12 resoluções políticas que mudaram o mundo

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“Não espere soluções prontas vindas do governo. Não cruze os braços.”

Você provavelmente conhece o contexto. A música é Amazing Grace, de John Newton. O protagonista é o político cristão William Wilberforce. Estamos na Inglaterra do século 18 e, depois de diversos anos de luta em diversas frentes, é decretado o fim da escravidão na Inglaterra e, anos depois, a Grã-Bretanha proíbe o tráfico de escravos em todo o globo.

Se você não conhece a história, pode lê-la no capítulo 23 do livro “Servos de Deus”, um maravilhoso apanhado de perfis de homens de fé escrito pelo pastor Franklin Ferreira e publicado em 2014 pela editora Fiel. Lá também ficamos sabendo qual a visão que motivou Wilberforce e em quais pessoas ele encontrou apoio para persistir em tão longa e tão dura batalha.

Além do famoso pregador John Wesley e do próprio John Newton, que convenceu Wilberforce a que não se tornasse ministro do evangelho, mas permanecesse na política — um conselho, aliás, que poucos cristãos estariam hoje dispostos a dar —, o jovem político encontrou estímulo no chamado Grupo de Clapham.

O grupo “reunia pastores, jornalistas, escritores, artistas, empresários, militantes de movimentos sociais e parlamentares” (p. 313) e se movia pelas seguintes resoluções políticas:

  1. “Estabeleça objetivos claros e específicos.
  2. Pesquise cuidadosamente para produzir uma proposta realista e irrefutável
  3. Construa uma comunidade comprometida que apoie uns aos outros. A batalha não pode ser vencida sozinha.
  4. Não aceite retiradas como uma derrota final.
  5. Comprometa-se a lutar de forma contínua, mesmo que a luta demore décadas.
  6. Mantenha o foco nas questões; não permita que os ataques malignos de oponentes o distraiam ou provoquem resposta similar.
  7. Demonstre empatia com a posição do oponente, de forma que diálogo significativo aconteça.
  8. Aceite ganhos parciais quando tudo o que é desejado não puder ser obtido de uma só vez.
  9. Cultive e apoie suas bases populares quando outros, que estiverem no poder, se opuserem a seus projetos.
  10. Transcenda a mentalidade simplista e direcione-se às questões maiores, principalmente as que envolvem questões éticas.
  11. Trabalhe através de canais legítimos, sem lançar mão de táticas sujas ou violentas.
  12. Prossiga com senso de missão e convicção de que Deus o guiará providencialmente se estiver verdadeiramente a seu serviço.” (p. 313-314).

Mas, afinal, o que tais resoluções podem nos ensinar? Pelo menos três coisas:

Firme-se em Deus

O Grupo de Clapham não era composto de pessoas de fé ingênua, utópicos, ignorantes ou que achavam que estavam se sujando por entrar na política. Eles não eram pietistas que faziam divórcio entre a fé que professavam e o mundo real à sua volta, mas criam “numa piedade prática que redundasse em serviço relevante para a sociedade” (p. 314).

Franklin Ferreira nos conta que eles eram crentes “com uma fé sólida, ortodoxos, dedicados à oração e ao estudo das Escrituras, integrados em suas igrejas, dedicados, como Mark Shaw escreve, à ‘luta pela liberdade pessoal e a melhoria de vida daqueles que sofrem, usando para isso as armas da persuasão, educação e legislação’” (p. 314).

Ao entrar na política, buscaram “estabelecer objetivos claros e específicos” e “produzir uma proposta realista e irrefutável”. Buscavam um “diálogo significativo”, direcionado “às questões maiores”, principalmente as “questões éticas”, e sempre usando dos canais legítimos: os fins, por mais nobres que fossem, como era o caso da causa abolicionista, não justificavam “táticas sujas ou violentas”.

Invista na livre associação

Não espere soluções prontas vindas do governo. Não cruze os braços. Se você realmente está interessado em ver mudança, se quer realmente ver as coisas acontecerem, “construa uma comunidade comprometida que apoie uns aos outros”.

Tais pessoas devem, voluntariamente, pôr seu dinheiro naquilo em que acreditam. Ou, como se diz em inglês: “put your money where your mouth is”. O Grupo de Clapham era “constituído de pessoas ricas cujas residências ficavam em Clapham, um elegante bairro localizado a oito quilômetros de Londres, que apoiava muitos líderes leigos na busca de uma reforma social, liderados por um humilde ministro anglicano, Henry Venn” (p. 312).

Mas antes que você diga que só os ricos têm trabalho a fazer aqui, pense na diferença que podem fazer pequenas e fiéis contribuições somadas. Perceba também que, além do dinheiro, todos contribuíam com seus talentos e algo do seu tempo. Além disso, estava expressa a visão estratégica de cultivar e apoiar “bases populares”, sem cuja adesão os projetos seriam facilmente derrotados.

Não retroceda

Em Hebreus 10.39 se diz que os cristãos não são “dos que retrocedem”. A frase diz respeito à caminhada de fé, mas bem pode servir de metáfora para nossa postura nas questões políticas. Os cristãos de Clapham entenderam que nada se faz sem persistência, e essa é a maior ênfase encontrada no conjunto de suas resoluções.

“Não aceitar retiradas como uma derrota final”, “lutar de forma contínua, mesmo que demore décadas”, “manter o foco”, “aceitar ganhos parciais”, e a última das resoluções: prosseguir “com senso de missão e convicção de que Deus o guiará providencialmente se estiver verdadeiramente a seu serviço.” Ou como diz um de nossos hinos: “deixai-vos de chorar. Se onipotente é vosso mestre, por que desanimar?”

No quadro atual de colapso político e econômico para o qual o Brasil caminha, após um 2015 em que nada parecer ter se resolvido, temos muito o que aprender com aqueles que ajudaram a derrotar um sistema que foi um dos maiores flagelos da humanidade.

É notável que enquanto se engajavam na luta abolicionista, esses cristãos ajudaram, dentre outras iniciativas, “a fundar a colônia de Serra Leoa, onde escravos libertos poderiam viver livres, a reformar as condições das prisões, a combater a exploração do trabalho infantil, e a fundar a Sociedade para o Alívio dos Trabalhadores Pobres” (p. 312).

A um Brasil de quase 20% de população evangélica, e que pouco resultado positivo tem colhido de tantas “conversões” — para não mencionar as atuações vergonhosas de políticos “evangélicos” — quanto não pode ensinar este pequeno grupo de cristãos que, confiado na graça de Deus, e guiado pelos princípios corretos, usou a política para ajudar a transformar a face da Inglaterra e do mundo?

Márcio Santana Sobrinho é jornalista.

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