Polícia de greve

por Lucas G. Freire

Os jornais nos informam que haverá uma paralisação nacional da polícia. Em Recife, já vimos o que pode acontecer com uma greve policial. Assassinatos. Estupros. Roubos.

O interessante é notar que, mesmo com a polícia trabalhando, os assassinatos, estupros e roubos são notoriamente altos no país em geral, e especialmente naquela cidade.

Que pensar disso tudo? A greve nos mostra um outro lado da situação brasileira, um lado nefasto e pouco animador mas, ao mesmo tempo, um lado que tem muito a nos ensinar.

A polícia entra de greve, e a gente de bem está desarmada. Como irá se defender? Com armas? Sim, com armas, pois até pau e pedra em armas se transformam, se necessário for.

Desarmamento é mito. Um lápis pode ser uma arma. E não estamos só falando da luta de ideias, escritas pelo lápis, e sim de fisicamente usar o objeto como possível defesa, contra um agressor.

Sendo mito, o desarmamento não tem o propósito de… desarmar, e sim de enfraquecer. A gente de bem sem armas, os bandidos e o governo com as armas, monopolizando a segurança.

Ao magistrado civil, diz Paulo aos Romanos (capítulo 13), é dado o poder da espada para combater o malfeitor. Sim, combater o uso ilegítimo do poder da espada é prerrogativa do agente que empunha legitimamente a espada.

Mas e a defesa? E a segurança? Isso nunca foi prerrogativa exclusiva do magistrado civil. Ao pai de família, por exemplo, é não somente legítimo, como necessário, defender seu lar de qualquer agressor.

Desarmamento enfraquece essa defesa não-governamental. Desarmamento é o governo falar “deixa comigo”. E, então, esse mesmo governo entra de greve.

A polícia precisa sim de melhor equipamento, condição de trabalho, salário digno e treinamento adequado. Que use todas as vias legais para pedir o que precisa.

Por outro lado, quando a polícia faz greve, ela está fugindo do seu chamado de combater o malfeitor. Ela está, na verdade, combatendo o bem e promovendo o malfeitor.

E isso não quer dizer só o assassino, o estuprador e o ladrão. A greve da polícia promove também outro tipo de malfeitor: aquele que se assenta na assembleia legislativa, na câmara, ou no senado, tentando elaborar novas maneiras de espoliar o povo brasileiro vestindo uma máscara de legitimidade.

Nem todo político é malfeitor, mas os que desejam usurpar ainda mais poder, centralizar ainda mais o governo e minar ainda mais as liberdades do povo brasileiro – esses são uma grande ameaça à nação.

Tais políticos apontarão a greve da polícia dum lado e o caos do outro. Eles dirão: “precisamos dum governo mais gigante e poderoso”. Os extremados dirão: “precisamos declarar estado de sítio e de exceção”. E dirão: “precisamos tributar mais, desarmar mais, e enfraquecer mais o povo”.

Mas a greve não é sinal de que precisamos de qualquer uma dessas coisas, pois a greve apresenta também uma ironia interessante. Sem a greve da polícia, a alta criminalidade já era real e notável. A injustiça já imperava, e já tínhamos políticos que desejavam usurpar mais poder e espoliar mais o povo.

Por um lado, as péssimas condições de trabalho do magistrado civil podem ser parcialmente culpadas por essa situação. Por outro, não há como isentar a política desarmamentista, que tem tentado forçar a população a depositar sua fé e confiança fundamental na espada empunhada pelo magistrado civil.

E não há como isentar a corrupção generalizada do sistema político brasileiro. Há magistrados que legislam impiamente, há os que julgam impiamente, e há os que aplicam impiamente a lei, ou a deixam de aplicar, omissão que é igualmente ímpia.

Anúncios

Qualidade de vida?

por Lucas G. Freire

A Suécia é um país muito menos socialista que o Brasil, mas mesmo assim há quem pense que a qualidade de vida naquele país se deva a essa ideologia.

Em todo caso, há quem não entenda que certas coisas que são chamadas de “qualidade de vida” na verdade são problemas sob disfarce.

Julia Carvalho, na revista Exame, traz as últimas sobre aquele país exótico. Ela menciona que alguns funcionários na prefeitura de Gotemburgo estão trabalhando apenas 6 horas por dia durante 1 ano, como um experimento.

Na matéria, um político do Partido da Esquerda elogia o progresso dessa mudança, e que poderia em tese se estender a mais pessoas depois do experimento. Isso seria uma forma de gerar emprego.

Além de não fazer muito sentido econômico ou lógico, isso tem muito pouco a ver com “qualidade de vida” ou bem-aventurança no sentido bíblico do termo.

A Bíblia tem um conceito marcadamente distinto de felicidade. Ela liga felicidade ao trabalho. É isto o que ela declara ao homem que “teme ao SENHOR” e “anda nos seus caminhos”, na sua vida diária, no seu ganhã-pão: “do trabalho das tuas mãos comerás” e, por isso, “feliz serás e tudo te irá bem” (Sl 128.1-2).

Qualidade de vida tem muito mais a ver com o bom e responsável exercício duma vocação digna e honesta, com afinco, durante seis dias da semana, para então descansar com satisfação no sétimo, dando graças a Deus e sustentando a si próprio e aos que dependem de si.

Essa lição os suecos tinham em mente quando se ergueram como uma grande nação no passado, quando o cristianismo era bastante influente naquela cultura.

Hoje, parece que o conceito de “qualidade de vida” se inverteu por lá. Ou talvez tenha se invertido por aqui, no nosso país, fato refletido pelas palavras de Julia Carvalho.

É Livre a Organização Sindical (Mas nem Tanto)

por Vinícius S. Pimentel

A feição ‘monocromática‘ da organização sindical brasileira – onde há pouco (ou nenhum) espaço para associações voluntárias de trabalhadores – é devida a uma ‘pintura’ jurídica: é a Constituição da República de 1988 quem proíbe a pluralidade de sindicatos.

Embora o artigo 8º da Constituição afirme que “é livre a associação profissional ou sindical”, o seu inciso II qualifica essa liberdade de maneira excessivamente restritiva, proibindo a criação de mais de um sindicato para representar uma mesma categoria (de trabalhadores ou empresários) em uma mesma base territorial. Significa dizer que os trabalhadores brasileiros são livres apenas para escolher entre não ter um sindicato ou ter um único sindicato.

Esse modelo baseado na unidade sindical (em oposição à pluralidade vigente em outros países) é seguido no Brasil desde o período do Estado Novo, no qual as relações de trabalho e o sindicalismo foram pensados por um viés claramente fascista e corporativista. Sob essa ótica, cabe ao Estado gerir e controlar todas as associações que emergem na vida social, a fim de fazê-las atuar de modo colaborativo para o ‘bem da nação’. No que se refere às organizações sindicais, a intervenção estatal teria por objetivo suplantar a ‘luta de classes’ e levar os sindicatos profissionais e patronais a colaborarem para o desenvolvimento econômico nacional. A pluralidade sindical tornaria esse controle governamental virtualmente impossível.

Talvez o corporativismo tenha ficado para trás, mas o modelo unívoco, que proíbe arranjos alternativos de trabalhadores, ainda mantém os sindicatos fortemente controlados – se não pelo Estado, certamente pelos grupos políticos que se perpetuam nas lideranças sindicais, tantas vezes cooptados por interesses partidários e econômicos contrários à ‘lógica’ interna da associação que lideram. Pode-se dizer, com efeito, que a unidade sindical conduz a uma “auto-sabotagem” e a um “pacto de hipocrisia engendrado pelos agentes representativos das associações”.

Como pode o trabalhador cristão brasileiro, nesse contexto, atuar de forma “criativa” e ética para cumprir o mandato recebido do Criador? Por um lado, é possível a criação de associações, sem caráter sindical, com o objetivo de “incentivar a reflexão normativa em cada ramo profissional, além da defesa aos fracos quando há injustiça na relação de trabalho.” Por outro, dadas as limitações na atuação de uma associação desse tipo, o cristão interessado em uma política reformada deveria considerar também a possibilidade de buscar, no âmbito legislativo, a substituição do modelo unívoco vigente por um que contemple a pluralidade sindical.

Uma Alternativa à Auto-Sabotagem Sindical

por Jackson Salustiano

O que leva movimentos sindicais a deflagrar diversas greves é o pleito pela atualização do ‘salário base’ da categoria. De fato, a prática da greve como a solução para essa demanda é “um processo de barganha coletiva”. Esse processo alega legitimar a “quebra de contrato” e, com isso, a “quebra… do mandamento ‘não furtarás’, além de implicar perjúrio”. O processo ainda “almeja se transformar numa espécie de chantagem” em inúmeras ocasiões.

Isso, sem dúvida, gera prejuízos à sociedade: por exemplo, a paralisação de serviços muitas vezes essenciais. Sem contar que a liberdade sagrada de ir e vir é rotineiramente violada ou pelo menos restringida por passeatas, obstruções e piquetes em certas áreas públicas. Os direitos de terceiros são, assim, feridos. A ética cristã resumida no segundo ‘grande mandamento’ é desrespeitada como um todo.

Mas existe possível mobilização legítima? Sugiro uma atitude a “levar em consideração a possibilidade de uma maneira mais criativa e moralmente aceitável de ação coletiva” promovida pelo cristão trabalhador. Trata-se da movimentação de seus pares para exigir dos representantes sindicais que a negociação das condições laborais da categoria sejam antecipadas, uma vez que são previstas, pelo menos, com um ano de antecedência.

Isso evitaria que as representações de classe permitissem, de forma leviana e até mesmo com negligência, a repetida negociação de última hora para ‘criar um fato’ que vivem rotulando de prejuízo, levando-as a tomar a medida drástica de paralisação. Na verdade, são as próprias representações de classe que precipitam de propósito essa auto-lesão. Com amigo desse naipe, quem precisa de inimigo?

Essa prática, bem corriqueira nas representações sindicais no Brasil, deve ser rejeitada e denunciada pelo trabalhador cristão. Ela não se coaduna com qualquer princípio ético bíblico. Pelo contrário, revela um pacto de hipocrisia engendrado pelos agentes representativos das associações. Esse pacto deve ser suplantado a todo esforço pela atuação criativa e ética do cristão no fronte de sua vocação funcional instituído pelo Criador.

Greve e Ética Cristã

por Lucas G. Freire

Um dos graves problemas da nossa sociedade é a ausência de espaço para associações voluntárias. Isso torna o Brasil bastante “monocromático“. Por que precisamos de mais “cor”? Sabendo que não pode viver só, o ser humano tem formado grupos e associações desde os primórdios, criando ambientes para facilitar o intercâmbio daquilo que julga ser necessário a uma vida de qualidade . Contudo, devido a vários problemas ligados ao caráter estatista e paternalista do nosso desenvolvimento histórico, temos hoje pouca diversidade de associações, e uma sociedade organizada em “grandes blocos”.

Um exemplo claro é o efeito de diversas leis trabalhistas modernas nas nossas associações profissionais e de classe. O resultado hoje é o favorecimento, por essas regulações, aos grupos sindicais bem articulados na barganha coletiva e, em vários casos, bem sucedidos na monopolização de representação trabalhista. Essa concentração que favorece esses “grandes blocos” não reflete um mercado de trabalho livre e desregulado, e sim um ambiente pesadamente regulado, que “expulsa” ou “desencoraja” arranjos alternativos.

Continuar lendo

Táxis, Cooperativas e Política Cristã

por Lucas G. Freire

Logo após pousar no aeroporto de Confins e retirar minha bagagem, procurei um táxi de cooperativa para ir para Belo Horizonte. Os táxis de cooperativa são famosos na capital mineira por conta da boa qualificação dos motoristas e alta qualidade dos veículos. Minha ideia era ter um restante de viagem confortável, e usar o táxi “azul”, como nós o chamamos, foi uma boa escolha.

Continuar lendo