Boicote e Antiboicote

por Lucas G. Freire

No começo de agosto de 2012, vários clientes nos Estados Unidos inundaram restaurantes da empresa Chick-Fil-A para um antiboicote. O volume de vendas superou em muito a média geral da cadeia de fast food, e reflete o apoio de várias pessoas à família que controla o negócio.

A empresa tem sido alvo de críticas e boicotes por parte de manifestantes a favor da agenda de redefinição do casamento, pelo governo dos Estados Unidos, para incluir o chamado casamento homossexual. Chick-Fil-A tem valores cristãos no centro de suas práticas. Seu presidente declarou publicamente a oposição a essa agenda de redefinição do casamento. Por isso, tem sofrido tanta oposição.

O restaurante sempre fecha aos domingos, apoia conferências para a promoção de valores tradicionais de família e tem como política oficial “glorificar a Deus e ser um mordomo fiel daquilo que Ele nos confiou”.

Grupos de diversas persuasões apoiaram o dia antiboicote, incluindo pessoas sem posicionamento religioso claro. A legislação americana não atribui ao governo federal o controle sobre esse tipo de definição, e muitos veem a intrusão governamental nesses assuntos uma ofensa às liberdades civis.

A lógica de um boicote comercial consiste em pressionar uma grande corporação a mudar de atitude por conta da queda dramática de vendas. Um boicote reúne pessoas em torno de uma certa causa de protesto, e pode se tornar bastante eficaz dependendo do grau de persuasão do movimento.

A prática de um boicote em si não é moralmente condenável. Aliás, em diversas situações é uma forma muito mais legítima de protesto que o uso do poder governamental para coagir as empresas a fazerem algo. O antiboicote, uma forma de anular o efeito de um boicote, também não é necessariamente certo ou errado em todos os casos.

Porém, no caso da política cristã, há mandamentos bíblicos que se aplicam. Por exemplo, o Decálogo nos proíbe levantar falso testemunho. Esse mandamento significa que precisamos procurar sempre nos informar pela verdade na nossa relação com o próximo. Se uma empresa parece adotar uma prática escusa que justifique um movimento de boicote, é preciso ter cuidado na hora de acusar e de começar o movimento.

Outro princípio bíblico é o princípio da justiça e equidade. É preciso, em cada caso, reagir em proporção à prática escusa cometida, e utilizar meios legítimos. Por exemplo, se uma empresa emprega a agressão física em suas práticas, então a coerção governamental é legítima. Se o presidente de uma companhia apenas tem uma opinião contrária à nossa, o uso desse canal não é legítimo ao cristão, mas um boicote ainda pode ser utilizado como ferramenta não-violenta.

No caso de um antiboicote, a mesma lógica se aplica. Por exemplo, não é legítimo utilizar o poder da lei para obrigar pessoas a continuarem comprando contra a sua vontade. Mas é claramente legítimo mobilizar grandes números de pessoas para apoiarem, sem uso de força, um certo grupo ou empresa.

Alguns motivos genuínos para boicote de produtos por cristãos são: práticas anti-éticas de trabalho e negócios numa empresa, irresponsabilidade ambiental, exposição dos empregados a riscos de saúde, etc. Em cada caso, é preciso verificar se, primeiro, a acusação é de fato verdadeira. E, em segundo lugar, se a acusação é bíblica no sentido de a empresa de fato violar princípios cristãos.

Um antiboicote, ao contrário, é uma forma de manifestar apoio, ou “premiar” um determinado grupo ou companhia pelos bens vendidos e serviços prestados. Em geral, é uma reação a algum ato de boicote considerado injusto, mal-informado ou fora de proporção. Aqueles cristãos que apoiaram Chick-Fil-A comprando no dia do antiboicote, no caso, agiram em consistência com seus valores bíblicos.

Cristãos que zelam pela justiça nem sempre precisam do uso da força do governo para fazer o que é correto. Comprar ou deixar de comprar é um grande poder que cada indivíduo tem. O uso de boicotes e antiboicotes coletivos pode ser legítimo, dependendo da situação. Em vários casos, é muito mais eficaz e ético que o uso do poder da espada retido pelo governo.

Licença Creative Commons
O trabalho Boicote e Antiboicote de Lucas G. Freire foi licenciado com uma Licença Creative Commons – Atribuição – NãoComercial – SemDerivados 3.0 Não Adaptada.

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3 pensamentos sobre “Boicote e Antiboicote

  1. Penso que as eleições municipais seja uma boa oportunidade para cristãos em todo o país se manifestarem sobre as posições políticas e projetos dos partidos políticos. Como a maioria dos irmãos já sabem, tramitam projetos anti-cristãos no Congresso, como o PLC 122, que pretende criminalizar todos cidadãos que supostamente cometam crime de homofobia, inclusive com pena de prisão. Outro projeto está sendo perpetrado a favor de descriminalizar completamente o aborto. Pois bem, defendo que cobremos, como pudermos, através de e-mails, das redes sociais, e mandando perguntas quando acontecerem debates televisivos, onde sejam pedidos os posicionamentos dos candidatos sobre esses projetos de lei existentes no Congresso Nacional. Creio que isso seria didático para a maioria dos que se denominam cristãos, ajudando-os a refletir melhor sobre em quem não devem votar.

    • Prezado Salomão, temos levado a sério essa sugestão sua e colocado algumas ferramentas para ajudar o leitor. Aos poucos, teremos uma voz mais ativa no debate público, mas a nossa função primária é educacional e informativa, e não de campanha eleitoral ou ativismo, embora os interessados nessas atividades possam encontrar recursos aqui. Agradecemos a ajuda na divulgação do nosso material.

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