O Rei dos Patos e o Rei dos Reis

por Lucas G. Freire

“Os Reis dos Patos” é um reality show do canal americano A&E na TV a cabo que retrata a vida duma família rural bem-sucedida no negócio de venda de equipamentos de caça. A família confessa a fé cristã e tem presença ativa na igreja evangélica local. Phil Robertson, apresentado no programa como o “patriarca” dessa grande família, e líder do empreendimento, tem sido duramente criticado por ter expressado na TV a sua crença de que o homossexualismo é pecado. O canal repudia sua atitude e suspendeu o Sr. Robertson do programa.

Não é a primeira vez que o canal A&E entra em confronto com o Sr. Robertson por manifestar em público a fé que confessa. O canal tem por algum tempo editado as cenas de oração da família para cortar a expressão “em nome de Jesus” ao final da oração. Além disso, talvez para atrair mais audiência, o canal tem editado alguns diálogos inserindo o “beep” que, na TV, indica que um palavrão foi falado. A questão é polêmica para o Sr. Robertson, porque dá a impressão de que eles de fato falam palavrão, o que, além de ser calúnia, é uma prática desaprovada pela família.

O rei dos patos, assim, escolheu honrar Jesus Cristo, o Rei dos reis, como sua prioridade máxima, custe o que custar. E a decisão pode custar a existência do programa de TV. O canal A&E já declarou que repudia as ideias expressadas pelo Sr. Robertson. É de se esperar que todos aqueles interessados em avançar a agenda politicamente correta apoiem a decisão do canal e, além disso, exijam alguma forma de punição para o Sr. Robertson. Se fosse no Brasil, talvez até mesmo prenderiam o rei dos patos. Do outro lado, existe também uma pressão dos evangélicos e outros religiosos para usar o poder do governo, coagindo o canal a permitir o “direito à expressão”.

Mas será possível concordar com o Sr. Robertson e, ao mesmo tempo, recusar-lhe a possibilidade de usar o canal A&E para expressar sua crença? Será possível honrar o Rei dos reis e desapontar o rei dos patos? Prepare-se para a surpresa.

Quando Jesus Cristo é confessado como Rei dos reis, isso significa que não há qualquer pessoa ou instituição que tenha o direito de lhe usurpar a autoridade soberana e absoluta sobre todas as coisas. Para o cristão, uma implicação óbvia é que toda autoridade aqui na terra é relativa e limitada, incluindo a autoridade do governo para defender a “moral e os bons costumes”.

Isso quer dizer que a agenda cristã para a política não é a de “sequestrar” o governo e impor de cima para baixo um código moralista. Sobre o papel do governo, o cristianismo confessa que ele se limita à sua função de prover a justiça pública. Dentro desses limites, o governo deve combater o mal e permitir que o bem seja promovido. Fora desses limites, o governo deve ser extremamente cuidadoso para não usurpar a autoridade que o Rei dos reis deu a outra pessoa ou instituição.

Assim, o governo não tem a autoridade de pai e mãe, ou do professor na escola. O governo não tem a autoridade médica para dizer o que devemos comer e beber, ou a autoridade intelectual da comunidade científica para decidir se uma ideia é boa ou ruim. O governo – mesmo que seja para divulgar ideias “cristãs” – não tem a autoridade de ditar às empresas quem elas devem contratar ou despedir. E isso se aplica especificamente ao caso do canal A&E, se decidir despedir ou vetar o programa do Sr. Robertson.

A menos que haja uma quebra de contrato no caso, é difícil ver como uma intervenção governamental ditando ao canal A&E o que deve fazer não incorre em usurpação de autoridade. Jesus, o Rei dos reis que o cristão deseja honrar, não pede que o governo tome conta das empresas e lhes diga o que fazer com sua propriedade e recursos. Da mesma forma, ele não permite que o governo se intrometa nos assuntos da igreja, ditando como ela deve ministrar os sacramentos ou regular a sua doutrina. Mas é exatamente isso que alguns cristãos parecem implicar, mesmo sem querer. Eles parecem implicar que o governo tem a autoridade absoluta e soberana sobre tudo o que acontece no país, e que se o governo estiver usando essa autoridade para promover uma agenda “cristã”, então ele deve seguir adiante.

Isso é um erro lamentável. O Rei dos reis jamais delegou sua autoridade de forma completa e integral. O que ele fez foi delegar fragmentos diferenciados dessa autoridade aos príncipes, pais, professores e assim por diante.

Podemos até questionar os motivos e as consequências pessoais da ação do canal A&E contra o Sr. Robertson, mas a decisão de contratar e demitir, de modificar a programação e de voltar atrás é ainda prerrogativa do canal. Honrar o Rei dos reis não somente é compatível com a afirmação dos direitos de propriedade do canal A&E: honrar o Rei dos reis, neste caso, de fato exige uma opinião aparentemente contra-intuitiva.

Não é que o rei dos patos não tenha o direito de se expressar: ele pode fazê-lo livremente, e esse direito deve também ser afirmado. Porém, assim como o rei dos patos tem direito a escoltar um invasor de terras para fora da sua fazenda, o canal A&E pode, moralmente (senão por lei), cancelar o programa ou avisar que não deseja mais os serviços do Sr. Robertson. Um canal privado de TV não é a esfera pública, nem é a esfera do lar do Sr. Robertson. Um canal privado de TV, como toda empresa, tem uma missão, e se a gerência concluir que o rei dos patos não serve bem essa missão, tem todo o direito de tomar a decisão gerencial que for necessária.

Se é errado ao cristão tentar usar o governo para subverter o direito do canal A&E à propriedade privada, isso quer dizer que a história termina aqui? Claro que não: o fato de muitos pensarem que a única ação possível é o uso da coerção estatal depõe bastante contra a presença cristã na política. O que é possível fazer sem desonrar o Rei dos reis, e em defesa do rei dos patos?

Primeiramente, embora seja difícil e provavelmente desnecessário, os cristãos podem comprar o canal A&E para efetivar as mudanças que bem entenderem. Outra possível ação é boicotar o canal e seus patrocinadores. Como toda empresa privada, o canal A&E depende de um cálculo econômico positivo para continuar operando. Se sua continuidade deixar de ser viável, ele terá que se reestruturar ou até mesmo declarar falência. Para um boicote eficiente, é preciso que haja publicidade e que os motivos do boicote sejam claramente tratados. Outra possibilidade é pagar pelos direitos do programa e transferi-lo para um canal concorrente, que transfira a audiência do A&E e seus patrocinadores.

No que diz respeito ao próprio rei dos patos e sua família, talvez seja a hora de mostrar o apoio pessoal, lendo a declaração oficial da família a respeito da suspensão do programa e, quem sabe, enviando uma mensagem de encorajamento. Alguns podem até mesmo prestar (ou pagar por) serviços de assistência jurídica – lembrando, neste caso, que a família já é dona dum patrimônio de centenas de milhões de dólares.

No final das contas, o rei dos patos não precisa do canal A&E para sobreviver ou até mesmo fomentar seus negócios. Porém, ele decidiu usar sua fama de celebridade para dar testemunho da sua fé. Ele sabia das possíveis consequências e isso não o impediu. Outras pessoas em situação semelhante poderão sofrer alguma perseguição no futuro. Outros cristãos mais frágeis e vulneráveis, que decidiram declarar sua fé e enfrentaram alguma retaliação precisam muito mais desse tipo de ajuda. A nossa reação, como cristãos, não deve ser de “sequestrar” o governo para impor um suposto direito a “ser ouvido”, e sim a de oferecer esse outro tipo de ajuda. E oração.

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