José do Egito, Socialista

por Lucas G. Freire

Muita gente conhece a história bíblica de José, um dos filhos de Jacó que foi, por causa da inveja dos irmãos, vendido como estravo ao Egito. Pouca gente olha para o lado político da história. José foi abençoado por Deus e acabou ajudando Faraó a combater uma crise econômica, guardando cereal durante a época de prosperidade para usar na época de “vacas magras”. José, aliás, foi nomeado governador da terra – uma espécie de “planejador central” da economia. Com isso, ele expandiu imensamente o poder de Faraó às custas do povo egípcio e dos estrangeiros que vinham em busca de alimento durante a crise. De escravo, José passou a ser o escravizador do Egito.

O relato bíblico detalha que José de fato exerceu uma política de “estatização” de quase toda propriedade privada na terra.

E não havia pão em toda a terra, porque a fome era muito grave; de modo que a terra do Egito e a terra de Canaã desfaleciam por causa da fome. Então José recolheu todo o dinheiro que se achou na terra do Egito, e na terra de Canaã, pelo trigo que compravam; e José trouxe o dinheiro à casa de Faraó. Acabando-se, pois, o dinheiro da terra do Egito, e da terra de Canaã, vieram todos os egípcios a José, dizendo: Dá-nos pão; por que morreremos em tua presença? porquanto o dinheiro nos falta. E José disse: Dai o vosso gado, e eu vo-lo darei por vosso gado, se falta o dinheiro. Então trouxeram o seu gado a José; e José deu-lhes pão em troca de cavalos, e das ovelhas, e das vacas e dos jumentos; e os sustentou de pão aquele ano por todo o seu gado. E acabado aquele ano, vieram a ele no segundo ano e disseram-lhe: Não ocultaremos ao meu senhor que o dinheiro acabou; e meu senhor possui os animais, e nenhuma outra coisa nos ficou diante de meu senhor, senão o nosso corpo e a nossa terra; Por que morreremos diante dos teus olhos, tanto nós como a nossa terra? Compra-nos a nós e a nossa terra por pão, e nós e a nossa terra seremos servos de Faraó; e dá-nos semente, para que vivamos, e não morramos, e a terra não se desole. Assim José comprou toda a terra do Egito para Faraó, porque os egípcios venderam cada um o seu campo, porquanto a fome prevaleceu sobre eles; e a terra ficou sendo de Faraó.
Gênesis 47:13-20

Ao final do processo, todo o dinheiro era de Faraó, todo o gado e toda a terra. A exceção prova a regra: todas as pessoas famintas por causa da crise abriram mão de sua propriedade em troca do cereal e das sementes que o governo egípcio lhes proporcionava, exceto os sacerdotes, pois estes sempre foram mantidos pelo governo e sempre tiveram acesso privilegiado ao alimento (v.22). Logo que obteve posse de toda a terra, o governo egípcio a “emprestou” ao povo e ordenou que 20% da colheita produzida com os grãos que foram dados deveria ir de volta para o cofre governamental – uma espécie de “imposto de renda” (v.23-24).

Alguns tem dito que essa forma de socialismo é a maneira correta e bíblica de se proceder com a economia. Será? Será que essa história de José é normativa para os nossos dias? Ou ao menos para um governo cristão? A bíblia parece mais descritiva, menos normativa e até mesmo negativa em relação à política econômica de José. Ela deixa claro que José estava escravizando o povo em nome de Faraó:

E disseram: A vida nos tens dado; achemos graça aos olhos de meu senhor, e seremos servos de Faraó. José, pois, estabeleceu isto por estatuto, até ao dia de hoje, sobre a terra do Egito, que Faraó tirasse o quinto; só a terra dos sacerdotes não ficou sendo de Faraó.
Gênesis 47:25-26

“Seremos servos de Faraó”. Além do mais, alguns manuscritos antigos incluem essa informação também no versículo 21: “Quanto ao povo, ele [José] os escravizou de uma a outra extremidade da terra do Egito”. Independente da escolha de manuscritos, a informação está lá: a ideia de escravidão e servidão se refere tanto ao “imposto de renda” de 20%, como ao controle e planejamento central da economia pelo governo egípcio. A pergunta, então, passa a ser: o político cristão e bíblico é chamado a escravizar a população inteira e a centralizar a economia dessa forma?

A resposta, por agora, já deve ser clara o bastante: não. Em primeiro lugar, por causa desse tom negativo em que o episódio é relatado. A servidão e a escravidão, a não ser no sentido metafórico ou religioso (“servir a Deus”), têm um tom negativo e melancólico quando mencionadas na bíblia, e aqui não é diferente.

Em segundo lugar, a história de José não é sobre sua habilidade de governante, ou mesmo sobre a crise econômica e como ela foi resolvida. Precisamos de voltar alguns capítulos para ver o foco central da história de José no Egito. Lembre-se que a casa de Jacó por algum tempo tinha, por causa de vários pecados (Gn. 37:3; 38), parado de receber a revelação de Deus. O único a receber era José, por meio de sonhos. Um desses sonhos falava do pai de José e de seus irmãos se curvando diante dele, em respeito (Gn. 37:7-11). Quando José, portanto, se torna o governador do Egito, aquele sonho se cumpre.

Mais do que isso, o ponto da história é que José resgata sua família da miséria e da fome. É preciso levar a família portadora da promessa divina até o Egito por um tempo, para que seja preservada. José é quem lidera esse processo (Gn. 45:8-9). Mas o Egito é preparado pelo próprio José, que leva a revelação de Deus àquele povo (Gn. 39:8-9; 40). Através de seus sonhos, a palavra de Deus chega até mesmo a Faraó e o alerta da crise econômica que viria (Gn. 41). Foi a palavra de Deus que colocou José na condição de governador do Egito.

Isso explica por que o socialismo de José funcionou naquela ocasião. Um dos motivos do mau funcionamento de uma economia socialista, centralmente planejada, é que, mesmo pressupondo a boa-vontade de todas as pessoas, ela não opera de forma racional. Aliás, ela acaba prejudicando a disponibilidade de bens e serviços demandados.

A economia é sempre bem complexa, e cada pessoa faz pequenas escolhas todo dia que causam um tremendo impacto no resto da sociedade. Numa economia centralmente planejada, essas escolhas são feitas por um comitê burocrático que dita o que vai ser produzido e vendido, para onde vai, e o que cada pessoa pode consumir ou usar como matéria-prima. Ou seja, todo o planejamento espontâneo baseado no conhecimento disperso por toda a sociedade passa a ser feito por um número bastante limitado de “iluminados” que ditam o rumo que a economia deve tomar. Para assegurar que suas diretrizes serão cumpridas, esses “iluminados” contam com o poder de coerção e compulsão do governo civil.

O sistema socialista pressupõe que uma equipe de planejadores centrais é mais “racional” que toda a sociedade junta. Pressupõe que é possível concentrar todo o conhecimento disperso da sociedade na mente dos “iluminados” que ditam as regras da economia. A equipe de planejamento central é um time de aspirantes à onisciência de Deus.

No Egito, José interpretou um sonho em que Deus revelou a oferta e demanda de cereais, e o tempo e local onde essa oferta e demanda se manifestariam. Deus lhe mostrou que haveria uma época de prosperidade e uma de crise e de “vacas magras” (Gn. 41:15-32). Com base em toda essa informação, José sugeriu um “plano econômico” que salvou a população local e vizinha da fome absoluta e, ao mesmo tempo, transferiu a renda e a propriedade do povo para os cofres de Faraó (Gn. 41:33-37, 56-57). José conseguiu planejar a economia porque o próprio Deus lhe deu a informação necessária.

Mesmo o socialismo de José do Egito, contando com a revelação divina sobre os detalhes da economia no futuro próximo, não foi além da mera sobrevivência. O ponto da história inteira é enfatizar a revelação de Deus através de José. O ponto deste episódio específico é mostrar que tudo depende de Deus (e não de José, ou do “Ministério da Fazenda” de Faraó).

Assim, longe de ser uma apologia ao socialismo e ao intervencionismo na economia, o episódio das “vacas magras” nos mostra, primeiro, a sua imoralidade e, em segundo lugar, a sua limitação intrínseca. O socialismo é moralmente condenado quando a bíblia o rotula, nesta história, de “servidão” e “escravidão”. Os seus limites intransponíveis são destacados quando a bíblia deixa claro que José dependeu da revelação divina para que seu plano fosse implementado (Gn. 41:16, 25, 28, 38-39).

Aprouve a Deus ensinar a dependência total que devemos ter dEle e o cuidado que Ele tem por Seu povo através das “vacas magras” e do resgate que Ele enviou através de José. Porém, o normal não é pressupor que Deus tem revelado dia após dia ao gabinete de governo o rumo que a economia deve tomar. O normal é pressupor que precisamos de um sistema que deixe o conhecimento complexo e disperso em toda a sociedade ser livremente utilizado na produção e consumo de bens e serviços. Ou seja: o normal é pressupor que ninguém no governo é onisciente.

Anúncios

3 pensamentos sobre “José do Egito, Socialista

  1. Caro Lucas Freire: Parabéns por essa leitura mais perspicaz das histórias do VT. Quanto às lições para o nosso sistema político-econômico extraídas: “O normal é pressupor que precisamos de um sistema que deixe o conhecimento complexo e disperso em toda a sociedade ser livremente utilizado na produção e consumo de bens e serviços. Ou seja: o normal é pressupor que ninguém no governo é onisciente”. Já fui mais socialista e também mais literalista em relação aos textos do VT, em todo o caso, vejo a necessidade de considerar o seguinte: todo o conhecimento tradicional complexo e disperso em toda a sociedade do Congo e de resto, da África praticamente toda, que deveria ser livremente utilizado na produção e consumo de bens e serviços pelas suas próprias tribos e comunidades, foram surrupiados e suplantados pelos Belgas “cristãos” e depois partilhado e pilhado pelos impiedosos Joseph’s das demais potências coloniais europeias entre os Sec XVI e XX e com as quais se irmanaram, de carona, os “cristãos estadunidenses” que, aliás, já haviam sepultado todo o “conhecimento complexo e disperso” das milhares de tribos e comunidades nativas da própria colônia norte americana. Rigorosamente, este é o mesmo processo que nos foi impingido na América do Sul, prá ficarmos só nesta vizinhança do mundo.
    Ninguém supõe que foi toda a sociedade destas potências colonialistas que decidiu partir para tais sanhas de dominação de outros territórios e povos e de pilhagem de suas riquezas. Além do Belga Leopoldo II, e outros seus colegas monarcas, quantos mais participavam da tomada de decisão de fazê-lo. Certamente houveram “euquipes” ou equipes de planejamento central muito pequenas e que sujaram bastante a “onisciência de Deus” pelas brilhantes ideias que tiveram e, sobretudo, pelas habilidades sanguinárias com as quais espalharam a visão de mundo e o modus operandi da “civilização branca e cristã”.
    Quero dizer que essa exegese bíblica a favor do“conhecimento complexo e disperso do povo” e contra toda centralização de riqueza, poder econômico-político e controle social nas mãos de poucos (leia-se a discussão de um Estado Forte X Estado mínimo) parece carecer de credenciais, tanto pelo rastro europeu e norte americano do referido período colonial clássico, como pela história recente, onde o discurso neoliberal silencia quando sob crise, montadoras e especialmente banqueiros são socorridos generosamente pelas burras do Governo para não desmoronar o frágil e insustentável cerne financeiro do sistema capitalista, lastreado na expansão irresponsável do consumo de quinquilharias de obsolescência programada . A Agricultura europeia não sobrevive ( não compete) sem os gordos subsídios dos seus Estados/governos antes fortes. Idem a americana sob neve, tornados e furacões. Pra pegar um exemplo doméstico: o pujante Agronegócio brasileiro, que quando vai bem obrigado, todas as marcas de veículos e caminhonetes possantes e de luxo, além de toda a frota da maquinaria moderníssima é renovada ano-a-ano, além da aquisição vertiginosa de novas terras, que a lucratividade e a capacidade instalada permite ostentar. Nestes períodos de “vacas gordas” viceja o discurso neoliberal de que o Estado/governo tem de se abster de interferir na economia. Aliás, pra que Governo¿ Só pra distribuir Bolsa isso, Bolsa aquilo. Mas na menor crise, seja de ordem climática ou de mercado – tem sido o setor mais orquestrado e hábil em conseguir socorro, em anistiar seus empréstimos, nesta hora, tanto cá como lá, é importante que o governo segure o rojão, seja forte o suficiente para amparar o setor que grita mais alto. Portanto, a exegese teo-ideológica do “conhecimento complexo e disperso do povo” contra o Estado forte parece só se encaixar convenientemente, quando o Obama resolve se indispor contra os Republicanos e os milionários estadunidenses com políticas de cunho sócio-distributivas em relação aos afrodescendentes, latinos e imigrantes pobres em geral. Salvaguardadas nuances e particularidades, aplica-se o raciocínio para as demais experiências em curso na América Latina e particularmente no Brasil. Prefiro que se assumisse que são políticas de reparação: sim, reparação histórica pela borracha, pelo café, pelo ouro, pela prata, pelo cobre, pelos diamantes, pela força de trabalho escrava de ontem e semi-escrava de hoje. Pelas formas brutais de ontem e pelos sutis e invisíveis tentáculos de drenagem dos capitais dos povos hoje para os centros financeiros do mundo, estejam onde estejam. Parece que a exegese fica empobrecida se não alcançar um recorte contextual mais ampliado.
    Pb. Jairo Macedo, Eng. Agr. MsC. Extensionista Rural, atua em Guarapuava – Pr.

  2. Excelente comentário, Jairo! Digo mais, a partir de determinadas respostas para algumas perguntas direcionadas, seguiremos, inevitavelmente, para um único caminho previamente escolhido (consciente ou não). Ampliar as possibilidades de perguntas amplia a possibilidade de respostas e caminhos.
    > Socialismo só é possível com centralização e inspirados apenas nas experiências do século passado?
    > Não existe possibilidade de experiências socialistas democráticas, participativas, com respeito ao mercado (submetido, claro, ao interesse público, da maioria)?
    > Pq não pegar, para alimentar esse debate, a experiência de caminhada de Jesus, seus princípios, bem como a experiência da igreja primitiva (que tinha tudo em comum e não me parecia que tinha centralidade tirânica, mas sopro do Espírito)?
    > Pq não se diz, em nenhuma linha que, se o sistema socialista que recentemente experimentamos de cunho autoritário não presta (e não presta mesmo!), menos ainda presta o livre mercado tirânico do capitalismo e mesmo o ‘capitalismo social'(sempre proposto para salvar o sistema, dando anéis para não perder os dedos), pois o centro da sociedade é diabólica: o dinheiro e lucro acima das pessoas e da vida. Todos os números e filosofia de vida comprovam isso (como bem deu alguns exemplos o Jairo).
    Acho que podemos e devemos sair das caixinhas das ideologias colocadas e avançar para os princípios bíblicos e a experiência caminhante de Jesus nos trás. Claro, sem literalismo descontextualizado, mas com muita abertura ao sopro livre e soberano do Espírito. Talvez, como José, não façamos uma sociedade perfeita (esta só existirá com a segunda vinda de Cristo),mas, certamente, faremos o melhor que poderia ser feito à luz de nossas limitações humanas e do contexto conjuntural e estrutural da sociedade que vivemos.

Deixe seu comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s