomeação para a corrida presidencial. O que Sanders não consegue explicar aos seus eleitores, entretanto, é como um país que tem $440 bilhões de déficit e está sobrecarregado com uma dívida de $19 trilhões vai implementar sequer uma parte de suas promessas.

Dilema

Enquanto escrevo, Trump está indo melhor que o esperado nas eleições primárias estaduais que ocorreram até agora. No lado Democrata, Hillary Clinton e Sanders estão ambos conseguindo apoio. É muito cedo para dizer como a corrida vai estar em novembro, mas alguns especialistas estão colocando seus pescoços na forca e prevendo uma disputa entre Trump e Hillary. Embora ela seja uma candidata mais conhecida do que Trump, sua reputação tem sido manchada por controvérsias a respeito do uso de um servidor de e-mail privado e sua conduta como secretária de Estado durante o ataque [à embaixada americana em] Benghazi em 2012. Faz tempo que os Democratas estão desanimados com sua candidatura.

Isso coloca muitos americanos em um dilema. Como cidadão americano, eu tenho o direito de me abster de votar baseado no meu tempo de residência em DuPage County, Illinois. Entretanto, depois de 30 anos no Canadá, estou me tornando cada vez mais desconfortável com isso, à medida que vou me afastando especialmente das questões locais e estaduais. Além disso, a possibilidade de ter que escolher entre dois candidatos seriamente falhos me faz ainda menos inclinado a votar desta vez.

Enquanto eu estou atualmente incerto sobre o que vou fazer em novembro, estou completamente certo de que vou continuar orando para que os líderes de todos os países governem de acordo com os princípios da justiça pública. E te encorajo a fazer o mesmo.

David Koyzis é cientista político.

Tradução: Allan Santos

Confessions of a dual citizen