É lícito participar das manifestações políticas no domingo?

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R Loewenthal/Flickr.com

A resposta é: depende. Os princípios bíblicos são claros e imutáveis; como estes princípios se aplicam pode variar conforme a situação de cada um. Deixe-me compartilhar alguns princípios:

  1. O que não provém da fé é pecado. Quem tem dúvidas sobre a legitimidade de participar, não deve participar. Ponto. Romanos 14.23.
  2. O domingo é em primeiro lugar um dia reservado para adoração, em comunhão com os santos, debaixo da pública pregação da Palavra, com a administração dos sacramentos, a oração, e a oferta pelos pobres. Historicamente a Igreja tem entendido que só obras de necessidade e caridade são razões suficientes para deixar de participar na assembleia solene. As manifestações políticas não se enquadram em nenhuma dessas duas categorias. Portanto, Biblicamente é impossível justificar uma decisão de propositadamente se ausentar do culto solene para participar em uma manifestação. Será que existe atividade mais importante no universo do que entrar por trás do véu pelo novo e vivo caminho que Cristo abriu, para se encontrar com o Rei dos reis, o Senhor dos senhores, em obediência à santa convocação? Salmo 95, Atos 2.42-47, Hebreus 10.23-25, 1Coríntios 16.2.

Pelos princípios Bíblicos, não tem muita dúvida: participar nas manifestações não agrada a Deus se você (1) não tem certeza se é legítimo ou não, ou (2) se você negligenciar a santa convocação para fazê-lo.

Mas podemos participar nas manifestações, fora do horário do culto? Alguns têm argumentado que isto quebra o Dia do Senhor mesmo assim. Quero trazer as seguintes observações:

  1. Devemos tomar muito cuidado em impor conclusões éticas sobre outras pessoas. A Bíblia reprova isto. Não é para desprezar aqueles que, usando os princípios Bíblicos, chegam a uma conclusão diferente da minha. “Quem és tu que julgas o servo alheio? Para o seu próprio senhor está em pé ou cai” (Rm 14.4). Nestes casos, devemos cobrar muito de nós mesmos, e cobrar pouco dos outros. Sejamos muito rígidos com nós mesmos, e muito pacientes com os outros.
  2. O nosso pastor e nossos presbíteros são os nossos guias (Hb 13.7, 17). É importante buscá-los para recebermos instrução, aconselhamento e sabedoria. Porém, eles não têm poder temporal sobre nossas vidas. Eles só podem exigir de nós o que a Palavra claramente exige. Em questões de liberdade cristã, no fim das contas nem o nosso pastor nem os nossos presbíteros podem julgar a nossa consciência, nem impor sobre nós o dever de ter uma certa posição sobre uma certa questão ética sobre a qual há várias posições diferentes na Igreja de Cristo. Não somos uma seita: somos a Igreja de Cristo. (Rm 14, especialmente v. 4).
    Para deixar mais claro ainda: nenhum conselho, nenhum pastor, nenhum presbítero tem a autoridade de exigir ou proibir a participação dos santos nas manifestações de domingo.
  3. Não é edificante a briga na mídia social entre duas posições contrárias, cada uma querendo se impor sobre os cristãos como a posição correta e Bíblica sobre o assunto. Veja o ponto 3 acima.
  4. Aqueles que estão decididos a não participar merecem todo respeito. Minha primeira tendência é realmente a de abraçar esta posição. Desde a minha infância, tenho guardado o Dia do Senhor com muito zelo e alegria. Não viajo no Dia, não faço compras, não saio, não frequento restaurantes ou lugares públicos. Procuro passar o Dia frequentando os cultos, e passando tempo na comunhão dos santos, em conversas e leituras edificantes, descanso, e oração. Entendo perfeitamente quem não quer abrir mão da abençoada rotina normal do Dia do Senhor para participar na manifestação pública.
  5. Aqueles que estão decididos a não participar, e querem impor a sua decisão sobre os outros, como se eles fossem os únicos que são verdadeiramente reformados e confessionais, devem tomar cuidado e lembrar o princípio de Romanos 14.4 que já citamos. Também devem avaliar as suas próprias vidas, para ver se eles passarão pelo seu próprio critério. Quantos dos mais reformados e confessionais entre nós já participou de um concurso ou vestibular no Dia do Senhor, até perdendo o culto solene? Pois é. Vamos cobrar de nós mesmos, e não cobrar dos outros…
  6. Se Deus permitir, depois do culto da manhã, vou tentar levar minha família para participar na manifestação em Recife. Algo que me influencia muito é a reportagem que explica que o número de manifestantes pode ter consequências significativas para o nosso país. Se tiver poucos manifestantes, pode enfraquecer o processo de impeachment e a prisão de mais corruptos entre as mais altas autoridades do país.

Aqui as minhas razões pessoais para participar:

  1. Os discípulos colheram espigas e as comeram em um sábado, porque estavam com fome. Não tem necessidade do povo brasileiro se levantar e fazer algo sobre a grande fome de justiça em nosso país?
  2. Os sacerdotes trabalhavam no sábado no templo. Não é necessário nós, o Templo de Deus, sacerdócio real, chamados a proclamar as virtudes de Deus, nos levantar e juntar o nosso clamor ao clamor do povo brasileiro por mais justiça e verdade e honestidade da parte das autoridades que deveriam se comportar como ministros de Deus?
  3. Se um animal caísse numa cova, todo o trabalho e suor de tirá-lo não seria a quebra do Dia do Senhor. E o nosso país não está atolado numa cova, chegando ao fundo do poço? Não é necessário a Igreja também investir o tempo e energia para participar num ato que promove e fortalece o processo de tirar a nossa pátria do lamaçal da corrupção e do abismo do abuso de poder?
  4. Jesus curou doenças no Dia do Senhor. E a Igreja de Cristo não deveria participar num ato em favor da nossa República que está terrivelmente doente na alma?
  5. Cristo curou um cego no Dia do Senhor. E a Igreja de Cristo não deveria participar num ato que procura abrir os olhos daqueles que estão tão atolados em seus pecados, abuso de autoridade, e corrupção, que ficaram cegos às consequências das suas próprias ações? Eles não precisam tomar o susto de ver o Brasil em massa clamando por justiça? Isto não ajudará a abrir seus olhos?
  6. Cristo disse que um animal com sede deveria ser solto para beber, mesmo no sábado. E a Igreja não deveria apoiar com toda alegria uma manifestação de uma nação que tem uma profunda sede pela justiça, depois de anos e anos de injustiça? Que tem uma profunda sede pela honestidade e pela verdade, depois de anos e anos de corrupção e mentiras nos mais altos escalões de poder?
  7. A Bíblia nos ensina que devemos procurar a paz da cidade onde Deus tem nos colocado, e orar por ela ao Senhor, porque na sua paz nós teremos paz (Jr 29.6). A Igreja sempre tem entendido, Biblicamente, que a oração e a ação vêm juntos. Ora et labora! Não é altamente coerente, a Igreja orar por nossa República no culto solene, e agir conforme a oração depois do culto, se colocando ombro a ombro com os nossos vizinhos, colegas, e familiares, em uma manifestação que procura exatamente os efeitos pelos quais estamos pedindo a Deus em nossas orações? Devemos tomar cuidado aqui de uma espiritualidade pouco reformada, que sugere que apenas se dedicar à oração é tudo que é necessário. “E não sejais cúmplices nas obras infrutíferas das trevas; antes, porém, reprovai-as” (Ef 5.11). Se até os nossos vizinhos ímpios estão se levantando e entrando nas ruas para reprovar a injustiça e corrupção, como a Igreja poderia ficar em casa?
  8. João Calvino nos ensina que, quando se trata de manifestar contra a tirania e abuso das mais altas autoridades, é muito importante que os magistrados inferiores assumem seu papel e deem liderança ao povo. Várias autoridades em várias níveis têm convocado o povo a se manifestar em favor do Brasil amanhã. Estas autoridades que promovem a honestidade, integridade, e reprovam a injustiça, impunidade e corrupção, como ministros de Deus estão nos convocando.
  9. Alguns não vão se manifestar, pois acham que só o impeachment da presidente não resolve nada. E é verdade. Mas Roma não foi construída em um dia. Não é o momento de agirmos, para que o primeiro passo seja tomado? E se quem tomar o lugar dela, também for digno de cassação: vamos então às ruas de novo!

Repito

Respeito os amados irmãos que optam por ficar em casa, em oração. É uma decisão totalmente legítima, conforme Bíblia e confissões. Ao mesmo tempo, rogo aos meus irmãos que ainda não se decidiram: por favor, não deixe que toda a Igreja fique trancada em casa neste dia tão histórico do nosso país. Não deixe que aqueles que não conhecem Aquele que é a Verdade e a Justiça, sejam os únicos que estão clamando pela verdade a justiça, enquanto nossa ausência fique patente de uma forma gritante.

Em Cristo,

Kenneth Wieske é pastor das Igrejas Reformadas Canadenses (CanRC).

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9 pensamentos sobre “É lícito participar das manifestações políticas no domingo?

  1. Ele, se contradiz totalmente. Primeiro ele afirma que Só é permitido fazer obras de necessidade e misericórdia e diz que as manifestações não se encaixam nisso. E depois ele usa exatamente os textos que falam de obras de misericórdia e necessidade para defender que devemos participar das manifestações no dia do Senhor! A VERDADE É QUE NÃO HÁ MANIFESTAÇÃO MELHOR CONTRA A CORRUPÇÃO DO QUE ESTÁ NA CASA DO SENHOR, O SENHOR NUCA IRÁ ABENÇOAR ESSA NAÇÃO ENQUANTO NÃO APRENDEMOS A GUARDAR OS SEUS ESTATUTOS.

    • Não entendi dessa forma. Entendi que ir as mesmas é uma importante obra de misericórdia ! Inclusive de grande importância histórica pra nação

  2. Assino em baixo pastor em todos os seus argumentos, porém me sinto mal e muito envergonhada ao ver que esses protestos e muitas postagem no face tendem a desmoralizar as lideranças com piadas, musiquinhas, imagens até imorais. Entendo que não cabe aos cristãos esse tipo de postura. Até o pior pecador ou político corrupto que seja deve ser alvo de nossas orações para o arrependimento, até Davi em seus salmos precatórios deixava a decisão final para o grande e justo Juiz. Não obstante devemos sim denunciar toda obra má e corrupta. Ora et labutar!!!!

  3. Belo texto. Concordo com os seus argumentos em prol da participação do crente na manifestação. Creio que a participação dos brasileiros na manifestação seja comparável às lutas nas guerras, as quais ocorrem também no Dia do Senhor.

  4. Não, ele não se contradiz de maneira nenhuma. O autor trata no início do texto, com muita coerência, o ponto de que a participação nas manifestações não pode prejudicar a participação nos cultos solenes.

  5. Muito bom e elucidativo seu comentário, Pr. Kenneth.
    Pena que não o vi a tempo de poder reanalisar minha postura quanto às manifestações de ontem, 13. Contudo, creio que essas considerações serão muito úteis a diversas outras oportunidades que certamente virão.
    []’s

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