Confissões de um cidadão de dupla nacionalidade

Como muitos leitores talvez já saibam, nasci como cidadão americano nos arredores de Chicago, e me tornei canadense há pouco mais de duas décadas. Como minha família era politizada, muito cedo tomei consciência dos acontecimentos em nosso país e no resto do mundo. Minha memória mais antiga é da campanha presidencial de 1960, quando aconteceu o evento certamente mais traumático da minha infância, que foi o assassinato do presidente John Kennedy. A Guerra Fria e a ameaça comunista estavam próximas da superfície dos nossos pensamentos na maior parte do tempo, especialmente porque um dos nossos vizinhos fora prisioneiro no Gulag Soviético por dez anos depois do fim da guerra.

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“Tenha calma e evite ilusões políticas”

As campanhas das eleições presidenciais sempre despertavam nosso interesse. Naqueles anos, ambos os partidos tinham alas progressivas e conservadoras. Batistas brancos do sul e católico-romanos tendiam a votar nos democratas, enquanto os evangélicos do norte e a maioria dos protestantes geralmente votavam nos republicanos. Democratas e republicanos não estavam tão distantes, ambos alegavam pertencer à grande tradição liberal, diferindo apenas em qual partido era o herdeiro legítimo.

Entretanto, no tempo em que estive vivendo no Canadá, a política do meu país natal se tornou irreconhecível e cada vez mais intrigante, mesmo para um cientista político acadêmico. Em 2008 os americanos votaram para presidente em um homem cuja máquina de campanha o retratou em termos quase messiânicos. Prometendo unir novamente uma nação polarizada, ele buscou políticas de divisão que indicavam, entre outras coisas, a falta de compreensão da importância da liberdade religiosa, especialmente fora das quatro paredes de uma igreja. Ainda assim manteve a conduta presidencial – quase régia – e conseguiu inspirar a confiança da maioria do eleitorado.

Infelizmente, seus dois oponentes de 2008 e 2012 não eram concorrentes de destaque, e o resultado das duas eleições só aumentou a polarização do eleitorado.

Nostalgia?

Este ano em particular me tem feito coçar a cabeça, já que os americanos têm apoiado candidatos mais extremos de ambos os partidos.

Donald Trump não tem experiência política para contar, mas é consideravelmente familiarizado com o mundo negro do capitalismo voraz, indo tão longe quanto processar uma senhora em razão de sua casa, que ficava sobre uma cobiçada propriedade para seus investimentos imobiliários. Com suas declarações ultrajantes, Trump está obviamente drenando uma veia de raiva que corre por um determinado segmento do eleitorado, trazendo à cena americana algo com o sabor do russo Vladmir Putin. Nostalgia por um passado quando a América era aparentemente maior que hoje, em certa medida um paralelo do saudosismo russo pela extinta União Soviética.

No lado Democrata, um número crescente de americanos apoia um socialista democrata confesso, o senador Bernie Sanders, de Vermont. No passado, só a palavra “socialismo” já seria o beijo da morte em uma campanha política. Depois de 1932, que representa o grande trunfo de um partido socialista nas urnas, tornou-se contaminada de no mínimo associações verbais com o Nacional Socialismo alemão e o estilo soviético de comunismo, cujas ilusões ideológicas deixaram um rastro de dezenas de milhões de vítimas.

Entretanto, o socialismo de Sanders carece do elemento comum da maioria dos movimentos socialistas. Ele é algo como um político solitário, mais semelhante a Jimmy Stewart em 1939 no filme A mulher faz o homem do que a Vladmir Lenin ou até ao nosso Thomas Mulcair. Em vez disso, Sanders é mais um “new dealer” no estilo Roosevelt, empurrando programas de bem-estar social que canadenses e europeus já têm como certos. Figura independente, ele se juntou ao partido Democrata apenas próximo de sua nomeação para a corrida presidencial. O que Sanders não consegue explicar aos seus eleitores, entretanto, é como um país que tem $440 bilhões de déficit e está sobrecarregado com uma dívida de $19 trilhões vai implementar sequer uma parte de suas promessas.

Dilema

Enquanto escrevo, Trump está indo melhor que o esperado nas eleições primárias estaduais que ocorreram até agora. No lado Democrata, Hillary Clinton e Sanders estão ambos conseguindo apoio. É muito cedo para dizer como a corrida vai estar em novembro, mas alguns especialistas estão colocando seus pescoços na forca e prevendo uma disputa entre Trump e Hillary. Embora ela seja uma candidata mais conhecida do que Trump, sua reputação tem sido manchada por controvérsias a respeito do uso de um servidor de e-mail privado e sua conduta como secretária de Estado durante o ataque [à embaixada americana em] Benghazi em 2012. Faz tempo que os Democratas estão desanimados com sua candidatura.

Isso coloca muitos americanos em um dilema. Como cidadão americano, eu tenho o direito de me abster de votar baseado no meu tempo de residência em DuPage County, Illinois. Entretanto, depois de 30 anos no Canadá, estou me tornando cada vez mais desconfortável com isso, à medida que vou me afastando especialmente das questões locais e estaduais. Além disso, a possibilidade de ter que escolher entre dois candidatos seriamente falhos me faz ainda menos inclinado a votar desta vez.

Enquanto eu estou atualmente incerto sobre o que vou fazer em novembro, estou completamente certo de que vou continuar orando para que os líderes de todos os países governem de acordo com os princípios da justiça pública. E te encorajo a fazer o mesmo.

David Koyzis é cientista político.

Tradução: Allan Santos

Confessions of a dual citizen

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