Guerra à Síria?

por Lucas G. Freire

Em Junho de 2012, ainda no início de toda a agitação popular na Síria, uma análise da situação foi publicada aqui. Baseada na ética cristã e na tradição reformada de governo limitado, a análise defendia alguns pontos bons de relembrar.

Primeiro, a agitação popular demandava mais abertura política por parte do governo do presidente Assad, porém tinha sido descoberto que essa oposição estava, além de fazer barulho, efetivamente usando da violência chegando a ponto de cometer homicídios diversos. Hoje, sabe-se que a organização terrorista Al-Qaeda tem grande influência sobre essa oposição.

Em segundo lugar, a comunidade internacional (que, em geral, escuta a palavra “abertura política” e pensa logo em promover a democracia custe o que custar) não tinha um consenso sobre a situação e era bem provável que, se alguém tentasse pedir uma intervenção internacional via ONU, uma ou mais das grandes potências vetariam a resolução.

Em terceiro lugar, nos EUA havia uma grande inclinação a intervir. O intervencionismo é uma política do governo americano que falha em reconhecer os limites à autoridade e jurisdição do governo dos EUA. Esta motivação, mais tarde, tomou duas formas. Primeiro, o governo dos EUA decidiu enviar armas aos rebeldes na Síria, aumentando ainda mais a confusão. Segundo, agora, o governo dos EUA tem considerado uma guerra à Síria.

A maioria dos que apoiam essa intervenção falam em três problemas que são urgentes. Um problema é a segurança nacional americana, que alegadamente é ameaçada pelo embate entre o governo sírio e os rebeldes na Síria. Um segundo problema é o fato de que parece que o governo sírio tem empregado armas de destruição em massa contra a rebelião. Um terceiro problema é o fato de que, em linhas gerais, Israel parece ser favorável à fragmentação e neutralização da Síria, como o foi no caso de outros países rivais que foram enfraquecidos por intervenções estrangeiras.

Destes três problemas, o segundo é mais fácil de entender. Existem leis do direito internacional proibindo armas de destruição em massa. Mas não existe garantia absoluta de que o governo sírio tem usado essas armas. Aliás, existe algum rumor de que elas têm sido usadas pela oposição. O terceiro problema tem a ver com enfraquecer os rivais de Israel, e não é claro como isso deveria afetar o cálculo dos políticos americanos. O primeiro problema tem a ver com a Síria e a segurança nacional da Síria, e não com a segurança nacional dos EUA. A não ser que os EUA considerem o mundo inteiro seu território.

Considerando isso tudo, convém novamente defender os princípios da prudência política contra os princípios do progressismo revolucionista que a direita e a esquerda nos EUA têm defendido para justificar a política externa imperialista do país.

Ao invés de aceitar o princípio bíblico do governo limitado, essa mentalidade intervencionista defende o princípio antibíblico, idólatra, do governo absoluto desta nação sobre todas as demais, pressupondo que por algum motivo ela é mais “especial” e tem mais prerrogativas que as outras. É uma forma de usurpar a soberania absoluta de Deus.

Outra grave heresia promovida pelo imperialismo dessa política externa é a noção de que essa grande potência é onisciente, onipotente e tem condições de ser onipresente. A verdade é que ela não pode tudo, nem tem condições de ocupar o mundo inteiro. A história dos grandes impérios tem demonstrado o colapso econômico, militar e civil que ocorre quando os impérios se expandem demais.

Sobre a pretensa onisciência, é fácil ver a ignorância prática dessa política externa afobada e imprudente. Por exemplo, basta reparar no fato de os EUA terem armado a oposição achando que ela defende valores mais próximos dos que os EUA defendem. A verdade é que, caso o governo Assad caia e a oposição tome conta da Síria, é bem provável que as tais armas de destruição em massa fiquem sob o controle de grupos conectados à Al-Qaeda. E que a igreja cristã, que tinha alguma liberdade sob o governo de Assad, desapareça do mapa ali.

Algumas pessoas no Brasil que defendem os princípios cristãos da liberdade civil, política e econômica acham o intervencionismo americano justificável. Afinal, os EUA são famosos por defenderem esses valores na sua história, certo? Na verdade, não. Assim, é importante dizer que, embora os princípios sejam corretos, a percepção de que os EUA defendem esses valores na sua política externa é equivocada.

O caso do intervencionismo é claro: imperialismo expansionista diminui a liberdade nos EUA e fora dos EUA. Fora, porque quer controlar o país dos outros. Dentro, porque é preciso um aumento do gigantismo do estado para mobilizar esse tipo de política externa.

Por exemplo, ao invés de declarar guerra mediante voto do Congresso, como a Constituição dos EUA exige, o país tem se engajado em guerras não declaradas, uma após a outra. Isso, além de ser ilegítimo, é também imprudente. Essas guerras sem fim têm ameaçado a própria segurança nacional dos EUA ao atrair ainda mais oposição.

Isso nos convida a mudar nossa visão. Ela não deve ser pró-americana ou antiamericana. E, no Brasil do pensamento “importado,” isso significa que não deve repetir o que a direita ou a esquerda falam. Por vezes, nosso governo se opõe aos EUA por ranço esquerdista e antiamericano. Porém, isso significa que, às vezes, o nosso governo pode muito bem estar “por acidente” mais do lado da justiça pública e da paz mesmo sem querer explicitamente defender a causa da liberdade.

Uma política cristã e reformada deve reconhecer que isso não é “acidente” propriamente dito, e sim a ação benigna da divina providência. Contudo, uma política cristã e reformada deve também procurar articular os princípios da prudência e da sabedoria bíblica para se informar melhor. Alguns cristãos nos EUA que apoiam a política externa intervencionista daquele país muitas vezes tendem a colocar o “patriotismo” acima desses princípios. Isso não é correto nem deve ser imitado.

Enquanto o mundo inteiro tenta debater o que acha melhor para a Síria e outras nações, oremos. Orar é reconhecer o controle de Deus sobre todas as coisas e, ao mesmo tempo, reconhecer nossa humilde falta de capacidade. Orar é interceder: existe um grande número de cristãos sob opressão na Síria, e que serão ainda mais oprimidos depois, caso haja uma guerra. Orar é reconhecer que a soberania absoluta pertence a Deus, e não aos EUA e nem mesmo à comunidade internacional.

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