Queres tu não Temer a autoridade?

Temer

O afastamento da presidente Dilma Rousseff de suas funções, consequência da instauração do processo de impeachment pelo Senado Federal, tem provocado reações diametralmente opostas entre os brasileiros. Uns consideram o avanço do processo de impedimento uma tentativa de “golpe de estado”; outros comemoram a saída (ainda temporária) de Dilma como se assistissem à apocalíptica queda da Grande Meretriz.

Certamente há algo a celebrar. O afastamento da presidente, espera-se, prenuncia a justa retribuição pelo criminoso desequilíbrio fiscal que se instalou em Brasília. Programas sociais caríssimos, mas de eficácia duvidosa; uma máquina estatal agigantada para acomodar todos os “donos do poder”, seus parentes e amigos; e espúrias alianças com empresas privadas para fraudar licitações e contratos administrativos, não só para o enriquecimento ilícito de seus mentores, mas também para possibilitar a perpetuação de um projeto político de inclinações totalitárias – tudo isso levou a um superendividamento dos cofres públicos que o governo federal tentou ocultar por meio das famosas “pedaladas fiscais”. Essa conduta irresponsável e ilegal causou danos a toda a população e, sem dúvidas, merece ser julgada e punida pela autoridade competente – no caso, o Senado da República.

Além disso, os primeiros atos do presidente em exercício, Michel Temer, sinalizam alguma brisa de liberdade sobre a nação. Podem-se comemorar o possível enxugamento de cargos públicos (com a redução dos ministérios), bem como as propostas de flexibilização das leis trabalhistas, de reforma do regime de contratação dos entes públicos, de simplificação da legislação tributária e de não intervenção do Banco Central sobre o câmbio. É improvável que Temer empreenda reformas mais profundas que reduzam significativamente o tamanho do estado, aproximando-o da norma bíblica de governo limitado à esfera da justiça pública. Mas, em terra de cego, quem tem um olho é rei; alguma liberdade é, sim, melhor do que nenhuma. E ouvir discursos inteligíveis e articulados em língua portuguesa é, por assim dizer, um “plus a mais”.

Todavia, permanece no novo governo Temer algo de preocupante: o fato de que os brasileiros ainda hão de dormir e acordar preocupados com o governo.

Você, sem dúvidas, sabe de que falamos. O governo civil estendeu seus tentáculos de tal forma que dificilmente conseguimos passar um dia sem sentir sua influência sufocante. Cidadãos honestos pagam seus tributos rigorosamente, e mesmo assim temem cair na “malha fina”. Empresários deixam de contratar empregados porque temem os custos da lei trabalhista. Pais deixam de corrigir e disciplinar seus filhos porque temem o Estatuto da Criança e do Adolescente. Outros resistem ao desejo de encarar o homeschooling porque temem o Conselho Tutelar. Professores são negligentes com a indisciplina dos alunos porque temem sofrer processos. E a dona de casa teme ir ao supermercado e não conseguir comprar, com o mesmo dinheiro, os mesmos produtos que adquiriu no mês anterior.

A Sagrada Escritura nos indica que um governo civil submisso à autoridade divina não traria esse tipo de temor ao homem de bem, mas apenas ao malfeitor: “Queres tu não temer a autoridade? Faze o bem e terás louvor dela, visto que a autoridade é ministro de Deus para teu bem. Entretanto, se fizeres o mal, teme; porque não é sem motivo que ela traz a espada; pois é ministro de Deus, vingador, para castigar o que pratica o mal” (Romanos 13.3-4). No Brasil, contudo, os homens de bem assistem aos noticiários porque temem as próximas invenções e trapalhadas do governo civil.

Michel Temer não inventou o estatismo. Ainda assim, entristece saber que as migalhas de liberdade se restringem a aspectos periféricos da esfera econômica e que muitos brasileiros, em vez de honrarem o chamado divino de se associarem para cultivar a vida social, continuarão passivamente esperando que o estado seja o socorro dos oprimidos, dos famintos, dos encarcerados, dos abatidos, dos cegos, dos órfãos, das viúvas, dos forasteiros…

O cristão reformado, porém, deve acompanhar o avanço do rito do impeachment com santa tranquilidade. Ele celebra quando o governo se aproxima, ainda que inadvertidamente, do princípio da soberania das esferas. E lamenta quando as inclinações totalitárias dominam a vida política. Contudo, nem Dilma nem Temer inspiram sua confiança última, tampouco o seu temor; todos eles, impichados ou não, voltarão ao pó e terão cessados os seus desígnios, os mais bondosos e os mais perversos.

O cristão sabe que, sem a vontade do Pai celeste, nenhum fio de cabelo será perdido – tampouco seu sustento, sua família, sua liberdade. Somente Deus – não a presidente afastada nem o seu vice – é nosso consolo na vida e na morte. Portanto, não há o que Temer.

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