O povo pode desobedecer ao governo?

Então, disse Saul: Deus me faça o que bem lhe aprouver; é certo que morrerás, Jônatas. Porém o povo disse a Saul: Morrerá Jônatas, que efetuou tamanha salvação em Israel? Tal não suceda. Tão certo como vive o Senhor, não lhe há de cair no chão um só cabelo da cabeça! Pois foi com Deus que fez isso, hoje. Assim, o povo salvou a Jônatas, para que não morresse. — 1 Samuel 14.44,45

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A Bíblia ensina claramente que não há autoridade que não proceda de Deus, e portanto todo homem deve estar sujeito às autoridades superiores. As autoridades que existem foram por ele instituídas. De modo que aquele que se opõe à autoridade resiste à ordenação de Deus; e os que resistem trarão sobre si mesmos condenação. (Romanos 13) Cabe a todos nós, portanto, pagar a todos o que lhes é devido:a quem tributo, tributo; a quem imposto, imposto; a quem respeito, respeito; a quem honra, honra. O quinto mandamento continua em vigor, nos instruindo que faz parte de uma vida de gratidão e obediência ao nosso Deus gracioso nos submeter com alegria aos nossos superiores.

Mesmo neste momento de crise, é bom lembramos da exortação do apóstolo: “Exorto que se use a prática de súplicas, orações, intercessões, ações de graças, em favor de todos os homens, em favor dos reis e de todos os que se acham investidos de autoridade, para que vivamos vida tranquila e mansa, com toda piedade e respeito.” Esta oração deve incluir a Presidente, todo o Congresso Nacional, todos os níveis do governo federal, estadual e municipal, todos os magistrados, a polícia, e o exército. Não é por nada que o apóstolo Paulo nos diz que devemos orar sem cessar. Temos muitos assuntos que precisam ser colocados diante do trono da graça. Estamos sendo fiéis nisto?

Alguns acham que, à luz daquilo que acabamos de falar, nunca é lícito o povo se levantar e dizer “Não!” às autoridades. Porém, a Bíblia não cobra de nós uma obediência cega. Há momentos quando a mais alta autoridade da nação toma uma decisão equivocada, uma decisão injusta, e o povo não somente pode, mas deve se levantar e dizer: “Não!” Temos um exemplo disto em 1 Samuel 14. O Rei Saul fez um voto impensado, que teria levado à morte do herói da nação, o seu filho Jônatas. Pela lei, o Rei Saul até tinha o direito de cumprir seu voto e matar seu filho. Jônatas, mesmo sendo injustiçado, se submete às consequências terríveis do juramento precipitado do seu pai. “Eis-me aqui; estou pronto para morrer.”

É nesse momento que o povo fala com uma só voz: “Tal não suceda!” O povo diz, “Basta! Isto não vai acontecer”. O povo se levanta contra o Rei. O povo repudia a injustiça e a arbitrariedade no exercício do poder do mais alto ofício da nação.

Esse princípio também vale para os nossos dias. Diante da injustiça, da corrupção, e da arbitrariedade no exercício do poder do mais alto ofício da nação, não somente é lícito, mas é até um dever da população se manifestar contra. “Tal não suceda!” Dou graças a Deus que às vezes este princípio se aplica em minha própria família. Sou a mais alta autoridade, a cabeça da minha família. Porém, não sou onisciente e não tenho infinita sabedoria. Acontece às vezes que tomo uma decisão equivocada. A reação geral dos filhos e da minha esposa me ajuda muito, pois quando há protesto geral nos olhares ou até nas palavras, já sei que seria sábio rever a minha posição e a minha decisão. Dou graças a Deus que minha família me respeita, me honra, e me obedece, mas tudo isto sabendo que tem acima de mim uma instância maior de autoridade: Cristo. Dou graças a Deus que minha família se sente segura em poder apelar à justiça de Deus para me obrigar a rever uma decisão equivocada ou não sábia.

Felizmente, isto não acontece frequentemente em nossa casa. Também não deveria acontecer com muita frequência em nível nacional. Porém, existem, sim, momentos apropriados para o povo se levantar e clamar por justiça, dizendo “Tal não suceda!”. Feliz o Rei que tem a humildade, diante de Deus e da nação, para atender à voz do povo nesse momento.

Kenneth Wieske é pastor das Igrejas Reformadas Canadenses (CanRC).

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