A Bíblia prega o pacifismo e desarmamento?

por Adriano Gama

pacifismNo segundo dia do ano, duas notícias no Portal G1 chamaram a atenção. Numa delas, “Carro passa atirando e mata 4 em bar em SP”. No meio da manhã, parecem ter descoberto que a culpa não era do carro: havia alguém dentro dele puxando o gatilho, e o título foi alterado para “Ataque a tiros em bar deixa 4 mortos em Guarulhos, na Grande SP”.

Em outra manchete, um fato que causou ainda mais perplexidade do que o ataque do carro que atirava sozinho: “Policial militar é preso após atirar e matar homem que invadiu sua casa”. Dessa vez, o título está correto, a narração dos fatos é que parece confusa. Mas, se tudo correu como se conta, o que aconteceu com o direito à legítima defesa no Brasil?

Estamos num país com quase 60.000 homicídios anuais, no qual a grande mídia e o governo são flagrantemente a favor de que se desarme o cidadão de bem, mesmo contra a opinião majoritária dos brasileiros.

Qual a opinião dos cristãos?

Muitos cristãos, especialmente evangélicos, têm endossado essa postura pacifista e anti-armas alegando bom-senso ou razões de fé. Quem não lembra de Magno Malta e Silas Malafaia demonizando a flexibilização do estatuto do desarmamento, às vésperas da votação na Câmara?

De modo geral, não é difícil encontrar crentes e pastores se opondo à liberdade de portar armas e maculando aqueles que desejam armar-se para defesa da vida, patrimônio ou mesmo para lazer.

Eles advogam que ter uma arma de fogo é contra a vontade de Deus, é idolatria, falta de fé, e algo que Deus proíbe, pois armas só serviriam para matar… E afirmam que tais argumentos estão em acordo com o que a Bíblia ensina.

Exemplo disso foi o post que me chegou de um desses pastores, que usava os textos de João 18.1-13, Salmo 127.1, Romanos 12.19 e Tiago 1.20 para provar o que dizia, escrevendo:

“Vejo pastores, teólogos e deputados pessoas renomadas que sobem aos púlpitos das igrejas para prega [sic] o amor e o perdão divino, mas nas rede [sic] sociais se declaram abertamente e como discípulos e até apóstolos de Jesus, porém na primeira oportunidade que tivessem sacaria [sic] uma arma e atiraria na orelha de Malco alegando legítima defesa. A Bíblia ensina o contrário a isso entenda. Fico com a Palavra de Deus a realizar os desejos do meu coração”.

Por trás de tantos erros de ortografia e concordância, estão os vários outros erros de interpretação que surgem quando se tenta fazer a Bíblia ensinar pacifismo e desarmamento:

  1. Ele não considera o que a Escritura fala sobre legítima defesa:

    “Se um ladrão for achado arrombando uma casa e, sendo ferido, morrer, quem o feriu não será culpado do sangue. Se, porém, já havia sol quando tal se deu, quem o feriu será culpado do sangue; neste caso, o ladrão fará restituição total” (Êxodo 22.2-3).

  1. Ele confunde legítima defesa com vingança:

    A vingança é pecado e pertence a Deus. A legítima defesa não é pecado, mas é um direito. Dependendo da situação, pode se tornar um dever. Pois, Deus ama a vida e odeia o sanguinário (Salmo 5.6).

  1. Ele provavelmente não estudou João 18.1-13 seriamente:

    O que Jesus reprovou foi ter uma espada, ou, a tentativa de Pedro usar a espada para impedir a prisão do Senhor? Essa prisão não devia ser impedida para que se cumprisse a Escritura para a nossa salvação. E o Senhor Jesus não precisava de um espada humana para ser livrado da morte, pois, ele tinha poder para se livrar e destruir toda a terra (Mt 26.53-54)! Não dá para ver no texto que a ordem de Jesus não foi “jogue a espada fora”, mas “guarde a espada” (Jo 18.11)? A reprovação de Jesus foi contra a tentativa de Pedro em cortar a orelha de Malco, para impedir a prisão do Filho de Deus.

  1. Ele desconsidera que Pedro usou uma das espadas que o Senhor Jesus ordenou que os discípulos comprassem (Lc 22.36-38):

    E o malfeito de Pedro não estava em ter uma espada, mas fazer mau uso dela. E na Providência, esse mau uso fazia parte do cumprimento da profecia para a condenação do Senhor em nosso favor (Lc 22.37,38). Se fosse contrário à vontade de Deus um crente ter uma arma para sua defesa, por que o Filho de Deus ordenou a aquisição de espadas e não mandou Pedro jogar fora a espada? Por que a Escritura concede o direito a legítima defesa e proibiria os meios eficazes para essa defesa?

  1. Ele não entende que armas de fogo não são feitas apenas para assassinar:

    Elas também servem para nos guardar de homens perversos. Não é isto que a experiência bíblica nos mostra? O que fez Mordecai e os judeus para resistir ao malvado estadista Hamã? Os crentes se organizaram em defesa armada para se proteger do genocídio (Ester 9.1-16). E a atitude não pacifista deles resultou em salvação. A ação não foi contra a vontade de Deus, mas, para a preservação da vida da igreja ali naquela parte do Império persa.

  1. Ele não entende que não se proteger é tentar ao Senhor:

    O Senhor Deus ordenou ter exércitos armados para a defesa do povo e não proibiu seus filhos de terem armas. O Senhor ordenou murar Jerusalém. O Senhor, no Salmo 127, condena o ter sentinelas ou, na verdade, o trabalho que deposita toda confiança no homem? Ter uma arma de fogo não é idolatria e nem falta de fé no poder do Senhor. Assim como não é idolatria, não é falta de fé usar o cinto de segurança quando dirigimos nosso carro, ou termos cadeados e grades em nossas casas. A nossa experiência de vida também comprova que armas de fogo são uma bênção. Os vigilantes nas lojas e bancos usam armas para quê? Para fazer mal ou para nos proteger dos maus? O artigo feito pelo pastor pacifista faz a Escritura entrar em contradição e não respeita o contexto da passagem de João. E é contra o bom senso de nossa experiência humana. Não tentarás o Senhor teu Deus.

  1. Ele não enxerga que a Bíblia não advoga o pacifismo:

    É bom tomarmos muito cuidado para não usarmos a Bíblia como pretexto para pacifismo. Pacifismo não é a pregação da paz. Davi era um homem pacífico, mas era um guerreiro usado por Deus. O pacifismo não tem respaldo na verdade de Deus. E é reprovável usar a Escritura para promover pacifismo e macular aqueles que defendem a liberdade de, quem quiser, crente ou descrente, ter e portar uma arma de fogo como instrumento de defesa (ou lazer).

  1. Ele não respeita a liberdade alheia:

    Se alguém não quer ter uma arma de fogo: assim o faça. Mas, se um crente ou descrente deseja ter: assim o faça. Nesse caso, aquele que não quer ter, não condene quem quer ter. Pois, condenar o ter ou o uso de arma de fogo por crentes é impor uma regra humana como sendo a Palavra de Deus.

Graças a Deus, sua Palavra é a Escritura Sagrada, e não as postagens de pastores pacifistas e desarmamentistas. A Escritura é a espada do Espírito, não uma arma a serviço do pacifismo e do desarmamento do cidadão de bem sob pretexto de piedade.

Adriano Gama é pastor da Igreja Reformada de Colombo, no Paraná.

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13 pensamentos sobre “A Bíblia prega o pacifismo e desarmamento?

  1. Amém! Como é bom saber que ainda existem pessoas que defendem o armamento civil e conseguem olhar a Bíblia com o incentivo de verdadeiramente interpretar e não de distorcer. Parabéns! 😁

  2. Excelente artigo Rev Adriano
    Sou pastor Presbiterianoe atirador esportivo (amador).
    Penso exatamente igual ao colega de ministério. Por enquanto uso a arma para lazer, mas se algum dia o Brasil permitir o porte de arma de fogo, provavelmente terei uma.
    Com a consciência tranquila e descansada na paz do Evangelho.

  3. Olá Rev. Lucas,

    Também desejo a queda do atual Estatuto do Desarmamento e que o PL 3722-12 se torne lei usufruirmos de mais e real liberdade, a fim termos e portarmos armas de fogo. Tenho orado e trabalho em favor desse PL.
    Fraternalmente em Cristo,

  4. Uma pergunta, é lícito o cristão pegar em armas para se defender diante de um governo tirano e declaradamente anti cristão? Por exemplo, quando os huguenotes foram perseguidos pela coroa francesa, biblicamente falando, eles podiam pegar em armas e se defenderem?

  5. Amém. Sou profissional de segurança e cristão, prezo proteção da vida antes da proteção do patrimônio do meu cliente. Uma arma nada mais é que uma ferramenta para mim.

  6. Concordo com o autor. Inclusive penso que já passou da hora de creditar a pastores desamarmentistas parte da culpa pelas 60.000 mortes anuais no Brasil. A carnificina brasileira, a título de comparação, é bem maior do que a acometida em países islâmicos, onde lideres religiosos são igualmente cegos e também atuam para implementar uma cultura de morte em suas regiões. Não nos esqueçamos que o radicalismo islâmico é cria de uma corrente interpretativa do Islam, originada e propagada por seus respectivos líderes. A julgar pelo número de mortes, criar ovelhas na fila do matadouro no Brasil tem se mostrado mais eficiente do que criar assassinos maometanos.

  7. Seus argumentos são interessantes Pastor. Todavia devemos convir que, culturalmente, o Brasil não é um país preparado e nem suficientemente civilizado para permitir que seus cidadãos tenham mais fácil acesso à armas de fogo. Creio que, dizer que as milhares de mortes em nosso país são em parte fruto da política de desarmamento é, no mínimo, ignorar os diversos fatores que influem no aumento da violência, como investimentos precários em educação e saúde e políticas mais eficientes de ressocialização dos infratores. De igual modo, usar trechos dos períodos vetero/neo-testamentários para legitimar o uso de armas não é cabível para nossa sociedade atual. São contextos e situações que tem abismos de diferença.

  8. Esqueceram do “quem com ferro fere, com ferro será ferido”. Esqueceram também, que Paulo por exemplo sofreu diversos atentados e não revidou a nenhum. Esqueceram que na história da Igreja primitiva, não encontramos um só relato que faça pensarmos que cristãos andavam armados e se defendiam quando atacados. Quem quer usar uma arma e quer se defender, que o faça. Mas não use a Bíblia para justificar isso como sendo Cristão e portanto respaldado pela Palavra.

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