Liberalismo econômico e o teológico

Liberalismo é uma palavra polissêmica: tem vários significados ou acepções. Na Europa e América do Norte, liberalism (em inglês) equivale às esquerdas, ao socialismo. Designa os promotores de governos intervencionistas e limitantes, de mercados interditados, isto é, limitados, e de propriedade coletiva ou estatal.

Em nossa América Latina, todavia, “liberalismo” pode significar exatamente o contrário, sobretudo quando seguida do adjetivo “clássico”: designa os partidários de governos limitados a umas poucas funções próprias muito específicas quanto ao livre mercado e à propriedade privada.

one_bad_apple_10533 (1)

Convém jamais confundir estes dois liberalismos

Nos países anglo-saxões houve, não faz muito tempo, uma saudável resistência ao socialismo; e por isso os socialistas evitavam se chamar pelo nome, e passaram a se autodenominar “progressistas” (progressives), desde o século 19. Porém, no século 20 foram desmascarados, e mudaram novamente para “liberais” (liberals). E como as esquerdas haviam se apropriado do conceito de “liberalismo”, desde os anos 1950 Hayek recomendou aos verdadeiros liberais o uso da expressão composta “liberalismo clássico” (classical liberalism).

Contudo, o termo em inglês para referir-se ao oposto do socialista (liberal) é mais simples e comumente “conservador” (conservative). Porém, não agradava a Hayek, que então vivia na Inglaterra, onde o Partido Conservador havia abandonado as bandeiras do liberalismo clássico, e se apegado às ideias estatistas do Partido Trabalhista.

Quais as bandeiras distintivas?

São principalmente quatro: liberdade, justiça, igualdade e progresso. Porém, entendidas da seguinte forma: (1) liberdade negativa, no sentido de Isaiah Berlin: uma garantia de autonomia dos indivíduos em todas as esferas privadas, a salvo das interferências e intromissões abusivas de leis más e de governantes; (2) justiça como “dar a cada um o que é seu”: reconhecer como propriedade privada, em tais esferas, o que corresponde a cada qual por direito natural; (3) igualdade perante a lei, sem privilégios para ninguém, sem “monopólios” no sentido de favores especiais decretados legalmente; (4) progresso como avanço na consagração destes princípios.

As esquerdas foram inteligentes no combate a tais bandeiras. “Pois os filhos deste mundo são mais astutos no trato entre si do que os filhos da luz”, lemos em Lucas 16.8 (NVI). Os socialistas não rechaçaram os termos liberdade, justiça, igualdade e progresso, enquanto signos ou “significantes”, porém mudaram por completo seus respectivos significados, para “significar” exatamente o contrário.

Para os socialistas, as quatro palavras são significadas desta outra forma: (1) liberdade “positiva”, no sentido de Isaiah Berlin: garantia legal para uma extensa lista de “direitos humanos” como emprego, moradia, educação, serviços médicos, aposentadorias e pensões etc., que “o Estado” está obrigado a proporcionar gratuitamente a todos, a qualquer custo, inclusive liberdades e propriedades alheias, de outras pessoas, que serão confiscadas para esse fim; (2) justiça como “igualitarismo”, ou seja, “nivelar o campo de jogo” (assim afirmam adeptos do Partido Democrata americano), mediante a concretização de todos esses “direitos” para que “estejamos todos no mesmo nível”; (3) “igualdade”, claro, entendida como de resultados ou ao menos de “oportunidades”; e (4) “progresso” como avanço na sanção legal destes princípios, que são diametralmente opostos aos do liberalismo clássico.

Implementando falsos conceitos

Porém antes de nos dar constituições e leis falsas, tinham de nos dar conhecimentos falsos. Aproveitando o poder do Estado na educação, puseram tais conceitos em lugar dos verdadeiros, em cada área do conhecimento:

  1. Nas ciências naturais, santificaram Darwin para usar a ideia de “evolução” em cada aspecto da vida social e em cada passo da história;
  2. Na Filosofia, retiraram todo vestígio de realismo, e impuseram todos os ceticismos, relativismos e subjetivismos (agora o pós-modernismo), negando toda verdade objetiva e a capacidade da razão de descobri-la;
  3. Na Psicologia, retiraram a moral e abriram espaço para o pavlovianismo, o condutismo e agora o “humanismo”;
  4. Na Economia, desqualificaram o livre mercado, e mesclaram marxismo, keynesianismo, “desenvolvimentismo” e toda a grande família do pensamento estatista; inclusive o monetarismo, com o qual nos dão um dinheiro que também é falso;
  5. Nas ciências políticas e jurídicas impuseram o estruturalismo e o funcionalismo, descendentes ideológicos do pragmatismo americano, e o positivismo legal rigoroso, apagando todo rastro de direito divino revelado, e inclusive o direito natural, seu “reflexo imperfeito” segundo os clássicos;
  6. Poderiam deixar livre a Teologia, ciência subversiva, cunha da ideia bíblica de governo limitado tanto em funções como em poderes e recursos, nas Escolas de Tradutores de Toledo e nas aulas dos teólogos católicos de Salamanca, e com o protestante (calvinista) John Locke? Não, desde então; quando as esquerdas religiosas se apoderaram das igrejas, da mão do romantismo chegou o liberalismo teológico aos seminários para educação dos candidatos ao ministério.

A teologia “liberal” não somente desqualificou a Bíblia, mas também a razão como fonte de conhecimento humano. Julgueis segundo “a reta justiça”, recomendou Jesus (João 7.24), porém Kant descreditou a capacidade de julgar. E seguindo Kant ao invés de Cristo, Sleiermacher fundamentou a religião em sentimentos e emoções; e esse é o “cristianismo” falsificado que temos nas igrejas, junto com o “evangelho social” das esquerdas e sua irmã latina, a teologia marxista “da libertação”.

Faltando em termos eleitorais, o voto pela esquerda, ao menos hoje em dia, é majoritariamente cristão em sua composição, tanto católico-romano como evangélico. Se esclarecermos as pessoas a respeito de muitas de suas ideias e palavras, podemos retirar do socialismo o voto cristão; e todo seu imenso poder cairá de bruços ao solo, como um ídolo com pés de barro.

Alberto Mansueti é advogado e cientista político.

Tradução: Márcio Santana Sobrinho.

Gasto irracional e corrupção

00dinheiro1“A corrupção pode estar entre 10 a 20% do gasto do Estado em cada país. Sem dúvida é roubo. Porém, e o resto do dinheiro? E os 80 a 90% que não são roubados?

Os socialistas querem fazer crer que “o Estado existe para redistribuir riqueza”, concedendo educação grátis, saúde e aposentadorias grátis, presentes e auxílios “para o povo!”

Grande mentira! Nada é “grátis” na vida. Pagamos os gastos do Estado com impostos. E entre as contribuições (e multas) “impostas” inclui-se a dívida do Estado, um imposto postergado; a inflação, um imposto disfarçado; e os confiscos de empresas e ativos econômicos a título de “expropriações”.

Porém a educação, a assistência médica, as pensões e, de modo geral, os serviços que o Estado presta são ruins e de má qualidade. As empresas do Estado costumam dar prejuízo. E para a economia privada o Estado também decreta cargas regulamentares, chamadas de “regulatórias”. E acabam não sendo muito produtivas. A fiscalização é selvagem. Na Argentina, por exemplo, os impostos levam uns 50% da economia formal! Em outros países a tributação se aproxima perigosamente desse número. Assim a pobreza resiste em desaparecer, porque a “recuperação” econômica nunca chega. Continuar lendo

Estado Regulador?

por Lucas G. Freire

Um artigo de Hélio Schwartsman na Folha de São Paulo defende uma tese interessante: o Estado brasileiro tem obrigado o consumidor a pagar o preço das regulações econômicas que, ironicamente, são feitas em defesa do próprio consumidor.

Por exemplo obrigar as companhias aéreas a providenciar hospedagem em hotel em caso de cancelamentos no voo acaba aumentando o preço da passagem aérea. Outro exemplo: a lei que tem sido discutida, proibindo a diferenciação de preços em compras pagas com cartão de crédito. Só alguns preços seriam aumentados (os pagos em cartão) e, com a regulação, é provável que todos os preços sejam aumentados para compensar, já que não podem ser diferenciados.

Até aí, Schwartsman acerta em cheio. Porém, ele começa o artigo praticamente pedindo desculpas por defender menos regulação. Ora, a economia brasileira é uma das mais reguladas no mundo inteiro. Não há por que pedir desculpas.

Pelo contrário: é preciso ser mais agressivo ao empurrar o Estado brasileiro de volta à sua esfera de autoridade.

Schwartsman acha que não é possível viver sem o Estado ditando em qual lado da estrada os carros devem dirigir, ou obrigando as pessoas a usarem papel colorido impresso pela Casa da Moeda para comprar e vender, ou determinando “convenções mínimas” para facilitar a interação entre as pessoas.

Isso é, na perspectiva histórica e prática, um equívoco. O Estado – essa comunidade política que reivindica o monopólio legítimo do uso da coerção no seu território – é uma forma relativamente recente de organização humana.

Antes do Estado-nação moderno, fruto da Revolução Francesa, já havia estradas, moeda e convenções mínimas para a interação social. Do ponto de vista histórico, existe, portanto, um grande erro nessa afirmação.

Além disso, existe também um outro tipo de erro. Do ponto de vista prático, é possível verificar como as pessoas resolvem seus problemas onde esses padrões não são providos.

Por exemplo, observações recentes em lugares onde as leis de trânsito são experimentalmente suspendidas confirmam que a segurança nas vias públicas melhorou ao invés de piorar. As pessoas passam a ter mais cuidado e estimam melhor o espaço utilizado por seu veículo. Elas negociam com os outros motoristas e, em geral, tornam-se melhores motoristas.

Um exemplo ainda mais interessante: uma das convenções mais complexas é a própria linguagem. A linguagem, tal como a utilizamos no dia-a-dia, desenvolveu-se historicamente como fruto de milhões de interações descentralizadas. Nenhuma linguagem planejada por um comitê de burocratas tem uma gramática ou vocabulário tão capazes de responder à constante mudança social como as línguas usadas espontaneamente de forma descentralizada.

Aliás, em diversas ocasiões, a mão do Estado na regulação desses padrões acaba atrapalhando. A história da inflação está aí para provar que a socialização da moeda tem dificultado ao invés de facilitar a vida econômica.

Como a linguagem, a moeda emergiu também por uso descentralizado e criativo em milhões de interações. Originalmente um bem mais útil que um mero pedaço de papel (como ouro ou prata), ela facilitou a vida econômica justamente por ser uma ferramenta constante de cálculo, fácil de transportar, maleável e com limites à sua falsificação. Desde que o socialismo monetário foi implementado, esses elementos foram perdidos, um por um.

Olhe para um país com hiperinflação e veja o que acontece: as pessoas espontaneamente (aliás, apesar da coerção governamental que obriga ainda a usar o papel-moeda hiperinflacionado) começam a usar um outro meio de troca, ou até mesmo recorrem ao escambo pré-monetário.

Ao contrário do mito contratualista que o Estado usa para se justificar, o Estado não cria a sociedade e a cooperação. Muitas vezes, a sua falha ou inferioridade inclusive deixa isso evidente.

Ao longo da era moderna, o Estado se agigantou sobremaneira, e usou intelectuais “moderados” como Schwartsman para persuadir o público a aceitar seu gigantismo. Agora, mesmo os “moderados” creem que o Estado foi longe demais. Sua reação, porém, é apática e desprovida de substância moral.

A política cristã, pelo contrário, afirma que o Estado deve se circunscrever à sua esfera de autoridade – a esfera da justiça pública.

Relatório Justiça Pública #5

Em ano de eleições gerais, é bom considerar as possibilidades de diálogo e também de tensão entre a política cristã e as diversas alternativas. Isso é importante na batalha das ideias, e é também importante na reflexão sobre o voto e as plataformas políticas.

No nosso Relatório #5, o ilustre prof. Alberto Mansueti, da Guatemala, nos apresenta um desafio: precisamos reconsiderar o diálogo com a perspectiva de governo limitado e de livre-mercado do liberalismo clássico. Para ele, essa perspectiva política e econômica tem seu desenvolvimento pleno dentro duma perspectiva bíblica.

O texto de Mansueti nos alerta também contra o diálogo fácil e pouco crítico com algumas agendas que têm sido avançadas pelos progressistas nos últimos tempos. Para ele, é importante considerar em primeiro lugar que uma perspectiva de livre-mercado e governo limitado é algo inédito na América Latina, não obstante a denúncia feita pelos progressistas.

Viaduto assassino

por Lucas G. Freire

Caiu em Belo Horizonte um viaduto, que fora construído às pressas para a Copa do Mundo, como parte do programa da prefeitura local de ampliação do acesso ao estádio de futebol.

O viaduto matou pelo menos duas pessoas, e quem sabe quantas tiveram algum machucado por conta do acidente. O caso do viaduto ilustra um problema trágico por trás da distorção do papel do governo na nossa sociedade.

Ideias têm consequências, e nesse caso, uma má ideia sobre o papel do governo civil levou a essa consequência trágica. O problema é muito mais profundo do que uma mera lambança da construtora.

Existem várias esferas da vida humana. A esfera da justiça pública opera segundo a lógica da coerção legítima do governo para combater a iniciação criminosa da violência. Já a esfera que cabe às empresas que constroem viadutos está mais diretamente sujeita às normas da alocação de recursos econômicos escassos.

Idealmente, o governo estaria usando a sua coerção legítima para combater larápios, estupradores e homicidas, dentre outros, e a empreiteira que faz viadutos, por sua vez, estaria sujeita às regras de viabilidade econômica dum projeto.

Isso incluiria o fato dos viadutos ficarem de pé ou não. Uma empreiteira, ao fazer seu serviço malfeito, perderia a demanda e, se não melhorasse bastante (e superando em muito as concorrentes que não cometeram o mesmo erro), dificilmente continuaria no ramo.

Acontece que na nossa sociedade não é assim que tem funcionado. O governo, que porcamente faz seu papel de justiça pública, decide que precisa ser médico, pai, professor, organizador de eventos (como a Copa) e engenheiro.

Com isso, o cálculo econômico fica distorcido, pois qualquer que seja a empresa contratada para fazer a obra (se não for um ramo do próprio governo, em geral, tende a ser o primo de alguém no governo), ela acaba ganhando alguma imunidade contra a lógica que é própria à sua esfera. Ela passa a contar com a “ajudinha” do poder de coerção e compulsão do governo.

Aí, onde havia um incentivo para fazer um serviço bem-feito, passa a existir um incentivo a implementar qualquer maluquice com nome de “política pública” do governo.

Isso inclui a política pública de organizar eventos, como a Copa do Mundo. Muita gente está convencida de que precisamos do governo provendo todas as coisas, caso contrário não haveria estradas, viadutos e nem mesmo Copas do Mundo.

O caso do viaduto assassino em Belo Horizonte está longe de ser uma lição completa. Existem ainda muitas perguntas sem resposta, enquanto o caso ainda se desenvolve e é investigado.

Porém, uma pergunta com resposta é: sem o governo-promoter-de-eventos, o viaduto assassino teria existido? Sem o governo-engenheiro, o viaduto assassino teria sido feito da mesma forma?

Muito provavelmente, não. Talvez jamais se pensaria em construir um viaduto ali. Talvez sim, mas com a decência mínima duma obra que, embora superfaturada e atrasada, ao menos não cairia em cima dum ônibus, matando transeuntes inocentes.

Porém, podemos sonhar mais alto e pensar num mundo onde as ordenanças da criação de Deus sejam mais respeitadas, onde o governo se restrinja a promover a justiça pública e os projetos para viadutos sejam sólidos, tanto do ponto de vista econômico como técnico e estrutural.

Algumas pessoas ainda ficam na dúvida se uma política cristã é viável. Por que o cristão deveria se preocupar com a política?

As duas vidas que poderiam ter sido poupadas me parecem ser uma resposta bastante persuasiva. Vidas criadas à imagem e semelhança do próprio Deus. Vidas que valem muito mais que mil Copas do Mundo.

Qualidade de vida?

por Lucas G. Freire

A Suécia é um país muito menos socialista que o Brasil, mas mesmo assim há quem pense que a qualidade de vida naquele país se deva a essa ideologia.

Em todo caso, há quem não entenda que certas coisas que são chamadas de “qualidade de vida” na verdade são problemas sob disfarce.

Julia Carvalho, na revista Exame, traz as últimas sobre aquele país exótico. Ela menciona que alguns funcionários na prefeitura de Gotemburgo estão trabalhando apenas 6 horas por dia durante 1 ano, como um experimento.

Na matéria, um político do Partido da Esquerda elogia o progresso dessa mudança, e que poderia em tese se estender a mais pessoas depois do experimento. Isso seria uma forma de gerar emprego.

Além de não fazer muito sentido econômico ou lógico, isso tem muito pouco a ver com “qualidade de vida” ou bem-aventurança no sentido bíblico do termo.

A Bíblia tem um conceito marcadamente distinto de felicidade. Ela liga felicidade ao trabalho. É isto o que ela declara ao homem que “teme ao SENHOR” e “anda nos seus caminhos”, na sua vida diária, no seu ganhã-pão: “do trabalho das tuas mãos comerás” e, por isso, “feliz serás e tudo te irá bem” (Sl 128.1-2).

Qualidade de vida tem muito mais a ver com o bom e responsável exercício duma vocação digna e honesta, com afinco, durante seis dias da semana, para então descansar com satisfação no sétimo, dando graças a Deus e sustentando a si próprio e aos que dependem de si.

Essa lição os suecos tinham em mente quando se ergueram como uma grande nação no passado, quando o cristianismo era bastante influente naquela cultura.

Hoje, parece que o conceito de “qualidade de vida” se inverteu por lá. Ou talvez tenha se invertido por aqui, no nosso país, fato refletido pelas palavras de Julia Carvalho.

Siga: Mais uma guerra do governo contra os pobres

por Lucas G. Freire

Em diversas ocasiões, ouvi o chavão de que as grandes empresas são contra o governo intervir no mercado. Isso é balela.

Em diversos episódios da história, uma empresa só conseguiu chegar a ter uma fatia desproporcional do mercado por conta da proteção especial que lhe foi dada pelo governo.

Alguns chamam isso de “capitalismo selvagem”. Eu chamo isso pura e simplesmente de safadeza. Existem, ao fim e ao cabo, três formas de obter riqueza: produzir, cooperar voluntariamente, tirar dos outros. A safadeza pressupõe que a terceira dessas formas é legítima.

Uma forma de safadeza é persuadir o governo a impor pesada regulação que praticamente impossibilita a concorrência e ascensão de pequenas empresas num ramo.

Com isso, fica fácil concentrar o mercado nas mãos das empresas já estabelecidas. Quem perde com isso é o resto do povo, principalmente os mais pobres.

Uma das desculpas esfarrapadas da regulação é o bem-estar do povo. Por exemplo, “esse tipo de produto não é muito seguro. Criancinhas vão explodir se ele for liberado”. Ao invés de pressupor que o ser humano é dotado de liberdade e responsabilidade, a regulação assume que é dever do Estado-babá ditar ao cidadão o que ele pode e não pode obter com base nos dois primeiros métodos (produção e cooperação voluntária).

Ou seja, esse tipo de regulação contradiz os dois métodos legítimos de obter produtos e serviços e promove o terceiro, que é ilegítimo. Ela contradiz o que Romanos 13 fala a respeito do papel da justiça pública na política cristã, que é combater o mal e promover o bem.

A Anatel é um caso clássico, e o exemplo do “Siga” basta para ilustrar. O “Siga” (Sistema Integrado de Gestão de Aparelhos) foi criado e entrará em ação para implementar uma diretriz sobre quais aparelhos móveis de telefonia celular podem ser usados ou não no território brasileiro.

A desculpa – muito comum nesse tipo de política – é que alguns aparelhos “genéricos” (leia-se: de pequenas empresas que desejam concorrer com os gatos gordos que dominam o mercado) são “nocivos à saúde” e que, portanto, é preciso uma agência governamental para indicar quais são e quais não são nocivos.

Fabricantes chineses serão mais prejudicados que os demais. Boa parte dos telefones baratos no Brasil vêm da China. Mas esses fabricantes não têm o acordo especial que as grandes companhias têm com as firmas de telefonia no Brasil.

Essas firmas, por sinal, aprovam a regulação. Esse tipo de regulação bloqueia certos telefones, e o bloqueio é uma forma adicional de controlar a concorrência no mercado de telefonia. Obviamente, muita gente não pode ficar sem telefone, e acabará comprando um novo, mais caro, e pela via “oficialmente aprovada” e regulada pela Anatel.

A concorrência é o melhor remédio para qualquer empresa que fabrique celulares que matem as criancinhas com radiação ou explosões. Sem contar que homicídio culposo já é crime bem definido na lei brasileira (e provavelmente na de qualquer outro país).

Não, não se trata de proteger as criancinhas, e sim de proteger os gatos gordos da telefonia (e, por que não, os gatos gordos do governo e das suas burocracias reguladoras, que ganham certamente um orçamento, mais poder e, com menos certeza, mas com certa probabilidade, algum suborno para implementar esse tipo de política).

Isso já é ruim o suficiente, mas pode ser pior: a probabilidade de criancinhas morrerem por causa do uso dum celular feito sob a aprovação do Siga pode ser até mesmo maior que de outra forma. Onde há pouca concorrência, há mais margem para “se safar” se algum telefone explodir.

Aconteça ou não (espero que nenhum telefone cause câncer ou explosões), uma coisa é certa: o Siga é mais uma dentre várias ferramentas do governo contra os pobres.

Se quiser chamar isso de “capitalismo selvagem”, vá em frente. Só não repita o chavão de que as grandes empresas são contra a intervenção estatista. Pode ser até mesmo que elas sejam as maiores patrocinadoras dessa injustiça perpetrada contra o povo e contra o empresário honesto.

 

Esquerda ou Direita? Não é esse o ponto!

por Lucas G. Freire

Os comentários do escritor Paulo Brabo sobre cristianismo, “direita” e “esquerda” se resumem nos seguintes pontos: muitos cristãos são de direita ou esquerda, e isso depende mais da sua preferência política que de sua leitura do cristianismo. É complexo e difícil definir direita e esquerda – mais ainda do ponto de vista dos supostos “direitistas” e “esquerdistas”. Mas a definição (diz Brabo) se resume ao seguinte:

De direita é quem de alguma forma sustenta que a desigualdade social é coisa necessária ou inevitável; de esquerda é quem sustenta que não.

Essa é a “raiz,” diz ele, de onde “brotam todos os ramos.” De onde ele tirou essa definição eu não sei. Mas suponhamos que seja assim, suponhamos que o programa político da “direita” é defender a desigualdade, e o da “esquerda” é atacar a direita.

Continuar lendo

Rato no Refrigerante

por Lucas G. Freire

A televisão mostrou recentemente a triste história de um homem que está processando a Coca-Cola brasileira na justiça de São Paulo.

O caso tem gerado bastante polêmica, pois a vítima tem problemas de saúde atribuídos ao consumo de uma amostra defeituosa do refrigerante.

Continuar lendo

Quer Transporte Coletivo Barato?

por Lucas G. Freire

A mídia fala muito, analisa até demais, só que se esquece de um dos grandes problemas por trás da controvérsia sobre o chamado “passe livre”: o analfabetismo funcional.

Existem dois sintomas graves desta doença intelectual para destacar: a falta de adequação dos meios aos fins (de alguém que julga ter aprendido o que leu para colocar em prática) e a falsa implicação que se faz da ideia original (por alguém que julga ter lido, entendido e rejeitado).

Um exemplo do primeiro sintoma é o caso recente dos vândalos-manifestantes em Recife que queimaram um ônibus porque desejam que o transporte coletivo se torne mais barato. Isso indica das duas uma: ou só querem protestar por protestar e pouco estão se lixando para o transporte coletivo em si, ou então são de fato ignorantes da relação entre meio e fim implicada no processo.

Quer transporte gratuito? Eis aqui os meios: primeiro, não diminuir a oferta de transporte, por exemplo, na queima de ônibus (!) Segundo, pedir que o governo cobre ainda mais impostos dos outros e de si próprio. Terceiro, se quiser evitar o segundo: pedir que o governo imprima dinheiro, o que quer dizer transferir renda dos mais pobres para os banqueiros e “amigos” do governo nas obras públicas.

Os vândalos-manifestantes devem ter lido algum manual de economia sem entender. Devem ter lido algum manual sobre protestos populares sem compreender que parte do ponto é tentar beneficiar o público. Nos dois casos, eles mostram o primeiro grave sintoma do analfabetismo funcional: ler, tentar aplicar, mas sem saber adequar meios aos fins.

Isso leva ao segundo sintoma. Desde que começamos a chamar a atenção para a inadequação entre meios e fins na demanda dos protestos pelo transporte gratuito, muita gente leu, mas não entendeu o ponto. Achou alguma implicação insatisfatória e rejeitou os argumentos por não ter entendido direito.

Repare nos meios para se chegar ao transporte gratuito: imposto ou inflação. Se alguém pede mais imposto, ou deseja ser tributado ou não. No segundo caso, então está protestando e demandando uma triangulação da coerção: em vez de assaltar seu próximo, pede a um terceiro agente que chacoalhe o bolso do seu próximo para pagar pela sua carona grátis.

Ou talvez a pessoa não esteja protestando por mais impostos, e sim por transporte grátis pago por dinheiro impresso do nada pelo Banco Central. Neste caso, está a demandar inflação que, no final, é uma forma de transferir renda (mais uma vez) do bolso de alguns para o bolso e outros. Por voto de maioria.

Nossas publicações foram no sentido de alertar para esse perigo do ponto de vista da ética cristã. A bíblia diz: “não furtarás.” Ela legitima que o tributo seja dado a um agente autorizado e legitimado para promover a justiça pública. Ela não legitima o tributo para dar isso ou aquilo “grátis.” O voto da maioria (ou a coerção de manifestantes) não é exceção ao mandamento de não furtar.

Quer carona grátis? Não é possível. Sempre vai custar algo a alguém. Quer carona barata? Que tal protestar para o governo (principalmente da sua cidade) desregular o setor de transporte público? Que tal pedir para ele parar com a mordomia imoral que ele concede a um número pequeno de companhias que monopolizam o setor?

Os meios e falácias utilizados até agora para baratear o ônibus são inadequados. As críticas à nossa postura cristã quanto aos protestos também. Uma solução mais caridosa e racional é protestar para as autoridades pararem de ouvir o lobby do transporte coletivo que quer manter seus privilégios às custas do povo brasileiro. Isso vai aumentar a oferta competitiva e diminuir o preço do ônibus.