“Do trabalho de tuas mãos comerás”

por Kenneth Wieske

100 mil manifestantes nas ruas do Rio e a Câmara Estadual tomada pelo populacho que apedrejou e chutou a polícia, destruiu veículos e ateou fogo ao prédio. 65 mil manifestantes nas ruas de São Paulo. Dez mil tentaram invadir o Congresso Nacional, e alguns chegaram ao telhado. Milhares de manifestantes têm tomado as ruas de outras capitais e cidades grandes do Brasil.

Por quê? Tudo começou com os vinte centavos da tarifa de ônibus em São Paulo. Agora o povo quer transporte grátis para todos os estudantes (imagine só, numa cidade de vinte milhões de pessoas! Quem vai pagar o preço?) e os protestos estão se transformando numa crítica generalizada à corrupção e ineficiência do governo.

Qual é a solução? A maioria dos manifestantes pensa que a resposta é mais estatismo. Eles querem que o governo seja o provedor de serviços gratuitos e de alta qualidade. Porém, de onde sairá tanto dinheiro para pagar pelos serviços? Eles nem querem saber da origem: tudo o que sabem é que têm direito à carona, ao ‘almoço grátis’.

Ontem eu terminei de ler A Revolta de Atlas, escrito décadas atrás por Ayn Rand. Embora a autora esteja bastante equivocada em suas opiniões sobre a fé e a religião, ela é bem perspicaz ao identificar o espírito que move o socialismo, o comunismo e o estatismo: “Bem-aventurado é aquele que come do fruto do trabalho dos outros”. Nem preciso dizer que esse não é um espírito bíblico: é um repúdio total daquilo que Deus nos ensina no Salmo 128:2. O Salmista exclama que um dos sinais de viver uma vida bem-aventurada é o seguinte: “Do trabalho de tuas mãos comerás, feliz serás, e tudo te irá bem.” Contudo, o movimento revolucionário do inverno brasileiro continua desprezando o trabalho honesto, exigindo que o Estado cuide deles do nascimento até a velhice. Não poderão ser felizes, e nada lhes irá bem!

É interessante ver como na prática aqueles manifestantes que abusam do direito a opinar e protestar têm reforçado o problema e criticado a solução. Destroem propriedade privada e criticam o capitalismo. Querem atacar bancos, lojas e outros símbolos desse ‘horrível’ sistema que lhes proporciona papelão para as placas, canetas para escrever, sapatos e roupas, iPhones, conexão digital, Twitter, Facebook e todas as outras ferramentas que aplicam em rebeldia. Se o capitalismo gera isso tudo, pode muito bem proporcionar o transporte coletivo acessível e eficiente, usando responsavelmente o trabalho das nossas mãos.

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11 pensamentos sobre ““Do trabalho de tuas mãos comerás”

  1. Se vcs querem ser levados a sério não façam afirmações simplistas baseadas em análises generalistas e equivocadas do movimento. tô falando isso pq eu sou kuyperiano. beijos

  2. perigoso generalizar de forma que pareça que todos querem o mesmo… citasse um percentual pequeno, pois a maioria não quer nada de graça e nem está cometendo vandalismo… o que fazer em relação a um governo que está justamente dando de graça para uma fatia da população, através dos “bolsas isso e bolsas aquilo”, o que deveria ser ganho através do trabalho??? cruzar os braços??? como manifestar-se em uma democracia, se não saindo às ruas??? o que a maioria dos manifestantes quer é responsabilidade e honestidade… os bandidos querem saquear… os vândalos querem destruir… os políticos querem superfaturar obras… cada um quer algo dentro do seu ‘reduto’, mas definitivamente, não são todos iguais… podem até coabitar no mesmo lugar, na mesma avenida, pois até em nossas igrejas o joio e o trigo estão no mesmo espaço, mas não querem a mesma coisa!!

    • Roberto, denunciar as “bolsas” que o governo dá é legítimo, se feito de forma correta (e, se for coerente, inclui denunciar o transporte, hospital, escola, etc públicos!), mas o Salmo 1 deixa claro que, na hora da baderna, é bom não estar no meio.

  3. Chamar de “afirmações simplistas” os argumentos bíblicos claramente demonstrados e ainda por cima dizer que é kuyperiano, parece meio contraditório. Isso me lembra um “cristão” marxista!

  4. Boa Tarde, acompanho e gosto muito das publicações de vcs, mas vejo este artigo uma forma superficial da realidade do movimento, o povo não esta pedindo passagem gratuita nem algum tipo de esmola ao Estado, o povo esta cansado de impunidades,falta de investimento na saúde e outras séries de fatores que fazem até cristãos sentirem a sensação de quando recebem seus salários, recebem em sacos furados, não sobram pra nada; É verdade que existem oportunistas,vândalos que aproveitam da situação. Mas não podemos generalizar a intenção de todos.

    • Wellinton, obrigado pelo comentário e por nos acompanhar. Salvo engano o texto fala da passagem de ônibus como o estopim desse episódio mas depois fala de serviços em geral. Protestar para o governo transferir renda via “investimento” nisso ou naquilo (ônibus ou outros serviços) subentende que o governo de fato deva transferir renda, o que não é uma posição bíblica. É muito mais difícil achar um protesto que mande o governo desregular os setores (educação, saúde, etc) para deixar novas iniciativas da comunidade emergirem sem o custo exorbitante que as regulações impõem. A maioria das pessoas de fato pressupõe que, só porque o governo promete na Constituição, então o arranjo está moralmente justificado.

  5. Me ocorreu uma hipotese agora: suponhamos que numa cidade do interior em que nao haja uma empresa de transporte, ou escola e hospital privado, e nao haja quem queira investir nesses setores, diante da ausencia de capital no interior do pais. O Estado nao poderia prestar este tipo de servico publico?

    • Oi Davi, a resposta passa pela questão moral, pela questão prática e pela questão econômica. Em termos práticos, se for aceito que o governo deva usar seu poder de coerção via impostos para dar isso ou aquilo à população, então que seja mantido no nível mais local possível. Em termos econômicos, é ineficiente. Se houvesse demanda, já haveria um provedor do serviço. Em termos morais, é preciso tomar cuidado sempre que se decide usar o poder de coerção do governo para qualquer outra coisa que não seja punir a agressão. Ao longo da história, sempre houve hospitais, estradas, escolas etc para os pobres, providos fora do governo (e muitas vezes fora do setor empresarial também). Até poucas décadas atrás havia um grande setor filantrópico na sociedade brasileira – que foi apagado do mapa justamente pelo crescimento do Estado. Para ler mais: “Sociedade Diversificada“.

      • Já existe, Davi: em Ivaiporã/PR, município com aproximadamente 30 mil habitantes, o transporte coletivo é totalmente municipalizado:

        http://ricmais.com.br/pr/ric-noticias/videos/transporte-coletivo-gratuito-em-ivaipora/

        De modo geral, a população local aprova, mas há uma limitação ao horário de funcionamento do serviço, uma vez que ele fica inativo durante a noite e nos finais de semana.

        Agora com relação ao texto, concordo que esta mentalidade estatizante, disseminada nas escolas públicas e nas academias de ciências humanas, especialmente pelos discípulos de Antônio Gramsci, conhecidos como “intelectuais orgânicos”, que não passam de sujeitos que vendem conteúdo de agenda política promotora das utopias falidas do século XIX [especialmente o marxismo] com o rótulo de verdade científica, acaba mesmo produzindo uma dependência parasitária da população em relação ao Estado, deixando-a numa zona de conforto, onde o trabalho passa a ser visto como uma perda de tempo.

        Só que nunca é demais lembrarmos que o capitalismo também não é nenhuma flor que se cheire, e que ele também não deixa de negar o Salmo 128 uma vez que ele é regido por atores sociais que comem o pão, a broa, o brioche e o caviar oriundos do suor de rosto alheio, pois nele há justamente aquilo que o sr. Lucas G. Freire denunciou no texto “Sociedade Diversificada”, a saber: uma grande concentração de poder – no caso, econômico – nas mãos de poucos. Basta ver as grandes concentrações de terras e das concessões dos meios de comunicação no Brasil; e da exploração quase que escravocrata que grandes corporações transnacionais fazem em países miseráveis, especialmente os da indústria do vestuário no Sudeste da Ásia e da extração mineral na África.

        Ou seja, em ambas as perspectivas há grandes contradições oriundas da natureza pós-queda do ser humano – pois antes de sermos socialistas ou capitalistas, somos todos pecadores – e eu prefiro não construir um olhar utópico sobre nenhuma delas. No mais parabéns pelas publicações, que são muito boas. Um abraço…

  6. Isso passa por aquela questao que ja havia te perguntado sobre a compatibilidade do estado Dooyeweerdiano com wellfare state. Eu discordo do Estado moderno que confere direitos sociais, pq quando se pode exigir do Estado um “direito” e este tem o dever de prestar o servico, nao existe espaco para gratidao, sendo esse um problema da modernidade. Agora me lembro quando morava numa cidade de 20 mil habitantes e pessoas necessitavam ir para um distrito desta cidade, q ficava 20 km de distancia, e nao havia qualquer empresa de onibus na cidade, ate pq necessitaria de um capital razoavel q alguns nao possuiam ou nao queriam empreender neste ramo. Nesse caso so a prefeitura fornecia o servico, e cobrava por isso. Numa perspectiva reformacional esta prestacao de servico esta correta? Quando vc disse em termos praticos se for admitido q o Estado dar isso ou aquilo, pode existir essa via numa perspectiva reformada de Estado? Considerei relevante sua observacao de nao necessitar efetivamente da atuacao do meio empresarial, pq nao podemos trocar um idolo por outro, colocar o mercado no lugar do Estado, ai 6 por meia duzia. Como diria Chesterton quando vc deixa de acreditar em Deus, vc acaba acreditando em qualquer bobagem.

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