“Fatos, não palavras”

Kuva 031

“O ditado ‘fatos, não palavras’ é irracional; e é imoral, tóxico e contaminante, além de potencialmente destrutivo para uma civilização”

Esse ditado resume a filosofia mais idiota, perversa e daninha que se possa imaginar. Porém, é amplamente popular, porque o ódio à palavra, à inteligência, à ciência, e ao estudo, que é o meio de se alcançar sabedoria, é precisamente a filosofia que a imensa maioria das pessoas hoje abraça.

É o que diriam os animais, se pudessem expressar-se com palavras. Muitas pessoas se comportam como animais, em uma época que idolatra os animais, e pretende atribui-lhes “direitos”, e tratá-los como “pessoas não humanas” (?). “Fatos, não palavras! Quero minha comida agora!”, nos diria o gato, se falasse. “Fatos, não palavras! Leve-me à rua para fazer xixi e cocô”, nos diria o cachorro, se pudesse. Eles não foram dotados com esse dom, ligado ao pensamento racional, e à comunicação racional entre pessoas mediante a expressão, verbal ou escrita.

Parece que esta frase, em latim “Res et non verba”, se originou em Roma, quando os toscos e iletrados campesinos e soldadinhos romanos fizeram contato com os gregos, dados ao cultivo da filosofia, ao diálogo e ao debate. Os romanos, ao contrário, dados às superstições, advinhações, astrologia e ao pensamento mágico, consideravam essa ignorância rebelde e contumaz, que se subleva contra a erudição, como um “senso prático”. Porém, “nada mais prático do que uma boa teoria”, escreveu José Ortega y Gasset.

Não deveria surpreender a queda do império romano, após um período de decadência e ruína, lideradas pela rejeição ao pensamento lógico e à palavra bem construída, disfarçada de “pragmatismo”. Nem deveria surpreender que esse mesmo “pragmatismo” encabece hoje a ruína, decadência e queda da civilização que em dias melhores chamamos de “ocidental e cristã”. As palavras não são “reais” nesta absurda filosofia, subscrita por Karl Marx (nem poderia ser de outra maneira!): “Um passo de movimento real vale mais que uma dezena de programas”, estampou ele em sua “Crítica ao Programa de Gotha”, de 1875.

“Ações falam melhor que as palavras”, dizem para justificar a verbofobia, ou aversão ao discurso, que expressa a logofobia, aversão às ideias e ao pensamento racional, “misologia” como diria Platão. Alega-se que muitas pessoas são inconsistentes: dizem uma coisa e fazem outra. Porém a falta de integridade, censurável e muito comum nestes dias, não serve como justificativa. Tampouco a incapacidade de alinhavar um discurso medianamente coerente e compreensível, falado ou escrito, que tanto se observa hoje, e que é resultado do enorme fracasso da educação comandada pelo Estado, quase a única que agora existe.

É claro que se ouvem palavras hipócritas, e discursos bobos, e insensatos às toneladas, diariamente, e outros muito prejudiciais e imorais; porém, isso não é uma autorização para que se despreze ou odeie as palavras.

Sem as palavras, os fatos carecem de significado e sentido. As palavras servem a nós, seres humanos, para descrever os fatos, catalogá-los, explicá-los racionalmente, e até antecipá-los, dado que os mesmos efeitos seguem as mesmas causas. De tal modo é possível prevenir os fatos lamentáveis, e evitar que aconteçam, ou impedir que se repitam. O mesmo acontece com uma categoria particular de fatos: as condutas, que com as palavras se pode julgar, e pesar conforme critérios distintos, como o da idoneidade, que nos diz se uma conduta é apropriada para se atingir certos fins, ou o da moralidade, que nos diz se essa conduta é boa ou má com respeito a um padrão ético.

“Palavras são puras abstrações”, nos diz esta mentalidade animal, que odeia as abstrações. Claro que as palavras expressam conceitos, que são abstrações mentais. Assim é como podemos pensar, ligar corretamente os conceitos às palavras, comunicar-nos, e criticar as ideias para descartar as más, ou as que têm demonstrado consequências más.

Os novos bárbaros, inimigos do diálogo e do debate, nos repetem que “uma imagem vale mais do que mil palavras”, e assim exigem que voltemos à idade pré-literária da humanidade rústica: a sociedade ágrafa e quase selvagem, aquela que pintava cenas de caça nas paredes das cavernas. Ironicamente, estes advogados do retorno ao primitivismo, chamam a si mesmos de “progressistas”, e nos chamam de “conservadores reacionários”, e nos denunciam como “inimigos do progresso”.

O ditado “fatos, não palavras” é irracional; e é imoral, tóxico e contaminante, além de potencialmente destrutivo para uma civilização. E é 100% antibíblico. “No princípio era o verbo” (João 1.1).

Com este pérfido lema “fatos, não palavras!”, proíbem os políticos liberais de falar para dizer a verdade, e assim combater a mentira. As palavras são ferramentas da aprendizagem, e essa frasezinha expressa também a resistência a aprender, que é parte inerente da resistência à mudança. Em uma nação, é algo simplesmente suicida. Na Argentina, meu país natal, isto começou com Perón, nos anos 1940. Ele se expressou nestes termos: “Melhor do que dizer, é fazer, e melhor do que prometer é realizar”. Agora eles dão suco de caixinha e sanduíche de mortadela ao populacho para comprar seu voto, porque “melhor que dizer é fazer”.

Veem agora, amigos, quanto, como e por que retrocedemos tanto?

Tradução: Márcio Santana Sobrinho

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