Os Testamentos da Bíblia e a posse de armas

por Douglas Wilson

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Outra boa razão para ter uma arma — embora você já conte com um monte de boas razões — é que ela dá a oportunidade de fazer um curso de teologia prática. E o curso que tenho em mente é a diferença crucial entre o Antigo e o Novo Pacto.

Há algumas inverdades sobre a relação entre os testamentos muito fáceis de perceber. Por exemplo, o Deus do Antigo Testamento (AT) era um Deus de ________. Se você não preencheu com a palavra “ira”, então você deve ter se sentido incomodado na classe de catecúmenos. Isso está em contraste com o Deus do Novo Testamento (NT), um Deus de ________. É isso mesmo, classe: presume-se que a resposta certa seja “amor”.

Só que Deus é extraordinariamente amoroso no AT (Sl 136), e sua ira arde mais ferozmente no NT do que em qualquer outro lugar (Ap 19.3).

Outro erro — o que estamos considerando aqui — é Deus munir seu povo com bênçãos temporais e tangíveis no Antigo Testamento, e com bênçãos espirituais no Novo. Supõe-se que isso explique o fato do povo de Deus no AT ser bélico (Sl 144.1) e, no NT, abandonar as armas carnais e adotar armas muito mais poderosas e espirituais (2Co 10.4).

Temos de declarar agora nos termos mais fortes possíveis: há momentos em que o povo de Deus — os cristãos — deve lutar como gatos selvagens, e outros em que devemos seguir como cordeiros para o matadouro. Esses dois “momentos” não têm relação com o Antigo Pacto e o Novo Pacto. Quando for decidir o que fazer, o crente deve procurar saber em que momento ele se encontra, e não em que milênio.

Aqui está a razão:

Em se tratando deste assunto — e todos os pontos cardeais relacionados a ele —, precisamos estudar especialmente o capítulo 11 de Hebreus. O que os grandes homens e mulheres de fé no AT confessaram? Que eles eram “estrangeiros e peregrinos na terra” (Hb 11.13). Todos confessaram isso, não apenas os mártires. Guerreiros e mártires assim o fizeram.

O que essa fé resultou para eles? Para alguns, em martírio; para outros, em vitórias espetaculares.

“32 E que mais direi? Faltar-me-ia o tempo contando de Gideão, e de Baraque, e de Sansão, e de Jefté, e de Davi, e de Samuel e dos profetas, 33 os quais pela fé venceram reinos, praticaram a justiça, alcançaram promessas, fecharam as bocas dos leões, 34 apagaram a força do fogo, escaparam do fio da espada, da fraqueza tiraram forças, na batalha se esforçaram, puseram em fuga os exércitos dos estranhos. 35 As mulheres receberam pela ressurreição os seus mortos; uns foram torturados, não aceitando o seu livramento, para alcançarem uma melhor ressurreição; 36 e outros experimentaram escárnios e açoites, e até cadeias e prisões. 37 Foram apedrejados, serrados, tentados, mortos ao fio da espada; andaram vestidos de peles de ovelhas e de cabras, desamparados, aflitos e maltratados 38 (dos quais o mundo não era digno), errantes pelos desertos, e montes, e pelas covas e cavernas da terra. 39 E todos estes, tendo tido testemunho pela fé, não alcançaram a promessa” (Hb 11.32-39).

Olhe para todas as vitórias “carnais” até o versículo 35, e para as “espirituais” a partir do versículo 36. Um momento de reflexão, naturalmente, deveria nos revelar que todas essas vitórias foram obtidas pela fé, e os dois diferentes tipos de vitória não diziam respeito à era pactual em que estavam vivendo.

Reflita, então, sobre o fato de que todas essas vitórias, não apenas algumas delas, nos foram estabelecidas como modelos a ser imitados (Hb 12.1). Devemos correr nossa corrida com Davi (o homem que venceu grandes batalhas com sua fé) e Isaías (o homem que foi serrado ao meio por sua fé) nas arquibancadas. Isso exige discernimento moral e ético por parte dos cristãos. Descobrir se você vive antes ou depois de Cristo, porém, não requer nenhum discernimento. Achar que qualquer era do pacto nos proporciona uma ética simples e fácil de usar sobre a questão da violência, em que um tamanho serve para todos, é cometer uma injustiça radical contra o ensino da Escritura.

Desse modo, isso remete à posse de arma. Por isso que o Cerco de Leiden foi uma nobre diligência cristã por parte dos protetores, e por que a não resistência de Latimer e Ridley foi um nobre martírio cristão. A igreja de Deus abrange guerreiros e contemplativos, pessoas que lutam e que amam. Não os temos somente agora: sempre os tivemos. O que estamos por fazer vai depender das circunstâncias, não do calendário.

No Antigo Pacto, Jeremias foi um patriota quando disse aos habitantes de Jerusalém que não lutassem com os babilônios. No Antigo Pacto, Neemias foi um patriota ao manter seus homens trabalhando nas muralhas da mesma cidade com uma arma em uma das mãos e uma ferramenta na outra. Em contraste, o militarista e pacifista modernos têm algo em comum, e é um sentimento compartilhado muito significativo. Ambos estão em busca de respostas fáceis.

Então, se você tem uma arma em casa, você deve guardá-la com segurança e pegar sua Bíblia. E por quê? Porque você é um cristão cansado de respostas fáceis.

Fonte: Blog & Mablog

Tradução: Leonardo Bruno Galdino

Revisão: Rogério Portella

Como orar pelos governantes?

Admoesto-te, pois, antes de tudo, que se façam deprecações, orações, intercessões, e ações de graças, por todos os homens; pelos reis, e por todos os que estão em eminência, para que tenhamos uma vida quieta e sossegada, em toda a piedade e honestidade (1Tm 2.1-2).

file0001059522887Após uma conferência inteira em que eu falei sobre a visão bíblica da política, enfatizando principalmente a tradição cristã reformada de pensamento político, surgiu uma pergunta. Eu tinha falado pouco a respeito do dever cristão de orar pelos governantes.

Eu havia dito que precisamos limitar o poder do governo, que precisamos nos organizar como cristãos associados para promover diversas causas independentemente do uso do poder coercitivo do governo, e que precisamos nos educar para entender corretamente o lugar da política no reino de Deus. Mas não falei nada sobre a oração.

Tudo o que eu falei pressupunha a oração, que é “a parte mais importante da gratidão que Deus exige de nós” (Catecismo de Heidelberg, Domingo 45), mas há jeitos certos e errados de se orar. Há um grande problema com certas orações que são feitas pelo governo e pelos governantes. É preciso corrigir esses erros para que tais orações sejam bíblicas e fiéis.

Ore ao Deus verdadeiro

Primeiramente, muitas vezes nós oramos a Deus para prover nossas necessidades, mas confiamos num falso deus que alegadamente responderá a essas orações. Em nossa oração, chamamos a Deus de “Pai nosso”, indicando, com nossos lábios, “esperar do Seu poder infinito tudo aquilo que necessitamos para os nossos corpos e almas” (Domingo 46). Porém, em nossa vida política, pode ser que implicitamente atribuamos a algum ídolo essa capacidade de prover o que necessitamos para o corpo.

É verdade que Deus escolheu meios terrenos para esse fim – ele escolheu o trabalho, a atividade econômica, a transformação da natureza em bens e serviços que podem ser trocados voluntariamente para satisfazer às necessidades práticas que nós temos e muito mais. Não é idolatria orar para que Deus use o meio que ele mesmo escolheu para esse fim, mas é idolatria absolutizar esse meio, como a Fonte Última do nosso sustento.

O cristão que ora para ter comida no prato, mas que desperdiça o pouco que tem com apostas, jogos de azar e consumismo supérfluo está contradizendo com a vida o que seus lábios afirmam: “Pai nosso”. Que ele use com afinco seus bens e talentos, meios que Deus mesmo disponibilizou, como resposta a essa oração. E não é errado pedir ajuda à Igreja (especialmente à sua diaconia), ou a outras organizações cristãs que podem auxiliar tanto no curto como no longo prazo.

Também é fácil nos esquecer que, ao orarmos por isso, estamos orando pelas provisões básicas e por nossa sobrevivência. Muitos de nós oram por essas coisas com um certo conforto, mas é bom lembrar, a cada refeição que tomamos, que há várias pessoas passando fome, e que precisam de ajuda. Oramos para que Deus use os meios que ele disponibilizou para nos ajudar. Pode ser que você mesmo seja um meio para uma pessoa que tem orado. Pode ser que você precise pensar melhor em como servir ao próximo, seja vendendo, contratando, emprestando, doando ou até mesmo comprando.

Ore por aquilo que Deus ordenou

Em segundo lugar, um dos fatores fundamentais na oração que Deus escuta é que ela seja feita “por … aquilo que Ele nos ordenou orar” (Domingo 45). Não ore para ganhar na loteria. E também não ore para Deus abençoar uma outra pessoa que vai roubar de quem tem para dar a você, que não tem.

Essa é uma outra idolatria, que absolutiza o papel do governo civil na vida social. O governo civil é chamado para promover a justiça pública, e não para promover a redistribuição ou o igualitarismo. ao orar pelo governo e pelos governantes, esqueça o que você aprende na escola sobre o papel do governo. A oração que Deus responde deve ser feita por aquilo que ele nos ordenou orar.

Ore pela justiça pública. Ore para que Deus tenha misericórdia da sua terra. Ore para que ele estabeleça a justiça, especialmente no caso dos mais vulneráveis, que não têm como se defender. Ore para que ele traga justiça aos homicidas, ladrões e corruptos. Aos que cometem fraude e estupro. Aos que sequestram e aos que inflacionam a moeda.

Ore para que o governo seja eficaz naquilo que é biblicamente o seu papel. Não ore para que o governo seja eficaz naquilo que não é o seu papel. É verdade que muita gente não entende esse papel. Ore pelo trabalho de cristãos reformados que têm procurado esclarecer ao povo essas questões. Ore pelos institutos que ensinam o papel bíblico do governo. Ore para que o eleitor aprenda e mude sua postura.

Ore, também, por arrependimento. Arrependimento dos governantes que violam a lei, seja ela a lei da nação ou o princípio bíblico que limita o papel do governo. E, por que não, ore para que esse arrependimento vá além do campo social e atinja também a vida espiritual dos nossos governantes.

Eu já fui várias vezes à “oração vespertina” nas catedrais inglesas. Fiz isso várias vezes, mas ainda me impressiono quando escuto essas orações cantadas no meio da semana. A Igreja da Inglaterra ainda ora pela Rainha e pela Família Real. Ora pela salvação de suas almas. Ora para o Espírito Santo santificar as suas vidas. Ora para que cumpram bem o seu cargo. Ora para que tenham sabedoria piedosa.

O termo “piedosa” não é por acaso. Existe a sabedoria da desobediência antibíblica, existe a “eficiência governamental” para fazer o mal, que muita gente pede equivocadamente a Deus, e existe a sabedoria piedosa, em obedecer o mandato que Deus deu ao magistrado civil.

Eu gastei uma conferência inteira falando sobre para que serve o governo, e o que é legítimo e moral na política cristã. É claro que devemos orar, e é claro que muitas vezes nossa oração envolverá de alguma forma a vida política da nação. Mas oração é coisa séria, e deve ser feita da forma certa, informada por esses princípios bíblicos sobre o papel e a legitimidade do governo civil.

O Nosso Senhor teve que ensinar seus discípulos a orar. E o que ele fala sobre política na oração que ensinou? Ele ora a Deus: “venha o teu reino” e “seja feita a tua vontade na terra, como no céu”. Você pode colocar “justiça pública” como parte disso. Sobre as suas provisões e subsistência, que vão além da justiça pública, diga “o pão nosso de cada dia dá-nos hoje”. Diga isso ao seu Pai no céu, e não aos que ocupam os assentos do Congresso, do Senado e da Presidência.

Lucas G. Freire é editor do Política Reformada.

Uma linguagem melhor, por favor

por Lucas G. Freire

Os jornais têm relatado que o juiz que negou liberdade a dois manifestantes dos Black Blocs utilizou, na sua decisão, uma frase de efeito empregada por comentaristas políticos de direita.

O juiz teria dito que os Black Blocs fazem parte da chamada ‘esquerda caviar’. O termo esquerda caviar, obviamente, não é neutro, nem do ponto de vista político nem teórico.

Espera-se dum sistema de justiça que ele seja politicamente e teoricamente neutro. Essa expectativa é ilusão. Um sistema de justiça ou promove a justiça (e, por isso, pode ser acusado de apoiar uma determinada perspectiva política e teórica) ou promove a injustica (e, por isso, pode também ser acusado de apoiar uma determinada perspectiva política e teórica).

Os revolucionistas esperam implantar sua revolução (seja qual for) e mudar o curso do sistema de justiça. Os que favorecem a situação atual esperam que o sistema de justiça mantenha a situação atual. A oposição, nos dois casos, denunciará esse uso ‘político’ do sistema de justiça.

Até aqui, nenhuma novidade. Porém, é possível uma terceira atitude, e é essa atitude a meu ver que deve marcar a política cristã.

Para começar, o fato de integrantes dos Black Blocs serem incoerentes com o ‘esquerdismo’ que defendem, ao ter acesso ao ‘caviar’ não deveria ter tanto peso no sistema judiciário. A hipocrisia do réu não o faz necessariamente mais ou menos culpado.

Em resposta, a política cristã aprecia e honra o serviço desse juiz à nação quando ele promove a justiça pública e combate a violência, a agressão, o roubo, o vandalismo dos Black Blocs.

A política cristã vai ainda mais longe e mantém o direito do grupo se manifestar de forma não-violenta (coisa que o juiz parece ter negado, por conta da má conduta de vários integrantes do grupo). Isso é essencial: se um grupo tem uma certa causa, é na esfera pública que essa causa poderá ser refutada, exposta e rejeitada.

O que homens como Althusius e Milton afirmaram na época da Reforma Protestante vale também para essa situação: podemos discordar do discurso, e a melhor forma para que ele suma do mapa é exatamente dando-lhe o espaço necessário para ser razoavelmente avaliado pela audiência, e adequadamente rejeitado.

Falando em discurso, um outro ponto a ser levantado é que o uso de chavões em geral obscurece o debate, embora eles se proponham a simplificá-lo. O termo ‘esquerda caviar’ tem sido empregado na mídia brasileira como um chavão mágico que supostamente explicaria vários fenômenos.

Esse tipo de dinâmica não é unilateral. A ‘esquerda’ tem seus cacoetes. Já ouviu falar de ‘coxinha’, de ‘privilegiado’, ou de ‘alienado’? A ‘direita’ tem os seus. ‘Marxista cultural’. Aliás, veja como a própria definição de ‘direitista’ e ‘esquerdista’ é plástica. Para o ‘esquerdista’, qualquer um à sua direita é um direitista. E vice-versa.

Só que esquerda-direita é uma dicotomia unidirecional. Ela desenha uma tabela com duas colunas, e lista os posicionamentos ‘direitistas’ e ‘esquerdistas’ para cada assunto. Israel? Direita. Palestina? Esquerda. Estados Unidos? Direita. Cuba? Esquerda. Se os problemas fossem assim tão simples, já teriam sido resolvidos.

Reconhecendo a complexidade da esfera pública, a política cristã tenta se desvencilhar dessa dicotomia. O foco principal da política cristã deve ser a justiça pública. Onde houver iniciação de agressão, o cristão denunciará tal injustiça.

Por isso, a política cristã se propõe a criar um vocabulário novo, e um novo ambiente de civilidade na esfera pública. E, talvez, o cristão poderá tentar evitar os chavões clássicos e enxergar o interlocutor como um ser humano tão complexo como a realidade que ele tenta comentar. Uma pessoa de carne e osso, nem sempre coerente. E isso talvez sirva de ponte entre um lado e outro do espectro político.

Se não servir, ao menos será uma forma dupla de amar o próximo como a nós mesmos. No debate privado, isso significa ouvir e não caluniar. Na esfera pública, isso significa concentrar a política na promoção da justiça pública, coisa que um juiz cristão ou não-cristão, esquerdista ou direitsta, é capaz de fazer se quiser, independente de qual seja seu livro de cabeceira.

Qualidade de vida?

por Lucas G. Freire

A Suécia é um país muito menos socialista que o Brasil, mas mesmo assim há quem pense que a qualidade de vida naquele país se deva a essa ideologia.

Em todo caso, há quem não entenda que certas coisas que são chamadas de “qualidade de vida” na verdade são problemas sob disfarce.

Julia Carvalho, na revista Exame, traz as últimas sobre aquele país exótico. Ela menciona que alguns funcionários na prefeitura de Gotemburgo estão trabalhando apenas 6 horas por dia durante 1 ano, como um experimento.

Na matéria, um político do Partido da Esquerda elogia o progresso dessa mudança, e que poderia em tese se estender a mais pessoas depois do experimento. Isso seria uma forma de gerar emprego.

Além de não fazer muito sentido econômico ou lógico, isso tem muito pouco a ver com “qualidade de vida” ou bem-aventurança no sentido bíblico do termo.

A Bíblia tem um conceito marcadamente distinto de felicidade. Ela liga felicidade ao trabalho. É isto o que ela declara ao homem que “teme ao SENHOR” e “anda nos seus caminhos”, na sua vida diária, no seu ganhã-pão: “do trabalho das tuas mãos comerás” e, por isso, “feliz serás e tudo te irá bem” (Sl 128.1-2).

Qualidade de vida tem muito mais a ver com o bom e responsável exercício duma vocação digna e honesta, com afinco, durante seis dias da semana, para então descansar com satisfação no sétimo, dando graças a Deus e sustentando a si próprio e aos que dependem de si.

Essa lição os suecos tinham em mente quando se ergueram como uma grande nação no passado, quando o cristianismo era bastante influente naquela cultura.

Hoje, parece que o conceito de “qualidade de vida” se inverteu por lá. Ou talvez tenha se invertido por aqui, no nosso país, fato refletido pelas palavras de Julia Carvalho.

Aborto: Não basta ser contra

por Lucas G. Freire

Entre nossos políticos e burocratas, assistentes sociais e ativistas, militantes e intelectuais, existe uma tendência a tratar o aborto como prática normal, e sua liberalização como um alvo desejável. O aborto que se pretende legalizar no Brasil é um tipo de homicídio. Os que desejam sua legalização querem que o governo promova aquilo que é mau e dificulte aquilo que é bom. Nessa inversão de vida e morte, a mulher que teme a Deus nada contra a corrente da sociedade contemporânea. Faz ela muito bem.

Porém, sua estratégia muitas vezes é incompleta. É que, em diversas ocasiões nosso combate ao mal deixa a desejar, não vai além do básico. Para não dizer falso testemunho contra o próximo, basta fechar a boca. Para defender a honra do seu próximo, em palavra e pensamento, é preciso um esforço consideravelmente maior. Na luta contra o pecado, a tendência é pensar que basta não fazer o mal. É muito mais difícil ir além, promovendo ativamente o bem que esse pecado fere.

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Discutindo Defesa e Segurança na Universidade Livre de Amsterdã

por Lucas G. Freire

Discutindo segurança e defesa dum ponto de vista reformado.

Discutindo segurança e defesa dum ponto de vista reformado.

No fim de Janeiro de 2014 fiz parte do II Seminário Kuyper, desta vez, sobre cristianismo e política internacional, organizado pela Universidade Livre de Amsterdã.

O legado de Abraham Kuyper e Herman Dooyeweerd na teoria e na filosofia política foi criticamente avaliado com discussões históricas e conceituais. Também a influência da filosofia neo-tomista e de políticos católico-romanos foi destacada, principalmente em termos da política na União Europeia.

Eu apresentei uma crítica a uma das principais teorias atuais de estudos de segurança (a teoria da securitização por setores), mostrando o potencial da filosofia reformada de Herman Dooyeweerd em lidar com algumas das falhas dessa abordagem.

Também falaram na conferência o Jonathan Chaplin, James W. Skillen, Scott Thomas, George Harinck, Romel Bagares e outros pesquisadores na tradição reformada. O jornal Reformatorisch Dagblad cobriu o evento numa matéria extensa.

***

Esteve presente o ex-Ministro da Defesa holandês Eimert van Middelkoop, que discursou sobre seu papel na condução da intervenção holandesa no Afeganistão.

Como cristão, ele se deparou com a necessidade de equilibrar a ética pessoal do “não matarás” e de “dar a outra face”, confirmada por Jesus, com a autorização de punir a agressão como ministro de Deus para a justiça pública, conforme Paulo descreve na carta aos Romanos.

Eu lhe perguntei sua opinião sobre disciplina eclesiástica para alguém que peque como figura pública. Ele respondeu que o erro político é punido politicamente nas eleições e pelo Parlamento, dispensando um membro do Gabinete. Já a quebra de um dos Dez Mandamentos é punida eclesiasticamente.

A igreja tem o dever de orar pelos governantes e Middelkoop é grato à sua igreja local (uma congregação das Igrejas Reformadas Liberadas), que orou por ele e com ele durante sua gestão. Sua resposta seguiu o princípio da “soberania das esferas”.

ex-Ministro da Defesa discute o papel da Holanda na agenda de segurança internacional

ex-Ministro da Defesa discute o papel da Holanda na agenda de segurança internacional

Middelkoop é um dos formuladores da “abordagem holandesa”. Trata-se, numa operação de intervenção internacional, de dialogar com as pessoas do local antes de implementar qualquer medida. O ex-Ministro da Defesa sente satisfação por sua “abordagem holandesa” à intervenção internacional ser hoje bastante elogiada, e recomendada por autoridades no assunto.

O Rei dos Patos e o Rei dos Reis

por Lucas G. Freire

“Os Reis dos Patos” é um reality show do canal americano A&E na TV a cabo que retrata a vida duma família rural bem-sucedida no negócio de venda de equipamentos de caça. A família confessa a fé cristã e tem presença ativa na igreja evangélica local. Phil Robertson, apresentado no programa como o “patriarca” dessa grande família, e líder do empreendimento, tem sido duramente criticado por ter expressado na TV a sua crença de que o homossexualismo é pecado. O canal repudia sua atitude e suspendeu o Sr. Robertson do programa.

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Mensalão e (In)justiças

por Vinícius S. Pimentel

O julgamento da ação penal 470, que apura os crimes cometidos no chamado “escândalo do mensalão,” representa sem dúvida um evento emblemático na história política brasileira. Aqueles que desejam engajar-se numa atuação política distintamente cristã não podem se furtar de acompanhar o desfecho do caso. Contudo, devem tomar o cuidado de fazê-lo de um modo que não desonre o mandamento divino “não dirás falso testemunho contra o teu próximo”.

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Rato no Refrigerante

por Lucas G. Freire

A televisão mostrou recentemente a triste história de um homem que está processando a Coca-Cola brasileira na justiça de São Paulo.

O caso tem gerado bastante polêmica, pois a vítima tem problemas de saúde atribuídos ao consumo de uma amostra defeituosa do refrigerante.

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Quer Transporte Coletivo Barato?

por Lucas G. Freire

A mídia fala muito, analisa até demais, só que se esquece de um dos grandes problemas por trás da controvérsia sobre o chamado “passe livre”: o analfabetismo funcional.

Existem dois sintomas graves desta doença intelectual para destacar: a falta de adequação dos meios aos fins (de alguém que julga ter aprendido o que leu para colocar em prática) e a falsa implicação que se faz da ideia original (por alguém que julga ter lido, entendido e rejeitado).

Um exemplo do primeiro sintoma é o caso recente dos vândalos-manifestantes em Recife que queimaram um ônibus porque desejam que o transporte coletivo se torne mais barato. Isso indica das duas uma: ou só querem protestar por protestar e pouco estão se lixando para o transporte coletivo em si, ou então são de fato ignorantes da relação entre meio e fim implicada no processo.

Quer transporte gratuito? Eis aqui os meios: primeiro, não diminuir a oferta de transporte, por exemplo, na queima de ônibus (!) Segundo, pedir que o governo cobre ainda mais impostos dos outros e de si próprio. Terceiro, se quiser evitar o segundo: pedir que o governo imprima dinheiro, o que quer dizer transferir renda dos mais pobres para os banqueiros e “amigos” do governo nas obras públicas.

Os vândalos-manifestantes devem ter lido algum manual de economia sem entender. Devem ter lido algum manual sobre protestos populares sem compreender que parte do ponto é tentar beneficiar o público. Nos dois casos, eles mostram o primeiro grave sintoma do analfabetismo funcional: ler, tentar aplicar, mas sem saber adequar meios aos fins.

Isso leva ao segundo sintoma. Desde que começamos a chamar a atenção para a inadequação entre meios e fins na demanda dos protestos pelo transporte gratuito, muita gente leu, mas não entendeu o ponto. Achou alguma implicação insatisfatória e rejeitou os argumentos por não ter entendido direito.

Repare nos meios para se chegar ao transporte gratuito: imposto ou inflação. Se alguém pede mais imposto, ou deseja ser tributado ou não. No segundo caso, então está protestando e demandando uma triangulação da coerção: em vez de assaltar seu próximo, pede a um terceiro agente que chacoalhe o bolso do seu próximo para pagar pela sua carona grátis.

Ou talvez a pessoa não esteja protestando por mais impostos, e sim por transporte grátis pago por dinheiro impresso do nada pelo Banco Central. Neste caso, está a demandar inflação que, no final, é uma forma de transferir renda (mais uma vez) do bolso de alguns para o bolso e outros. Por voto de maioria.

Nossas publicações foram no sentido de alertar para esse perigo do ponto de vista da ética cristã. A bíblia diz: “não furtarás.” Ela legitima que o tributo seja dado a um agente autorizado e legitimado para promover a justiça pública. Ela não legitima o tributo para dar isso ou aquilo “grátis.” O voto da maioria (ou a coerção de manifestantes) não é exceção ao mandamento de não furtar.

Quer carona grátis? Não é possível. Sempre vai custar algo a alguém. Quer carona barata? Que tal protestar para o governo (principalmente da sua cidade) desregular o setor de transporte público? Que tal pedir para ele parar com a mordomia imoral que ele concede a um número pequeno de companhias que monopolizam o setor?

Os meios e falácias utilizados até agora para baratear o ônibus são inadequados. As críticas à nossa postura cristã quanto aos protestos também. Uma solução mais caridosa e racional é protestar para as autoridades pararem de ouvir o lobby do transporte coletivo que quer manter seus privilégios às custas do povo brasileiro. Isso vai aumentar a oferta competitiva e diminuir o preço do ônibus.