Queres tu não Temer a autoridade?

Temer

O afastamento da presidente Dilma Rousseff de suas funções, consequência da instauração do processo de impeachment pelo Senado Federal, tem provocado reações diametralmente opostas entre os brasileiros. Uns consideram o avanço do processo de impedimento uma tentativa de “golpe de estado”; outros comemoram a saída (ainda temporária) de Dilma como se assistissem à apocalíptica queda da Grande Meretriz.

Certamente há algo a celebrar. O afastamento da presidente, espera-se, prenuncia a justa retribuição pelo criminoso desequilíbrio fiscal que se instalou em Brasília. Programas sociais caríssimos, mas de eficácia duvidosa; uma máquina estatal agigantada para acomodar todos os “donos do poder”, seus parentes e amigos; e espúrias alianças com empresas privadas para fraudar licitações e contratos administrativos, não só para o enriquecimento ilícito de seus mentores, mas também para possibilitar a perpetuação de um projeto político de inclinações totalitárias – tudo isso levou a um superendividamento dos cofres públicos que o governo federal tentou ocultar por meio das famosas “pedaladas fiscais”. Essa conduta irresponsável e ilegal causou danos a toda a população e, sem dúvidas, merece ser julgada e punida pela autoridade competente – no caso, o Senado da República.

Além disso, os primeiros atos do presidente em exercício, Michel Temer, sinalizam alguma brisa de liberdade sobre a nação. Podem-se comemorar o possível enxugamento de cargos públicos (com a redução dos ministérios), bem como as propostas de flexibilização das leis trabalhistas, de reforma do regime de contratação dos entes públicos, de simplificação da legislação tributária e de não intervenção do Banco Central sobre o câmbio. É improvável que Temer empreenda reformas mais profundas que reduzam significativamente o tamanho do estado, aproximando-o da norma bíblica de governo limitado à esfera da justiça pública. Mas, em terra de cego, quem tem um olho é rei; alguma liberdade é, sim, melhor do que nenhuma. E ouvir discursos inteligíveis e articulados em língua portuguesa é, por assim dizer, um “plus a mais”.

Todavia, permanece no novo governo Temer algo de preocupante: o fato de que os brasileiros ainda hão de dormir e acordar preocupados com o governo.

Você, sem dúvidas, sabe de que falamos. O governo civil estendeu seus tentáculos de tal forma que dificilmente conseguimos passar um dia sem sentir sua influência sufocante. Cidadãos honestos pagam seus tributos rigorosamente, e mesmo assim temem cair na “malha fina”. Empresários deixam de contratar empregados porque temem os custos da lei trabalhista. Pais deixam de corrigir e disciplinar seus filhos porque temem o Estatuto da Criança e do Adolescente. Outros resistem ao desejo de encarar o homeschooling porque temem o Conselho Tutelar. Professores são negligentes com a indisciplina dos alunos porque temem sofrer processos. E a dona de casa teme ir ao supermercado e não conseguir comprar, com o mesmo dinheiro, os mesmos produtos que adquiriu no mês anterior.

A Sagrada Escritura nos indica que um governo civil submisso à autoridade divina não traria esse tipo de temor ao homem de bem, mas apenas ao malfeitor: “Queres tu não temer a autoridade? Faze o bem e terás louvor dela, visto que a autoridade é ministro de Deus para teu bem. Entretanto, se fizeres o mal, teme; porque não é sem motivo que ela traz a espada; pois é ministro de Deus, vingador, para castigar o que pratica o mal” (Romanos 13.3-4). No Brasil, contudo, os homens de bem assistem aos noticiários porque temem as próximas invenções e trapalhadas do governo civil.

Michel Temer não inventou o estatismo. Ainda assim, entristece saber que as migalhas de liberdade se restringem a aspectos periféricos da esfera econômica e que muitos brasileiros, em vez de honrarem o chamado divino de se associarem para cultivar a vida social, continuarão passivamente esperando que o estado seja o socorro dos oprimidos, dos famintos, dos encarcerados, dos abatidos, dos cegos, dos órfãos, das viúvas, dos forasteiros…

O cristão reformado, porém, deve acompanhar o avanço do rito do impeachment com santa tranquilidade. Ele celebra quando o governo se aproxima, ainda que inadvertidamente, do princípio da soberania das esferas. E lamenta quando as inclinações totalitárias dominam a vida política. Contudo, nem Dilma nem Temer inspiram sua confiança última, tampouco o seu temor; todos eles, impichados ou não, voltarão ao pó e terão cessados os seus desígnios, os mais bondosos e os mais perversos.

O cristão sabe que, sem a vontade do Pai celeste, nenhum fio de cabelo será perdido – tampouco seu sustento, sua família, sua liberdade. Somente Deus – não a presidente afastada nem o seu vice – é nosso consolo na vida e na morte. Portanto, não há o que Temer.

Os Testamentos da Bíblia e a posse de armas

por Douglas Wilson

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Outra boa razão para ter uma arma — embora você já conte com um monte de boas razões — é que ela dá a oportunidade de fazer um curso de teologia prática. E o curso que tenho em mente é a diferença crucial entre o Antigo e o Novo Pacto.

Há algumas inverdades sobre a relação entre os testamentos muito fáceis de perceber. Por exemplo, o Deus do Antigo Testamento (AT) era um Deus de ________. Se você não preencheu com a palavra “ira”, então você deve ter se sentido incomodado na classe de catecúmenos. Isso está em contraste com o Deus do Novo Testamento (NT), um Deus de ________. É isso mesmo, classe: presume-se que a resposta certa seja “amor”.

Só que Deus é extraordinariamente amoroso no AT (Sl 136), e sua ira arde mais ferozmente no NT do que em qualquer outro lugar (Ap 19.3).

Outro erro — o que estamos considerando aqui — é Deus munir seu povo com bênçãos temporais e tangíveis no Antigo Testamento, e com bênçãos espirituais no Novo. Supõe-se que isso explique o fato do povo de Deus no AT ser bélico (Sl 144.1) e, no NT, abandonar as armas carnais e adotar armas muito mais poderosas e espirituais (2Co 10.4).

Temos de declarar agora nos termos mais fortes possíveis: há momentos em que o povo de Deus — os cristãos — deve lutar como gatos selvagens, e outros em que devemos seguir como cordeiros para o matadouro. Esses dois “momentos” não têm relação com o Antigo Pacto e o Novo Pacto. Quando for decidir o que fazer, o crente deve procurar saber em que momento ele se encontra, e não em que milênio.

Aqui está a razão:

Em se tratando deste assunto — e todos os pontos cardeais relacionados a ele —, precisamos estudar especialmente o capítulo 11 de Hebreus. O que os grandes homens e mulheres de fé no AT confessaram? Que eles eram “estrangeiros e peregrinos na terra” (Hb 11.13). Todos confessaram isso, não apenas os mártires. Guerreiros e mártires assim o fizeram.

O que essa fé resultou para eles? Para alguns, em martírio; para outros, em vitórias espetaculares.

“32 E que mais direi? Faltar-me-ia o tempo contando de Gideão, e de Baraque, e de Sansão, e de Jefté, e de Davi, e de Samuel e dos profetas, 33 os quais pela fé venceram reinos, praticaram a justiça, alcançaram promessas, fecharam as bocas dos leões, 34 apagaram a força do fogo, escaparam do fio da espada, da fraqueza tiraram forças, na batalha se esforçaram, puseram em fuga os exércitos dos estranhos. 35 As mulheres receberam pela ressurreição os seus mortos; uns foram torturados, não aceitando o seu livramento, para alcançarem uma melhor ressurreição; 36 e outros experimentaram escárnios e açoites, e até cadeias e prisões. 37 Foram apedrejados, serrados, tentados, mortos ao fio da espada; andaram vestidos de peles de ovelhas e de cabras, desamparados, aflitos e maltratados 38 (dos quais o mundo não era digno), errantes pelos desertos, e montes, e pelas covas e cavernas da terra. 39 E todos estes, tendo tido testemunho pela fé, não alcançaram a promessa” (Hb 11.32-39).

Olhe para todas as vitórias “carnais” até o versículo 35, e para as “espirituais” a partir do versículo 36. Um momento de reflexão, naturalmente, deveria nos revelar que todas essas vitórias foram obtidas pela fé, e os dois diferentes tipos de vitória não diziam respeito à era pactual em que estavam vivendo.

Reflita, então, sobre o fato de que todas essas vitórias, não apenas algumas delas, nos foram estabelecidas como modelos a ser imitados (Hb 12.1). Devemos correr nossa corrida com Davi (o homem que venceu grandes batalhas com sua fé) e Isaías (o homem que foi serrado ao meio por sua fé) nas arquibancadas. Isso exige discernimento moral e ético por parte dos cristãos. Descobrir se você vive antes ou depois de Cristo, porém, não requer nenhum discernimento. Achar que qualquer era do pacto nos proporciona uma ética simples e fácil de usar sobre a questão da violência, em que um tamanho serve para todos, é cometer uma injustiça radical contra o ensino da Escritura.

Desse modo, isso remete à posse de arma. Por isso que o Cerco de Leiden foi uma nobre diligência cristã por parte dos protetores, e por que a não resistência de Latimer e Ridley foi um nobre martírio cristão. A igreja de Deus abrange guerreiros e contemplativos, pessoas que lutam e que amam. Não os temos somente agora: sempre os tivemos. O que estamos por fazer vai depender das circunstâncias, não do calendário.

No Antigo Pacto, Jeremias foi um patriota quando disse aos habitantes de Jerusalém que não lutassem com os babilônios. No Antigo Pacto, Neemias foi um patriota ao manter seus homens trabalhando nas muralhas da mesma cidade com uma arma em uma das mãos e uma ferramenta na outra. Em contraste, o militarista e pacifista modernos têm algo em comum, e é um sentimento compartilhado muito significativo. Ambos estão em busca de respostas fáceis.

Então, se você tem uma arma em casa, você deve guardá-la com segurança e pegar sua Bíblia. E por quê? Porque você é um cristão cansado de respostas fáceis.

Fonte: Blog & Mablog

Tradução: Leonardo Bruno Galdino

Revisão: Rogério Portella

Qual o problema com o bloqueio do WhatsApp?

YgaSXWJogZfREHq-800x450-noPadÀs vezes eu me espanto com o moralismo “cristão” que aprova a expansão do poder e da autoridade do governo civil além do dever do governo civil de promover a justiça pública. O caso do WhatsApp bloqueado é mais um exemplo.

Antes de tratar desse caso, porém, deixe-me contar uma história para deixar clara a diferença entre justiça e lei.

Morei e trabalhei no Reino Unido por vários anos. Recentemente, eu me mudei para a África. Um dia, chegou uma carta do governo britânico dizendo que eu deveria me apresentar como jurado no tribunal da cidade onde eu tinha morado. Meu nome ainda estava no registro eleitoral e eu acabei sendo sorteado para servir à comunidade como jurado no tribunal.

A atuação como jurado é uma das poucas vezes em que o cidadão não versado nas complexidades do direito e da lei tem a oportunidade mais direta de ajudar a promover a justiça.

Fui dispensado por morar fora, mas caso fosse possível, eu teria participado do julgamento com gosto. Fico pensando que, se fosse necessário, meu veredito no voto do júri poderia até mesmo contrariar o que o senso comum ou a lei determina. Por exemplo, se o “crime” fosse um crime de não-agressão à pessoa ou seus bens, eu ficaria inclinado a não dar ao governo a autoridade para punir o suposto “criminoso”.

Como jurado (e talvez para horror dos promotores e advogados que põem a lei acima da justiça), minha abordagem seria a de promover a justiça pública, por mais que a lei em si às vezes vá contra a justiça pública. Saber isso de antemão provavelmente ajudará a promotoria a me dispensar de um futuro serviço como jurado.

Tudo isso eu digo para fazer um breve comentário sobre o bloqueio do WhatsApp que tem oprimido a população brasileira. Primeiro, o WhatsApp foi bloqueado por conta duma investigação a uma quadrilha de tráfico de drogas. Meu problema com quadrilhas de tráfico de drogas não é que eles compram ou vendem drogas (fora dos parâmetros de compra e venda de drogas duma farmácia), e sim que eles, por exercerem atividade ilegal, acabam tendo que criar um sistema paralelo para cumprir os “contratos”, principalmente com o uso ilegítimo da violência. Meu problema é que esses grupos volta e meia estão envolvidos em crimes reais como o homicídio, o sequestro, o roubo e assim por diante. Por isso mesmo, seria bom que o governo se preocupasse com esses crimes reais e não com o “crime” de comprar e vender.

Pressupondo que o motivo real da investigação tem a ver com crimes em que há vítimas, podemos até dar uma colher de chá ao governo e trabalhar com o argumento de que ele está tentando cumprir o dever de promover a justiça pública punindo crimes reais. Então deixemos de lado o motivo da investigação que engatilhou todo esse processo.

Segundo, o governo então forçou a companhia encarregada do WhatsApp que quebrasse a privacidade e o sigilo das mensagens do indivíduo sob investigação. A companhia recusou: afinal, parte do seu “contrato” com o consumidor é que as mensagens privadas são… privadas. O governo, por sua vez, considera-se dono ou da internet, ou das mensagens privadas em geral, ou (pior ainda) da atividade econômica na nação, para julgar que tem autoridade para mandar e desmandar dessa forma.

Se eu não apontar isso, alguém vai: o governo, se quer fazer a justiça pública, deve garantir que os contratos sejam cumpridos. Ele não deve obrigar empresas a quebrarem os contratos. A situação piora. Por causa desse caso isolado, de um indivíduo sob investigação, toda a população é punida, como se ela fosse também perpetradora de crimes hediondos. Até agora, tirando o caso do “crime” de comprar e vender, que deixamos de lado, já temos duas violações da justiça pública feitas pelo governo. Uma é a obrigação de uma empresa descumprir seus contratos, e a outra é a de punir injustamente toda a população.

Repare: tudo isso pode estar perfeitamente dentro do que a lei permite (ainda assim há um debate sobre isso). Porém, esse é um dos casos em que a lei estaria contrária à justiça. E o que estamos discutindo aqui é a justiça pública, que o governo civil é chamado a ministrar, lembrando que parte desse ministério do governo é o de punir o agressor com a coerção e de facilitar a vida dos que fazem o bem (Rm 13) – e não o contrário!

Possíveis problemas

E agora, podemos pensar em possíveis problemas. Primeiro, isso abre um precedente para o governo bloquear as comunicações no país por algum outro motivo. Por exemplo, se você anda a protestar legitimamente contra o governo atual (seja ele o governo corrupto de Dilma ou o governo corrupto de Temer) e precisa usar as redes sociais para articular uma passeata, você pode perder esse instrumento, tornando o protesto menos efetivo, caso o governo conclua que há motivos suficientes para bloquear o WhatsApp. Se aconteceu por causa de um crime sob investigação, por que não poderia ocorrer por causa de milhares de crimes em potencial contra a ordem pública? Afinal, mesmo no protesto mais dócil, um ou outro carro pode acabar sendo queimado, e uma ou outra pessoa sendo ferida.

Segundo, qual outra empresa vai querer oferecer um serviço gratuito à população, sabendo que ela ficará à mercê do governo civil? No longo prazo, perdemos todos com isso.

Eis aqui uma alternativa mais compatível com o dever do governo de punir o agressor e de facilitar a vida dos que fazem o bem: deixar claro (e cumprir) que toda agressão será punida proporcionalmente, após processo justo, e deixar o resto para a sociedade tratar.

A quadrilha de drogas? Espero que todos os que de fato cometeram um crime real sejam presos e punidos. Espero que as vítimas de seus crimes (se ainda vivas) sejam compensadas de alguma forma. Mas espero também que o processo de investigação em si não seja injusto e não crie mais vítimas de crimes reais, crimes de agressão à pessoa ou propriedade promovidos pelo governo em nome da justiça.

Lucas Freire é editor do Política Reformada.

O dever do riso

por Douglas Wilson

Dia desses joguei um tweet no abismo digital e observei-o rodopiar para baixo, bem para baixo, o que me lembrou essas sementinhas que caem rodopiando das árvores.

De qualquer forma, foi isso o que eu disse:

Aqueles que não podem responder a exemplos de loucura cultural com o riso estão em processo de tornarem-se loucos.

E aqui está a minha explicação desse sentimento, pois acho que isso exige uma explicação.

Há dois tipos básicos de filmes sobre catástrofes. O primeiro é quando você está lidando com uma fileira de vulcões abaixo da principal via pública da sua cidade, e um superintendente mal pago do serviço de esgoto, com uma assistente atraente, é responsável por colocar uma cortiça neles todos, para que não pereçamos – ou algo desse tipo.

O outro tipo de filme sobre catástrofe é quando a força motriz é humana, demasiadamente humana durante todo o tempo. A esse tipo de filme chamamos de impostura (farsa).

Existe ainda um terceiro tipo, em que é feita uma tentativa de junção: aquele no qual um vilão extremamente competente assume o papel da fileira de vulcões, do asteroide gigante, do tsunami, ou do que quer que seja.

Martin-Luther-1aOra, o pecado habitual dos conservadores é acreditar que eles estão no terceiro tipo de filme, em vez de estar onde realmente estão, que é no segundo.

Lembro-me da definição dada pelo lexicógrafo Ambrose Bierce à palavra idiota:

Idiota: um membro de uma extensa e poderosa tribo cuja influência nas relações humanas sempre tem sido dominante e controladora. Sua atividade não está confinada a qualquer campo específico de pensamento ou ação, mas “invade e regula o todo”. Ele tem a última palavra em tudo; sua decisão é inapelável. Ele estabelece as modas e opiniões de gosto, dita os limites do discurso e circunscreve a conduta com prazo determinado.

Os conservadores tendem a cuidar dos seus próprios negócios, buscando criar os seus filhos, fazer as suas próprias coisas. Quando começa a ficar evidente para eles que a Alta Loucura agora está comandando o show, a resposta comum é ou raiva ou medo. Motivados por isso, lançam-se em uma vida de ativismo. Mas ambas as motivações são facilmente incorporadas pelo adversário, que as usa para o seu proveito. Raiva e medo concedem autoridade demais ao inimigo – sempre nos julgamos contra Marx, mas acabamos por ser os Irmãos de Marx.

E então chegamos ao ponto. Há um certo tipo de riso que é a única resposta séria eficaz.

Dito isto, permita-me responder a uma objeção específica. Particularmente, não acho que a danação humana seja engraçada. De modo semelhante, não acho a depravação de grandes repúblicas engraçada. Não convoco um levante de riso quando a grande máquina da pobreza que é o socialismo é solta em cima das pessoas.

Mas é engraçado ver pessoas instruídas (que conseguiram tirar carteira de motorista) defendendo o socialismo. Isso se dá porque, em outro sentido, o orgulho e o senso de importância pessoal sempre são engraçados. E é esse orgulho e presunção que constroem as prisões em que as tragédias ocorrem. Se você quer sair dessa prisão, caberá a você zombar dos carcereiros. Curvar-se perante eles os deixaria mais calmos, e provocá-los com insultos de raiva apenas agrava a sua própria prisão.

“Aquele que habita nos céus se rirá; o Senhor zombará deles” (Salmo 2.4).

De Elias escarnecendo dos sacerdotes de Baal a Jesus ridicularizando os fariseus, passando por Lutero estapeando o papado, vemos o poder da zombaria justa. Não caia no erro de pensar que o “humorista” é alguém leviano nesses nossos assuntos mortalmente sérios. Ele pode ser o único a levar a ameaça tão a sério quanto mereça, e pode ser o único a oferecer um contraponto eficaz.

Tradução: Leonardo Bruno Galdino

Original: Laughter Duty

 

O espírito comunista: espírito de escassez

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Fidel Castro. Foto: Roberto Chile/Telesur

Fidel Castro apareceu em público recentemente, e deu uma palestra no 7º Congresso do partido comunista na Cuba. Muito pode ser dito a respeito do desarticulado e vago discurso dele. Hoje, vou me limitar a alguns comentários sobre o espírito que assombrou a sua palestra. Aparentemente, ele invocou o “espírito comunista”. Assim foi o manchete no site de Telsurtv.net. Para a esquerda totalmente desvinculada da realidade, o espírito comunista representa uma marcha de progresso rumo à perfeição, cheia de lealdade e unidade. No mundo real, a realidade na qual vivem as vítimas do comunismo, o espirito de comunismo é uma fantasma de violência, opressão, sofrimento, e escassez. Especialmente escassez.

Na sua palestra, Castro falou sobre o “grande problema” de ter bilhões de pessoas na terra, todas precisando de comida e água. Na realidade Bíblica, mais pessoas significa mais vida, mais produtividade, mais alegria, mais comunhão, mais talento, mais criatividade, mais glória a Deus. Mas o espírito de comunismo, o espírito de escassez, estava assombrando a palestra de Castro. Para Fidel, a existência humana é uma grande luta na competição por recursos limitados. “Quem irá alimentar e dessedentar tantos bilhões de pessoas?” Essa é uma pergunta tão antiga quanto Malthus.

A resposta invariavelmente envolve algum tipo de solução que enxerga os seres humanos como pragas ou parasitas, devorando os recursos do planeta, com a necessidade de amplos projetos intervencionistas estatais que promovam uma “distribuição justa” dos recursos. Ao fim, todos estão igualmente miseráveis, igualmente famintos, igualmente desesperados… Apesar de que alguns (os amigos e parentes dos líderes da ditadura do proletariado) são mais iguais do que outros.

O que é de fato triste no socialismo e no comunismo é que eles acabam sendo profecias autorrealizáveis. Gostaria de apresentar a Venezuela como prova: amigos meus no Facebook estão postando pedidos de oração por membros da família que estão na Venezuela literalmente passando fome e sem acesso a remédios. Já muitos anos atrás, Chavez rogava ao povo venezuelano que não acendesse a luz à noite quando se acordassem para usar o banheiro.  Hoje o governo está dando aulas pela televisão, ensinando como tomar um banho com apenas um copo de água. Viva nas trevas e na sua própria sujeira, tudo para apoiar la revolución! Assim está a vida na Venezuela, paraíso comunista. Caso encerrado.

Vejo e ouço traços desta opressora, temível, avarenta e gananciosa visão de mundo anticristã em discussões, comentários, e artigos compartilhados por companheiros cristãos. Isso me preocupa, porque você só pode confessar duas verdades fundamentalmente opostas por um curto espaço de tempo. Não vai demorar muito até que seu coração dividido produza uma vida de duplicidade e falta de integridade. Colhemos o que semeamos. Não devemos nos enganar. Não podemos servir a Deus e a Lênin.

A Bíblia ensina que a criação está gemendo debaixo de maldição por causa do nosso pecado. Ela ensina que trabalhamos pelo pão diário com o suor do nosso rosto. Mas ela não nos ensina a abraçar um estilo de vida no qual, para agradar ao grande líder e poupar preciosos recursos para o governo, temos de sentir vergonha de cada caloria, cada trinta segundos extra debaixo do chuveiro quente, cada litro de combustível.

O mundo foi projetado para suportar um número indescritível de pessoas, vivendo a vida deleitando-se ao máximo e profundamente em todos os recursos que Deus colocou aqui para que desfrutássemos para a glória dele. Sim, a Bíblia ensina a moderação, mas tal moderação não significa viver como um avarento miserável que sente culpa por cada bocado que mastiga.

O chamado bíblico à moderação envolve beber vinho até que isso alegre o seu coração, deleitar-se em comer e beber como um ato de culto e glória a Deus, e ter uma casa cheia de crianças e uma família que ante os olhos maliciosos dos mercadores da cultura da morte e da fome exaure muitos recursos e tem uma enorme pegada de carbono.

O problema, em primeiro lugar, não é que os recursos são limitados, ou que há demasiada competição por eles. O problema é que o campo do homem pobre produz safra abundante, mas a injustiça a arrasta.

Sugiro que a abordagem cristã ao lidar com recursos não deve e não pode abraçar a visão de mundo castrista e seus princípios subjacentes. A abordagem Cristã se deleita na abundância da criação, glorifica a Deus pelos incríveis avanços na ciência e tecnologia e pela sabedoria prática que produz uma abundância sem precedentes de riqueza de uma maneira eficiente como jamais vista, que concentra-se em criar e defender um meio-ambiente de liberdade e justiça no qual cada homem possa comer do fruto de seus próprios labores, e usufruir dele completamente ao usar os recursos da criação para o piedoso deleite de sua família. Não há necessidade de culpa.

Bem, esse é meu discurso matutino. Agora vou me preparar para o dia tomando um longo banho quente, sem sentir culpa nenhuma por estar desfrutando com gratidão dos abundantes recursos que o Deus gracioso providencia mesmo neste mundo caído. Soli Deo Gloria!

Dia da Terra, ambientalismo e mordomia

por Douglas Wilson

communism-wallpaper-with-hills1Hoje, 22 de abril, é o dia da Terra, e já que ainda não escrevi sobre essa tolice, deixe-me fazer isso agora.

Você foi treinado para pensar — embora condicionado a pensar seja um modo mais acurado de dizer isso — que o debate sobre o meio-ambiente é um debate entre aqueles que querem cuidar do planeta e aqueles que não querem. Mas, como Lao Tzu talvez diria, “não é isso”.

C.S. Lewis certa vez expôs, em A abolição do homem, que quando falamos do homem conquistando a natureza, geralmente falamos de homens conquistando outros homens, com a natureza sendo usada como instrumento. Este é o caso aqui.

Se houvesse dez de nós em uma sala, e alguns pensassem que a sala está quente demais e outros que ela está fria demais, e alguém se pusesse na posição de termostato com um revólver com o objetivo definir e controlar o debate, seria pouco acurado dizer que ele tivesse simplesmente “controlado a temperatura”, embora fosse isso. Se quiséssemos entender o que estava acontecendo, teríamos de reconhecer que ele controlou as pessoas na sala, usando a temperatura como sua “causa” alegada, a questão que finalmente o forçou a agir.

Pense nisso. Para que serve o revólver? Ele não pode balear a temperatura.

Ambientalistas não podem controlar o meio-ambiente. Eles podem controlar você, usando o meio-ambiente como instrumento. Ah, não, de modo algum, você diria, eles não querem dirigir a vida de ninguém… Aguarde um momento, eu tenho de separar o meu lixo.

Eles são os únicos empunhando multas e penas de prisão, e usando o clima como seu instrumento.

É claro que se o debate fosse entre defensores da boa mordomia cristã e defensores da má mordomia, os cristãos iriam querer estar do lado certo, o dos bons mordomos. Mas a mordomia somente se aplica se você tiver autoridade, a qual só é possível se estivermos falando de propriedade privada. Mas quando um homem do governo surge e ameaça você por coletar água da chuva ou algo do tipo, ele não está mostrando boa mordomia sobre a terra, está demonstrando má mordomia sobre você.

Entendo que os ambientalistas são mordomos, mas de um tipo bem peculiar:

Se aquele servo disser consigo mesmo: Meu senhor tarda em vir, e passar a espancar os criados e as criadas, a comer, a beber e a embriagar-se, virá o senhor daquele servo, em dia em que não o espera e em hora que não sabe, e castigá-lo-á, lançando-lhe a sorte com os infiéis. (Lucas 12.45-46)

Tradução: Márcio Santana Sobrinho

“A masculinidade roubada”

Faz mais de 25 anos, um quarto de século, que o mundo viu a queda do Muro de Berlim, e em seguida o colapso do império soviético. Os desorientados decretaram “o fim do socialismo”; porém, não foi assim.

Em “A origem da família, da propriedade privada e do Estado”, publicado em 1884, ano seguinte à morte de Marx (1883), Friedrich Engels mostrou aos marxistas que o capitalismo está estritamente ligado à família. Portanto, para destruir o capitalismo, é necessário destruir a família.

O século 20 pode ser chamado de “século do marxismo”: todos os países do mundo, quase sem exceção, foram aplicando todas e cada uma das dez medidas econômicas enumeradas por Marx e Engels no “Programa mínimo” do Manifesto Comunista de 1848, capítulo 2. Assim o capitalismo foi eliminado em muitos países, e em outros foi seriamente mutilado, e tolhido em sua capacidade de gerar riqueza, em especial para os mais pobres.

Primeira consequência: o salário normal de um trabalhador ou empregado não é suficiente para sustentar uma família, e cada lar necessita de pelo menos dois salários para subsistir. Segunda consequência: o trabalho da esposa já não é uma opção livremente escolhida, para realizar-se fora do lar, em seu negócio, ofício, profissão ou atividade lucrativa, mas uma obrigação premente, por causa da escassez material, em razão da aplicação do marxismo clássico ortodoxo à economia.

Em uma economia capitalista, o trabalho fora do lar seria para cada mãe uma opção, não um fado. E ao escolhê-la, tal ingresso permitiria que encontrasse paliativos para sua ausência momentânea de casa, sem conflitos; porém isso é impossível quando tal fato é absolutamente necessário, dada a insuficiência do ingresso apenas do marido em uma economia não capitalista, pouco eficiente e pouco rentável. Assim, são inevitáveis os conflitos domésticos, causando disfunções e rupturas familiares em massa. Gol do marxismo!

Assoberbada com as tarefas de casa que se superpõem às suas obrigações laborais, a mulher do século 20 teve muito pouco tempo para pesquisar e informar-se antes de exercer seu inflamado direito ao sufrágio. De tal sorte que a habilidosa propaganda socialista encontrou no eleitorado feminino um voto quase cativo, presa fácil de argumentos falaciosos, porém altamente emocionais, em prol dos “mais necessitados”, e da imagem do “Estado paternalista”: como pai responsável que vela pelo bem-estar de seus “filhos e filhas”, dando “educação e saúde grátis”, e programas “sociais” financiados com impostos selvagens e inflação apenas disfarçada, que nos empobrece, e uma dívida galopante, que empobrece os nossos filhos.

Thatcher

Exceções à parte, como a senhora Thatcher, cabeça do Partido Conservador inglês, faltou aos líderes da direita má coragem para oporem-se às correntes dominantes, às quais dobraram-se docilmente. Mais gols para o marxismo!

Entre essas correntes “progressistas” estava a “Nova Pedagogia”, imposta desde os anos 1970 pelos socialistas no comando da Educação. A “educação não autoritária” ou “não diretiva”: a qual nos diz que “não se deve ensinar conhecimentos que o aluno pode aprender depois, por conta própria, deve-se ensinar a pensar”.

Porém, como “pensar” no vazio, sem conteúdo, sem conhecimentos a serem expostos, raciocinados e transmitidos? Eis a armadilha: o que fazem é transmitir puros slogans progressistas, de modo emocional e não racional, que são “interiorizados” pelo aluno, sem questionamento algum.

Inger Enkvist

É o que demonstra outra mulher admirável, a pedagoga sueca Inger Enkvist, que pesquisa as causas do fracasso escolar, educativo em geral, e profissional. Foi assim que os socialistas conseguiram outro de seus objetivos no fronte educacional: destruíram a capacidade de pensar. Que golaço do marxismo!

Dorothy Sayers

Décadas antes, em 1947, a escritora britânica Dorothy Sayers, havia descoberto o antídoto para este veneno modernista: o retorno à educação clássica. Porém, como sempre, quase ninguém deu atenção a essa “reacionária”, e as esquerdas prosseguiram tenazmente em seu trabalho destrutivo até os dias de hoje.

María Calvo

Citei três mulheres brilhantes, porém há mais: a professora María Calvo, de Madrid, advogada e psicopedagoga que acaba de descobrir outras falhas desastrosas naquilo que nos disseram ser “progressos”, como a educação mista para crianças e adolescentes de ambos os sexos, juntos nas aulas.

Cubierta_La masculinidad robada_18mm_310811.inddA educação separada por sexos não era uma ideia ruim de “conservadores retrógrados”, como disseram os “educadores” socialistas nos anos 1980 e 90, que nos decretaram o ensino misto, não como opção a escolher, mas como força de lei, como todas as “soluções” dos marxistas.

Em seus livros, como La masculinidade robada (2011), Calvo explica, por exemplo, os efeitos de negar as óbvias e naturais diferenças entre meninos e meninas: a menina é mais tranquila, e por isso as professoras a põem como modelo de comportamento a ser imitado. A educação mista deu o tiro de misericórdia na família, ao feminilizar o homem, novo “sexo frágil”, ou colocá-lo em uma tremenda crise de identidade. Leiam María Calvo!

Há três coisas nessas quatro mulheres que faltam em muitos homens: (1) boa informação sobre os fatos, e sobre as teorias ruins e suas consequências nefastas; (2) inteligência cultivada para processar corretamente tal informação; (3) coragem para defender as conclusões que surgem desse processamento intelectual, que vão bater de frente com as correntes dominantes do feminismo, o “progressismo” e o “politicamente correto”, estimulados pelas esquerdas de todas as cores e matizes.

A civilização está em perigo, e não se pode fazer política liberal sem tratar destes temas culturais.

Alberto Mansueti é advogado e cientista político.

Tradução: Márcio Santana Sobrinho

Perspectivas pós-deflagração de impeachment

Por Norma Braga

 

maxresdefaultMuita gente no Facebook está reclamando da qualidade dos deputados. Citaram até os cabelos malfeitos (também notei as cores heterodoxas e os implantes esquisitos; de cima, a câmera mostrava tudo sem dó). A concordância verbal, a exemplo do Lula ao telefone, foi espancada gloriosamente. Professores de português em Brasília têm um vasto campo ali, inexplorado.

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Ouvi boa parte dos minidiscursos (alguns nem tão “mini” assim) dos votantes ontem. Apenas um deles me encantou: o de Sérgio Reis. E nem sei dizer se não terá sido principalmente por causa da linda voz ou do personagem dele em Pantanal.
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Mas o que eu queria dizer mesmo é o seguinte. Em seu voto, Bolsonaro invocou o coronel Ustra e Wyllys cuspiu nele na saída. Vozes se levantaram no Facebook: “Bem-feito!” E Wyllys se tornou uma espécie de vingador de torturadores. (Sendo que seu cuspe vingava o próprio cuspidor.) É engraçado como não percebem o óbvio: Bolsonaro e Wyllys têm mais em comum do que se pensa. Um puxa para o autoritarismo de direita, o outro, para o autoritarismo de esquerda. Pois é, sinto dizer, mas Bolsonaro está muito longe de um conservador típico do jeito que o entendo (leia Burke, Roger Scruton, Pereira Coutinho). Nenhum conservador típico louvaria em público um torturador da ditadura militar. Há um autoritarismo entranhado em nossa matriz cultural de que TODO brasileiro precisa se arrepender, sem exceção, para ser um conservador típico.
Eu só votaria em Bolsonaro em um caso muito específico: voto útil. Ou seja: entre ele e qualquer político de partidos comunistas e socialistas, fico com ele. Convicta. Afinal, a opção da ditadura militar já se esgotou no país; Bolsonaro não vai resgatá-la. Mas ainda tem muita gente que está doida para implantar uma ditadura de esquerda aqui. E, caso você não saiba, as ditaduras de esquerda têm um potencial destrutivo infinitamente maior. O militar queria moralizar o Brasil e acabar com as guerrilhas; o esquerdista totalitário quer bancar Deus e criar o homem novo do zero. Por esse simples motivo, os Wyllys da vida se tornam muito mais perigosos que Bolsonaro. Só que esse tipo de autoritarismo tem sido mais difícil de detectar, porque se disfarça de amor às “minorias oprimidas” e traz em seu bojo o messianismo estatal que ainda encanta o brasileiro.É isso, acima de tudo, que eu desejo para o Brasil: que o “autoritarismo do oprimido” se torne claro como o dia. Quando a indignação com um Bolsonaro citando Ustra for diretamente proporcional ao escândalo de um Wyllys orgulhosamente fantasiado de Che Guevara, teremos perspectivas políticas bem melhores.

Originalmente publicado no blog da autora.

Liberalismo econômico e o teológico

Liberalismo é uma palavra polissêmica: tem vários significados ou acepções. Na Europa e América do Norte, liberalism (em inglês) equivale às esquerdas, ao socialismo. Designa os promotores de governos intervencionistas e limitantes, de mercados interditados, isto é, limitados, e de propriedade coletiva ou estatal.

Em nossa América Latina, todavia, “liberalismo” pode significar exatamente o contrário, sobretudo quando seguida do adjetivo “clássico”: designa os partidários de governos limitados a umas poucas funções próprias muito específicas quanto ao livre mercado e à propriedade privada.

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Convém jamais confundir estes dois liberalismos

Nos países anglo-saxões houve, não faz muito tempo, uma saudável resistência ao socialismo; e por isso os socialistas evitavam se chamar pelo nome, e passaram a se autodenominar “progressistas” (progressives), desde o século 19. Porém, no século 20 foram desmascarados, e mudaram novamente para “liberais” (liberals). E como as esquerdas haviam se apropriado do conceito de “liberalismo”, desde os anos 1950 Hayek recomendou aos verdadeiros liberais o uso da expressão composta “liberalismo clássico” (classical liberalism).

Contudo, o termo em inglês para referir-se ao oposto do socialista (liberal) é mais simples e comumente “conservador” (conservative). Porém, não agradava a Hayek, que então vivia na Inglaterra, onde o Partido Conservador havia abandonado as bandeiras do liberalismo clássico, e se apegado às ideias estatistas do Partido Trabalhista.

Quais as bandeiras distintivas?

São principalmente quatro: liberdade, justiça, igualdade e progresso. Porém, entendidas da seguinte forma: (1) liberdade negativa, no sentido de Isaiah Berlin: uma garantia de autonomia dos indivíduos em todas as esferas privadas, a salvo das interferências e intromissões abusivas de leis más e de governantes; (2) justiça como “dar a cada um o que é seu”: reconhecer como propriedade privada, em tais esferas, o que corresponde a cada qual por direito natural; (3) igualdade perante a lei, sem privilégios para ninguém, sem “monopólios” no sentido de favores especiais decretados legalmente; (4) progresso como avanço na consagração destes princípios.

As esquerdas foram inteligentes no combate a tais bandeiras. “Pois os filhos deste mundo são mais astutos no trato entre si do que os filhos da luz”, lemos em Lucas 16.8 (NVI). Os socialistas não rechaçaram os termos liberdade, justiça, igualdade e progresso, enquanto signos ou “significantes”, porém mudaram por completo seus respectivos significados, para “significar” exatamente o contrário.

Para os socialistas, as quatro palavras são significadas desta outra forma: (1) liberdade “positiva”, no sentido de Isaiah Berlin: garantia legal para uma extensa lista de “direitos humanos” como emprego, moradia, educação, serviços médicos, aposentadorias e pensões etc., que “o Estado” está obrigado a proporcionar gratuitamente a todos, a qualquer custo, inclusive liberdades e propriedades alheias, de outras pessoas, que serão confiscadas para esse fim; (2) justiça como “igualitarismo”, ou seja, “nivelar o campo de jogo” (assim afirmam adeptos do Partido Democrata americano), mediante a concretização de todos esses “direitos” para que “estejamos todos no mesmo nível”; (3) “igualdade”, claro, entendida como de resultados ou ao menos de “oportunidades”; e (4) “progresso” como avanço na sanção legal destes princípios, que são diametralmente opostos aos do liberalismo clássico.

Implementando falsos conceitos

Porém antes de nos dar constituições e leis falsas, tinham de nos dar conhecimentos falsos. Aproveitando o poder do Estado na educação, puseram tais conceitos em lugar dos verdadeiros, em cada área do conhecimento:

  1. Nas ciências naturais, santificaram Darwin para usar a ideia de “evolução” em cada aspecto da vida social e em cada passo da história;
  2. Na Filosofia, retiraram todo vestígio de realismo, e impuseram todos os ceticismos, relativismos e subjetivismos (agora o pós-modernismo), negando toda verdade objetiva e a capacidade da razão de descobri-la;
  3. Na Psicologia, retiraram a moral e abriram espaço para o pavlovianismo, o condutismo e agora o “humanismo”;
  4. Na Economia, desqualificaram o livre mercado, e mesclaram marxismo, keynesianismo, “desenvolvimentismo” e toda a grande família do pensamento estatista; inclusive o monetarismo, com o qual nos dão um dinheiro que também é falso;
  5. Nas ciências políticas e jurídicas impuseram o estruturalismo e o funcionalismo, descendentes ideológicos do pragmatismo americano, e o positivismo legal rigoroso, apagando todo rastro de direito divino revelado, e inclusive o direito natural, seu “reflexo imperfeito” segundo os clássicos;
  6. Poderiam deixar livre a Teologia, ciência subversiva, cunha da ideia bíblica de governo limitado tanto em funções como em poderes e recursos, nas Escolas de Tradutores de Toledo e nas aulas dos teólogos católicos de Salamanca, e com o protestante (calvinista) John Locke? Não, desde então; quando as esquerdas religiosas se apoderaram das igrejas, da mão do romantismo chegou o liberalismo teológico aos seminários para educação dos candidatos ao ministério.

A teologia “liberal” não somente desqualificou a Bíblia, mas também a razão como fonte de conhecimento humano. Julgueis segundo “a reta justiça”, recomendou Jesus (João 7.24), porém Kant descreditou a capacidade de julgar. E seguindo Kant ao invés de Cristo, Sleiermacher fundamentou a religião em sentimentos e emoções; e esse é o “cristianismo” falsificado que temos nas igrejas, junto com o “evangelho social” das esquerdas e sua irmã latina, a teologia marxista “da libertação”.

Faltando em termos eleitorais, o voto pela esquerda, ao menos hoje em dia, é majoritariamente cristão em sua composição, tanto católico-romano como evangélico. Se esclarecermos as pessoas a respeito de muitas de suas ideias e palavras, podemos retirar do socialismo o voto cristão; e todo seu imenso poder cairá de bruços ao solo, como um ídolo com pés de barro.

Alberto Mansueti é advogado e cientista político.

Tradução: Márcio Santana Sobrinho.

Como [não] tentar justificar o socialismo

cuba-742252_1920Quase não há resposta à pergunta sobre quais são os argumentos a favor do socialismo, porque a maior parte dos argumentos dos socialistas não é em favor do socialismo, mas contra o capitalismo. Mais do que falhas econômicas, atribuem ao capitalismo supostos defeitos morais. Só que, nos últimos cem anos, os socialistas tiveram de ir mudando seus argumentos contra o capitalismo à medida que tais argumentos iam caindo. Vejamos:

1. Exploração

No século 19, Marx e Engels acusaram as empresas capitalistas de explorar seus trabalhadores mediante a suposta “mais-valia” que lhes era “extraída” (como uma chupada de sangue do Drácula). Porém, acontece que na Europa e Estados Unidos, os empregados e operários da Standard Oil, Shell, Ford, General Motors, General Eletric, e muitas outras empresas, não se tornaram cada vez mais pobres, como antecipava a profecia de Marx, pelo contrário, saíram da pobreza, e muitos prosperaram, dentro de poucos anos. Esse argumento contra o capitalismo caiu.

2. Crise

Foi a manipulação do dinheiro por parte do banco central americano que causou a Grande Crise de 1929; porém, como sempre, os socialistas jogaram a culpa no capitalismo. Contudo, após a Segunda Guerra Mundial, os países derrotados abandonaram a economia planificada e fizeram reformas liberais. E assim escaparam da crise, desemprego e pobreza. Esse argumento também caiu.

3. Imperialismo e dependência

Os professores da Sorbonne e os experts da Comissão Econômica para a América Latina e Caribe (Cepal), seguindo Lenin, acusaram o capitalismo de explorar mediante “imperialismo” os países do Terceiro Mundo. Porém aqueles países mais “dependentes” do comércio internacional, e mais abertos à economia global, como Hong Kong, Singapura, Taiwan e Coreia do Sul, saíram da pobreza massiva, e se tornaram ricos, em poucos anos. Outro argumento que cai.

4. Juventude oprimida

Em maio de 1968 em Paris, e em Berkeley, na Califórnia, Herbert Marcuse e os marxistas culturais acusaram o capitalismo de “oprimir os jovens”, aos quais convidaram a que se rebelassem. Porém, depois, uma turminha de garotos imberbes como Bill Gates e Steve Jobs, no Vale do Silício, da própria Califórnia, e agora Mark Zuckerberg com o Facebook, ficaram multimilionários antes dos 40, sem pedir nada ao governo. E na década de 1990 umas reformas “neoliberais” muito tímidas e parciais, ainda muito longe de serem realmente capitalistas, abriram certas oportunidades em alguns mercados de ações e dividendos, e os jovens “yuppies” foram os que mais tiraram delas proveito para ganhar independência. Esse argumento caiu.

5. Machismo

A esquerda lançou-se com o feminismo, acusando o capitalismo de “oprimir a mulher”. Porém na China, Índia e América Latina, pequenas janelas de um capitalismo muito incompleto se abrem às pessoas na economia informal, e quem mais aproveita tais oportunidades para ascender são as mulheres. Diferentemente das pobres mulheres presas em sua dependência crônica do insustentável estado de bem-estar social, que agora implode, e cujos escombros caem sobre a Europa e Estados Unidos.

6. Racismo

Para piorar as coisas, a enorme maioria dessas mulheres da economia informal na América Latina são indígenas de pele avermelhada, bem como seus pais, maridos, irmãos e filhos dessa mesma cor, de modo que os socialistas não conseguem bom uso do argumento indigenista e racista contra o capitalismo.

7. Prejuízo ecológico

O capitalismo é acusado de “destruir o meio-ambiente”. Porém em alguns lugares da África (agora poucos) estão provando que a propriedade privada é superior ao Estado no cuidado e preservação do meio ambiente e das espécies, pela simples razão de que cada um cuida melhor do que é seu, e “o que é de todos não é de ninguém”. Os vermelhos se vestem de verde e investem contra os transgênicos e nos assustam com notícias de que as indústrias multinacionais de alimento estão nos envenenando. Porém, em seguida aparece a confissão de Mark Lynas, um ex-“verde” arrependido, que diz: “Perdão, estávamos mentindo”.

Mas eles vão seguir. Os socialistas estão no poder, e são muito criativos em inventar defeitos para o capitalismo.

Alberto Mansueti é advogado e cientista político.

Tradução: Márcio Santana Sobrinho.