Idolatria estatal e tentativas de calar a igreja

Sobre a Declaração do Congresso Vida Nova 2016 (Parte 2)

Vimos que a Declaração do congresso Vida Nova sobre a atual conjuntura sociopolítica da nação tem quatro partes distintas. Duas delas foram comentadas na primeira parte da nossa análise. Após isso, a Declaração inclui uma seção de protesto, falando de certos fatores que seus signatários repudiam. E então, o documento faz uma convocação, chamando a igreja a agir.

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Na seção de protesto, a Declaração passa a listar seis pontos marcados pelo verbo “repudiar”. Os seis fatores repudiados são: a idolatria ao Estado, qualquer tentativa de silenciar a igreja na esfera pública, o silêncio dos que deveriam fazer uma crítica profética à atual situação, a corrupção, a relativização da Constituição Federal e a desarmonização do executivo, legislativo e judiciário.

Idolatria ao Estado

O primeiro ponto diz respeito à idolatria ao Estado, ligando tal ato de idolatria à “iniquidade, conivência, omissão e dissimulação da impiedade”. O cristão reformado está acostumado a confessar a soberania absoluta de Deus sobre tudo e todos. Uma implicação dessa confissão é que existem limites naturais e normativos para todo poder e autoridade nesta terra. Os limites naturais são aqueles inerentes ao caráter humano de qualquer um que ocupe um ofício ou cargo de liderança. Tal pessoa é falha, num mundo afetado pelo pecado, mas também limitada pela condição de criatura. Mesmo antes do pecado afetar o mundo, vemos que o ser humano era limitado de várias formas, por ser criatura, e não Criador. Porém, com a presença do pecado na nossa forma de pensar e agir, existe uma limitação (e, muitas vezes, uma força contraprodutiva) em qualquer atividade humana envolvendo um ofício ou cargo de autoridade e liderança. Deus, pelo contrário, por ser Criador e por ser santo e perfeito, não possui tais limitações: Ele é plenamente capaz de ter autoridade absoluta sobre tudo e todos, e de fato a tem.

Qualquer pretensão contrária é rejeitar a própria estrutura da criação. É como se eu decidisse ignorar que dois corpos não ocupam o mesmo espaço ao mesmo tempo e, correndo contra uma parede, tivesse a pretensão de atravessá-la sem me machucar e sem quebrar a parede. Da mesma forma, a idolatria ao Estado parte da ilusão, por exemplo, de que os burocratas do Estado são divinos, e têm a capacidade de superar sua limitação de criatura falha, afetada pelo pecado, e de fazer cálculos políticos e econômicos complexos que permitiram alegadamente ao governo de fato ser o provedor e mantenedor de todas as coisas. Não é preciso mencionar os horrores que os governos com tal pretensão, como a Coreia do Norte, fazem seus cidadãos sofrerem para que o ponto fique claro. Existe, portanto, um limite natural a toda e qualquer autoridade nesta terra e, comparada à autoriade de Deus, ela é naturalmente limitada.

Além disso, é óbvio (mas não custa lembrar) que existem também limites normativos à autoridade do governo civil. Repare no civil: não é um termo de redundância, e sim uma palavra que se acrescenta aqui para deixar claro o seguinte: o Estado está longe de ser o único governo que Deus colocou na sociedade para o nosso bem, e para combater o mal. Deus também colocou o próprio autogoverno do indivíduo sobre seus impulsos, o governo da família e a autoridade dos pais e assim por diante. Há um governo diferente em cada ofício para cada tipo de esfera da vida. O maestro governa sua orquestra, e o professor, sua sala de aula. O professor não governa a família dos seus alunos, a não ser que seja de fato o pai deles, e o maestro não tem autoridade em outra esfera sobre os musicistas de sua orquestra, a não ser que seja, por exemplo, um oficial superior numa banda militar. Não é preciso ser um gênio para entender que há uma pluralidade de autoridades coexistindo na vida de cada um, mas é necessário ser um gênio do mal para persuadir as pessoas de que a autoridade do Estado tem algo “especial” e certa prerrogativa e superioridade sobre as demais esferas.

E, no entanto, cá estamos, praticamente convencidos de que deve ser assim. Um lado do espectro político quer sequestrar o Estado para impor de cima para baixo uma transformação cultural que vai ajeitar a sociedade brasileira, levando-a de volta aos “bons e velhos tempos”. O outro lado deseja endeusar o Estado porque acha que ainda estamos nos “velhos tempos” e precisamos que os burocratas imponham de cima para baixo uma agenda “progressista”. E isso é só o aspecto cultural. Quando olhamos para todos os aspectos da vida em sociedade, vemos que a idolatria do Estado tem pressuposto que essa instituição social deve abraçar o mundo, por assim dizer, e deve tomar parte em tudo o que acontece e tudo o que se faz. Não é de surpreender, portanto, que o Estado acaba fazendo mal a sua tarefa de promover a justiça pública e que, muitas vezes ele mesmo se torna promovedor de uma infinidade de coisas não-estatais ao mesmo tempo em que viola a norma da justiça pública. E, assim, o governo se transforma num covil de salteadores. “Mas não tem problema! Afinal o Estado, que é nosso pai e mãe, nosso médico, nosso professor e o consumador de nossa fé (sic.) está fazendo grandes avanços na agenda que queremos promover! Podemos ignorar os meios, desde que o fim seja obtido.” Por conta de nossa idolatria ao Estado, passa a existir uma conivência e omissão para com a iniquidade e dissimulação da impiedade.

Tentar calar a igreja

O segundo ponto a ser repudiado é a tentativa de silenciar a igreja, empurrando-a para a esfera privada e tirando-a da esfera pública. Aqui, temos duas ideologias que no tempo contemporâneo se reforçam. Uma afirma que religião é o ópio das massas e que só serve para reforçar a exploração do sistema atual. Essa ideologia coletivista quer uma revolução, mas a religião é parte do sistema que mantém as massas sob controle e que evita que essa revolução aconteça. A outra ideologia vem duma matriz diametralmente oposta, do pseudoliberalismo contemporâneo, que afirma que tudo o que é público deve ser baseado no “mínimo denominador comum” entre todos os indivíduos da sociedade. E por causa disso, e por causa da variedade de opiniões religiosas na soicedade, a esfera pública deve ser “limpada” de qualquer influência religiosa: a religião secularista é a única que deve ter lugar no Estado moderno.

O sujeito que quer silenciar a igreja porque deseja uma revolução e que afirma ser a religião o ópio das massas não se dá conta de que as massas são oprimidas atualmente pela ideologia que ele mesmo promove, e que essa ideologia é a religião (da idolatria ao Estado ou à luta de classes) que tem mantido as massas no escuro. O cristão reformado entende que a situação atual não é boa, e que as massas têm sido oprimidas por um sistema totalitário, e que esse sistema promove uma certa religião que mantém as massas no lugar (junto com pão e circo). O sintoma é esse, mas o diagnóstico é diferente para o cristão reformado, pois ele crê que o evangelho e o governo de Jesus Cristo sobre tudo e todos é a única cura cabal para o problema da opressão e da falsa consciência que essa falsa religião estatólatra promove na nossa sociedade. A única “revolução” capaz de lidar com esse problema de forma efetiva é a “revolução” espiritual do redirecionamento do coração humano para que deixe de ser rebelde ao seu Criador e passe a viver uma vida de piedade, amor e gratião a Ele, obedecendo Sua lei. Por isso, a igreja precisa de sua voz, para proclamar a boa-nova da redenção em Cristo pelo poder do Espírito Santo, e para denunciar todo falso esquema e falsa religião que é de fato um ópio para as massas. A igreja deve, sim, ser livre para proclamar que esse redirecionamento deve ter efeito prático na vida de cada um, e na vida da sociedade que se converte como um todo.

Já, do outro lado, o sujeito que quer silenciar a igreja ao empurrá-la para a esfera privada porque a pública deve ser reduzida ao mínimo denominador comum entre todo tipo de filosofia de vida e preferência – esse sujeito, do ponto de vista cristão e reformado, não se dá conta de que não existe neutralidade religiosa na vida. Existem alguns no seio da igreja que pressupõem exatamente isto: que existe sim a possibilidade de neutralidade religiosa, e que a igreja não deve se “misturar” com as coisas “deste mundo”. É preciso ter paciência com essas pessoas, pois elas desejam manter a integridade das tarefas da igreja, entendendo que ela deve se concentrar na proclamação do evangelho, mas isso não quer dizer que o cristão não deva procurar formar uma opinião bíblica e adotar um curso de ação conforme as Escrituras na sua atuação política. Negar isso é afirmar que deve haver um certo “vácuo” no compartimento da vida cristã que experimenta a política e a vida social no dia-a-dia, e que esse “vácuo” é religiosamente neutro. Esse tipo de pensamento coloca combustível no dínamo dessa religião rival, do humanismo secular, que deseja expulsar a religião (e, portanto, a igreja) da esfera pública. Porém, não há neutralidade. A vida, toda a vida, é religião. O cristão reformado afirma que tal tentativa de silenciar a voz da igreja na esfera pública deve ser alvo de repúdio.

Lucas Freire é editor do Política Reformada.

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Sobre a Declaração do Congresso Vida Nova 2016 (Parte 1)

O Congresso de Teologia Vida Nova discutiu em março deste ano o que a teologia evangélica pode fazer pela sociedade e cultura, principalmente no caso do Brasil. A editora Vida Nova é responsável por uma excelente revista, Teologia Brasileira, e pela tradução de diversos livros evangélicos de boa qualidade sobre a bíblia e questões políticas e econômicas.

Como parte do Congresso, foi emitida no dia 17 de março uma Declaração sobre a Atual Conjuntura Sociopolítica da Nação. O leitor atento verá que a Declaração tem quatro partes distintas. Do ponto de vista cristão e reformado há muito o que se elogiar nessa declaração, e as diferenças com a doutrina e prática reformadas devem ser minimizadas na avaliação do documento. Tal avaliação simpática, mas cuidadosa, é o que se pretende aqui.

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Antes da Declaração propriamente dita, temos um preâmbulo que basicamente chama os cristãos (em geral) a confessar certos pecados, a repudiar outros e a participar de forma ativa no presente “momento crítico em nossa história nacional.”

Em seguida, o documento faz três afirmações principais que possuem caráter abrangente e refletem uma linguagem confessional. Em primeiro lugar, a soberania da Santíssima Trindade sobre a criação, a história e principalmente a liderança das nações  é afirmada. É inclusive mencionado que Deus determina “que tudo, invariavelmente, atenda à sua vontade.” Em segundo lugar, afirma-se que é necessário que “cada cristão” tenha parte na vida pública. Isso é retratado como instrumento para espalhar a paz e justiça do reino de Deus “em todas as áreas” da vida social. Finalmente, afirma-se que a igreja fiel em sua missão (pregar a palavra e ministrar corretamente o batismo e a ceia) capacita, assim, os cristãos a servirem os mais vulneráveis na sociedade.

O cristão reformado pode dizer “sim” a esses pontos, com entusiasmo, notando principalmente a afirmação da soberania absoluta de Deus, e do seu governo sobre todas as coisas. Também do ponto de vista reformado é interessante notar que, contrariamente aos ensinos anabatistas de antigamente e também de várias igrejas hoje, há um chamado para o cristão (homem e mulher) participar da vida social, e não se isolar, rebaixando a vida pública a algo inferior ou “do mundo.” A ideia de um cristianismo que afeta todas as áreas da vida é promovida com entusiasmo pela cosmovisão bíblica e reformada. Além disso, a afirmação de que a igreja fiel equipa seus membros a servirem ao próximo é também refletida na confissão reformada sobre o papel da igreja.

É preciso notar, entretanto, alguns detalhes relevantes. Como um documento amplo e geral, a Declaração deseja falar a evangélicos (principalmente) de diversas tradições, incluindo pentecostais, batistas e outros. Por isso, o documento sabiamente evita definições pormenorizadas em cada um de seus pontos. Porém, ao dizer “sim” a este documento, o cristão reformado traz consigo um entendimento particular de certos aspectos que ele não deve abandonar.

A soberania de Deus

Ao versar sobre o absoluto controle de Deus, em sua providência, sobre tudo o que ocorre, o documento deixa subentendido que também o terrível momento atual pelo qual a nossa nação passa foi decretado por Deus. Essa ideia, apenas implícita na Declaração, deve ser lembrada em qualquer reflexão sobre o momento atual (Confissão Belga 13). A quadrilha de governantes larápios que têm, aos poucos, destruído o nosso país, dividido nossa sociedade e explorado ricos e pobres foi colocada a cargo da nação pelo próprio Deus Justo e Soberano.

Nossa primeira atitude diante desse fato deve ser de humildade e de reverência – e não de protesto ou reclamação – diante do Juiz Supremo, que hoje usa tais víboras – que zombam dele e de tudo o que é bom – para julgar nosso país, mas que no Juízo Final terá toda a razão em condenar qualquer criminoso que jamais se converteu de seus maus caminhos (Confissão Belga 37). Humilhados, e talvez perplexos, que aprendamos, assim, a nos ajoelhar em confissão de nossas faltas, pelas quais o país tem sido julgado, e a igreja, disciplinada, sabendo que a própria oração é um meio que esse Deus Soberano aproveita para executar sua vontade suprema.

Participação na vida pública

Ao mencionar que é preciso cada cristão se envolver na vida pública para expandir a paz e justiça que imperam no reino de Deus a cada área da convivência social, o documento também deixa margem para um entendimento reformado dessa ação na sociedade. Não se trata duma ação do chamado evangelho social ou da teologia da libertação ou duma suposta missão integral, e sim de um testemunho orientado pela transformação e redirecionamento que o evangelho traz. Esse evangelho deve ser proclamado e vivido, e essa vida não pode se limitar ao âmbito da interação eclesiástica, mas deve se engajar com tudo aquilo que é bom, proveitoso, edificante e lícito (Catecismo de Heidelberg, Domingo 12).

Serviço ao próximo

No que tange à capacidade da igreja fiel em preparar o cristão para o serviço ao próximo, é interessante notar a escolha de termos feita pelos autores da Declaração. Primeiro, o batismo e a ceia são mencionados por nome, e não pela categoria geral de sacramentos. Isso torna a Declaração aceitável também àqueles que negam o caráter sacramental a esses ritos. Porém, o cristão reformado entende que tanto a pregação das Escrituras, também mencionada como atividade da igreja fiel, como a administração dos sacramentos são meios de graça que equipam o membro da igreja fiel a amar a Deus e o próximo.

Além disso, o cristão reformado acrescentaria uma terceira marca da igreja fiel, a saber, a disciplina eclesiástica (Confissão Belga 29). Esse ponto fica também implícito na Declaração, pois ela fala da “administração correta” do batismo e da ceia. Sem disciplina, não há como executar corretamente essa tarefa.

Disciplina eclesiástica

Porém, é importante notar que a disciplina eclesiástica tem um papel fundamental em restringir o mal no seio da igreja – a mesma igreja que deve ser sal na terra e luz no mundo. A igreja fiel, ao aplicar a disciplina eclesiástica, cuida para que o nome de Deus não seja blasfemado na sociedade por causa do mau comportamento de seus membros (Catecismo de Heidelberg, Domingo 47). Ela também zela para que a conduta cristã em cada área da vida seja regulada pela lei de Deus (Confissão Belga 32). Finalmente, ela manifesta a autoridade de julgar, à luz das Escrituras, não somente a conduta, mas também a doutrina daqueles que Deus colocou sob seu governo (Catecismo de Heidelberg, Domingo 31). E, falando em governo, a disciplina eclesiástica é um importante meio usado por um dos mais importantes governos que Deus colocou na vida cristã – o governo de Cristo por meio da liderança na igreja local.

Em suma, a Declaração coloca três afirmações iniciais. Ela confessa a soberania de Deus, declara que é correto e necessário ao cristão envolver-se na vida pública e reitera a importância da igreja fiel. Além da humildade e da oração em reconhecimento ao juízo e disciplina de Deus na sua vontade soberana ao enviar esse momento difícil à nação, o cristão é chamado a repensar seu papel na vida social e, ao mesmo tempo, usar os meios de graça da igreja fiel, aceitando também sua relevância na promoção dos ensinos, valores e conduta vitais para uma verdadeira reforma da nossa cultura e sociedade.

Lucas Freire é editor do Política Reformada.

Relatório Justiça Pública #5

Em ano de eleições gerais, é bom considerar as possibilidades de diálogo e também de tensão entre a política cristã e as diversas alternativas. Isso é importante na batalha das ideias, e é também importante na reflexão sobre o voto e as plataformas políticas.

No nosso Relatório #5, o ilustre prof. Alberto Mansueti, da Guatemala, nos apresenta um desafio: precisamos reconsiderar o diálogo com a perspectiva de governo limitado e de livre-mercado do liberalismo clássico. Para ele, essa perspectiva política e econômica tem seu desenvolvimento pleno dentro duma perspectiva bíblica.

O texto de Mansueti nos alerta também contra o diálogo fácil e pouco crítico com algumas agendas que têm sido avançadas pelos progressistas nos últimos tempos. Para ele, é importante considerar em primeiro lugar que uma perspectiva de livre-mercado e governo limitado é algo inédito na América Latina, não obstante a denúncia feita pelos progressistas.

Podcast: Política Reformada e Reforma21

Agradeço imensamente à equipe do Reforma21 pela conversa que tivemos depois de uma bateria de conferências e palestras sobre a visão cristã e reformada da política.

Embora o tópico seja vasto e complexo, espero ter sido capaz de resumir corretamente os pontos principais tratados nas conferências em Porto Velho e Belo Horizonte.

O que você achou do podcast? Que tal deixar um comentário aqui?

[Visite o Reforma21 para acessar]

Universo Normativo

por Lucas G. Freire

Estarei em breve apresentando um trabalho na Universidade de St. Andrews na Escócia sobre algumas ideias políticas no mundo antigo. Os antigos acreditavam que existia perversidade e mal na política, e que isso deveria ser evitado. De certa forma, eles estão mais próximos da verdade que muita gente ‘científica’ hoje em dia.

Os reis do Oriente Próximo não acreditavam que tinham o poder absoluto. Embora alguns desses reis de fato tivessem bastante poder, chegando a ponto de serem idolatrados, eles ainda assim entendiam que deveriam responder por suas ações.

Esses reis da antiguidade se viam como responsáveis, diante dos seus deuses, pelo bem-estar do povo governado. Além disso, mesmo um rei poderoso que conquistava o território de outros reis, impondo-lhes tributo, deveria respeitar os limites estipulados pelos juramentos feitos a esses reis subordinados.

Caso o juramento fosse quebrado, ou o rei fosse muito injusto e parcial ao julgar o seu povo, ele cria que seria punido pelos deuses – ele, sua família e todo o país – com maldições diversas, como, por exemplo, a fome, a pobreza e a derrota na guerra.

Alguns achados arqueológicos registram a oração de alguns reis, reconhecendo essa ligação entre o mal que fizeram e o mal que lhes sobreveio. Uma oração do rei dos hititas, por exemplo, suplica aos deuses que suspendam uma epidemia e uma invasão estrangeira que estão prestes a devorar o país inteiro.

Na corte, os reis dispunham de profetas, que tinham a responsabilidade de falar inclusive contra o rei, mostrando que as políticas dele iam contra a justiça exigida pelos deuses, ou que eram excessivamente agressivas contra os reinos adversários.

Mais tarde, quando os impérios da antiguidade começaram a se formar, esse sistema foi subvertido. Na Assíria, por exemplo, os deuses eram vistos como sempre favoráveis ao país. Os profetas da corte se tornaram meros bajuladores do monarca. O rei estava praticamente isento de responder por seus atos.

Mas isso era ilusão. Havia um limite externo. Um império devorava o outro. Havia, também, um limite interno. Um rei arbitrário e injusto logo era substituído por um golpe. Em vários casos, a própria família do rei o matava, para que fosse substituído.

A ideia geral era de um universo normativo. Isto é, o universo não é arbitrário. Existem normas que moldam o mundo à nossa volta.

Embora essa ideia esteja correta, sua aplicação por esses povos politeístas foi pesadamente criticada pela Bíblia. No Salmo 82, por exemplo, podemos ler:

Deus está na congregação dos poderosos;
julga no meio dos deuses.
Até quando julgareis injustamente,
e aceitareis as pessoas dos ímpios?
Fazei justiça ao pobre e ao órfão;
justificai o aflito e o necessitado.
Livrai o pobre e o necessitado;
tirai-os das mãos dos ímpios.
Eles não conhecem,
nem entendem;
andam em trevas;
todos os fundamentos da terra vacilam.
Eu disse: Vós sois deuses,
e todos vós filhos do Altíssimo.
Todavia morrereis como homens,
e caireis como qualquer dos príncipes.
Levanta-te, ó Deus,
julga a terra,
pois tu possuis todas as nações.

Mesmo aqueles povos, que acreditavam num universo normativo, estavam equivocados no seu conceito de justiça. O autor do Salmo 82 não hesita em afirmar que, em última análise, Deus vai julgar a terra, e impera sobre todas as nações (ver, por exemplo, 2Re 19.35-37).

O cristão afirma a existência de normatividade no universo. A vida social, política, estética, jurídica, cultural, e a assim por diante, acontece dentro de uma malha de normas que foram colocadas no mundo por um Criador, a quem todos nós respondemos por nossos atos.

A intriga e a maldade na política não são novidade. A embriaguez com a concentração de poder também não. O que é novidade é a visão do universo como algo arbitrário e sem propósito.

O discurso político atual tem girado em torno da pergunta: “o que funciona?”, ao invés de girar em torno da pergunta: “o que é legítimo fazer?” Os antigos faziam essa segunda pergunta.

Do ponto de vista cristão, sua resposta foi errada, mas ao menos a escolha da pergunta foi adequada. E, já que estamos falando não de normas isoladas, e sim duma malha normativa, responder bem à pergunta sobre o que é “legítimo” é responder bem à pergunta sobre o que “funciona”.

Na política, o que é “legítimo” é um governo limitado ao seu papel de promover a justiça pública. Isso, não por coincidência, é também o que “funciona”. O Estado-babá, o Estado-empresário, o Estado-cientista – nada disso é “legítimo” nem “funciona” no longo prazo.

O cristão confessa a existência dum universo normativo. Por isso, sua política é também normativa. Essa lição dos antigos nós podemos tirar. E não custa nada ir além, olhando para a Sagrada Escritura para evitar o erro dos antigos. E, obviamente, é preciso também evitar o erro dos modernos.

Qualidade de vida?

por Lucas G. Freire

A Suécia é um país muito menos socialista que o Brasil, mas mesmo assim há quem pense que a qualidade de vida naquele país se deva a essa ideologia.

Em todo caso, há quem não entenda que certas coisas que são chamadas de “qualidade de vida” na verdade são problemas sob disfarce.

Julia Carvalho, na revista Exame, traz as últimas sobre aquele país exótico. Ela menciona que alguns funcionários na prefeitura de Gotemburgo estão trabalhando apenas 6 horas por dia durante 1 ano, como um experimento.

Na matéria, um político do Partido da Esquerda elogia o progresso dessa mudança, e que poderia em tese se estender a mais pessoas depois do experimento. Isso seria uma forma de gerar emprego.

Além de não fazer muito sentido econômico ou lógico, isso tem muito pouco a ver com “qualidade de vida” ou bem-aventurança no sentido bíblico do termo.

A Bíblia tem um conceito marcadamente distinto de felicidade. Ela liga felicidade ao trabalho. É isto o que ela declara ao homem que “teme ao SENHOR” e “anda nos seus caminhos”, na sua vida diária, no seu ganhã-pão: “do trabalho das tuas mãos comerás” e, por isso, “feliz serás e tudo te irá bem” (Sl 128.1-2).

Qualidade de vida tem muito mais a ver com o bom e responsável exercício duma vocação digna e honesta, com afinco, durante seis dias da semana, para então descansar com satisfação no sétimo, dando graças a Deus e sustentando a si próprio e aos que dependem de si.

Essa lição os suecos tinham em mente quando se ergueram como uma grande nação no passado, quando o cristianismo era bastante influente naquela cultura.

Hoje, parece que o conceito de “qualidade de vida” se inverteu por lá. Ou talvez tenha se invertido por aqui, no nosso país, fato refletido pelas palavras de Julia Carvalho.

Igreja, Israel e História

por Kenneth Wieske

Nas minhas leituras diárias particulares, estou neste momento lendo a carta de Paulo aos Efésios. No capítulo 1, fiquei mais uma vez impressionado como o apóstolo enfatiza a posição central da Igreja no plano eterno de Deus executado na história.

E pôs todas as coisas debaixo dos pés e, para ser o cabeça sobre todas as coisas, o deu à igreja, a qual é o seu corpo, a plenitude daquele que a tudo enche em todas as coisas (Ef. 1:22-23).

Toda a autoridade na terra e no céu foi dada a Jesus Cristo. Ele é o Rei dos reis, o Senhor dos senhores. Ele tem autoridade e soberania total sobre todo o universo. Todo esse poder Ele exerce a favor da igreja.

Tudo o que acontece no universo, seja a implosão de estrelas ou o voo dos cometas, seja a ascensão dos reis ou sua queda, e todas as outras coisas que se leem na manchete dos jornais, ou os pequenos detalhes e dificuldades diárias na nossa própria vida – todas essas coisas são parte do governo glorioso e soberano de Cristo.

É assim que Ele dirige a história, fazendo-a progredir inexoravelmente até o dia em que trará Sua noiva às mansões celestiais que Ele lhe tem preparado na Nova Jerusalém, para uma eternidade de comunhão e celebração alegre e perfeita.

Pense nisso ao ler os jornais. O Senhor Jesus faz as notícias acontecerem por meio de Sua autoridade, para o Seu propósito, e em favor de Sua igreja. A igreja não é mero rodapé da história. Ela não está parada num canto obscuro da história. Aliás, a igreja, em Cristo e sob Cristo, está no centro e é o sentido de toda a história mundial.

“E Israel?”

Em nosso contexto fortemente dispensacionalista, a pergunta surge para muitos: onde fica Israel em tudo isto? Boa parte do movimento evangélico moderno tem um fascínio por Israel. Os judeus são vistos muito mais como o povo de Deus que os gentios.

As Escrituras não ensinam assim. Ser membro do povo de Deus não é questão genética, e sim de fé nas promessas do evangelho. Todos os que crêem são filhos de Abraão. É só continuar lendo um pouco mais na mesma carta, e deparamos com aquilo que Paulo também ensina em outros lugares como Romanos 11, por exemplo: o gentios fazem parte do povo de Deus, como um ramo enxertado numa oliveira faz parte da oliveira. Vemos este ensino no capítulo três de Efésios.

Os gentios são co-herdeiros, membros do mesmo corpo e co-participantes da promessa em Cristo Jesus por meio do evangelho (Ef. 3:6).

Nesse versículo, Paulo enfatiza três vezes essa participação igual e plena dos gentios no povo de Deus. Esta foi a boa-nova chocante, maravilhosa e de alcance mundial que os apóstolos proclamaram: depois de milênios operando principalmente com a nação de Israel como um povo étnico, Deus está agora incluindo em ampla escala os gentios, para que sejam co-herdeiros, co-membros e co-participantes.

Se você é um crente gentio, você não é cidadão de segunda categoria no reino de Deus. Você é um membro em pé de igualdade, membro pleno do Corpo, junto com os judeus que creem no Cristo, irmãos e irmãs de você.

Esquerda ou Direita? Não é esse o ponto!

por Lucas G. Freire

Os comentários do escritor Paulo Brabo sobre cristianismo, “direita” e “esquerda” se resumem nos seguintes pontos: muitos cristãos são de direita ou esquerda, e isso depende mais da sua preferência política que de sua leitura do cristianismo. É complexo e difícil definir direita e esquerda – mais ainda do ponto de vista dos supostos “direitistas” e “esquerdistas”. Mas a definição (diz Brabo) se resume ao seguinte:

De direita é quem de alguma forma sustenta que a desigualdade social é coisa necessária ou inevitável; de esquerda é quem sustenta que não.

Essa é a “raiz,” diz ele, de onde “brotam todos os ramos.” De onde ele tirou essa definição eu não sei. Mas suponhamos que seja assim, suponhamos que o programa político da “direita” é defender a desigualdade, e o da “esquerda” é atacar a direita.

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Relatório Justiça Pública #2

No segundo relatório Justiça Pública, Lucas G. Freire analisa o papel da mulher cristã na política do ponto de vista da ética pessoal, mantendo o que a Igreja confessa sobre a distinção de gênero mas, ao mesmo tempo, mostrando várias formas de participação feminina na vida pública do país.

Política vai além do poder governamental. Política reformada emerge de uma cultura reformada, da fé colocada em prática.

O acesso à publicação é gratuito através da nossa página. Boa leitura!