“Deus seja louvado”

por Lucas G. Freire

Nosso governo é laico (dizem os magistrados) e, por isso, a expressão “Deus seja louvado” deve ser retirada das nossas cédulas de dinheiro. Não importa que nossa Constituição diga que foi elaborada “sob a proteção de Deus”. Logicamente, não é surpresa que religiosos de várias crenças estranhem esse pedido feito ao Governo Federal por magistrados no estado de São Paulo.

De um lado, os religiosos tem feito um grande barulho em reação e, de outro, juízes e políticos firmam uma posição ainda mais absoluta contra qualquer tema religioso na vida pública brasileira. Em vez de justiça no nosso ambiente político, os religiosos querem afirmar o simbolismo dos seus valores e os magistrados desejam a secularização da nossa sociedade.

Na minha infância, em tempos de inflação absurda, alguém leu a frase “Deus seja louvado” numa nota de dinheiro e me disse: “Louvado como? Com esse dinheiro que é usado para roubar do povo?” A pergunta ficou escondida em algum lugar na minha cabeça. Agora, com a polêmica da mudança nas notas de dinheiro, ela volta ao primeiro plano.

De fato: como Deus pode ser louvado num dinheiro fraudulento e forçado, que é circulado para oprimir e espoliar a população brasileira? Um dinheiro que é uma enganação, igual vinho aguado, mas que atinge sobretudo os mais pobres e indefesos do nosso país! Será que Deus é louvado se a cédula do Real contém a frase “Deus seja louvado” mas continua sendo um dos maiores instrumentos de desobediência ao mandamento bíblico da justiça pública?

Uma moeda inflacionada é uma moeda fraudulenta. É uma zombaria contra o caráter justo e santo de Deus. Não é uma forma de Lhe dar louvor, e sim de blasfemar. Ao invés de querer uma frase impressa numa nota de dinheiro o cristão deveria militar por justos pesos e medidas. Militar contra a fraude. Isso sim é mandamento para a vida política – o mandamento da justiça pública.

No campo monetário, o que nossos juízes e magistrados deveriam fazer é combater a fraude e o roubo. Que façam um favor à nação: parem de imprimir não só a frase “Deus seja louvado”, mas todo o resto dessa mentira legalizada que é a nota do Real. Só estarão buscando a justiça pública quando uma moeda de verdade for permitida.

Muitos acreditam que os cristãos tem feito, em reação, uma “tempestade em copo d’água”. Acontece que o copo d’água ficou de lado, num canto qualquer, esquecido pela história. A tempestade é feita agora num copo de veneno – veneno que já nos tem intoxicado por décadas.

Esse veneno é a armadilha que quer capturar você, fazendo que acredite que uma frase na nota de dinheiro é mais importante que a moeda em si. “Deus seja louvado”: não no falso louvor impresso, e sim no louvor verdadeiro da justiça pública. “Deus seja louvado”: impresso ou não, que seja louvado sem hipocrisia.

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3 pensamentos sobre ““Deus seja louvado”

  1. O falso louvor impresso versus o louvor verdadeiro da justiça pública. Sim, Lucas, achei muito pertinente contrapor estes dois aspectos e creio que há um outro, advogando o falso louvor, bem ao gosto do misticismo católico, e que vem sendo apropriado, cada vez mais, pelos neo-apóstolos e seus seguidores que é a tendência de sacralização de objetos, no caso, das notas de dinheiro por conter a tal afirmação. Dinheiro este tão apreciado nessas hostes midiáticas, bem como em todas as demais correntes amantes das prosperidades teológicas. (gostaria muito de estar errado).
    Jairo Macedo Guarapuava Pr.

  2. Deus era louvado não só em nossas notas de dinheiro, mas em muitas outras notas quando estas tinham o lastro em ouro e os governos eram impedidos de intervir na economia com medidas populistas que visam iludir os mais pobres e ignorantes e perpertuar o poder de corruptos que são contra o nosso santíssimo Deus.

  3. A pesença de frases ou símbolos cristãos em documentos, repartições públicas e instituições governamentais refletiam, ainda que de forma precária, o reconhecimento de fundamentos éticos, legais e morais de inspiração bíblica por parte do conjunto da sociedade. É evidente que a sociedade brasileira nunca teve elevados padrões de moralidade, se comparada com alguns outros paises onde a matriz de valores cristãos foi mais relevante, mas, ainda assim, havia uma influência bem definida desses valores, presentes inclusive em nossa legislação. A mudança foi gradual e inexorável e não é preciso discorrer sobre isso mas, e aí está a clarividência do seu artigo, esse tipo de iniciativa devia ter partido das próprias instituições cristãs: não queremos ver o nome de nosso Deus presente em uma constituição anti-cristã; em um dinheiro enxovalhado diariamente por golpes, fraudes e corrupção; em escolas deformadoras de caráter. Espero ver os cristãos virando esse jogo e apoiando publicamente a remoção de qualquer menção ao nome de Deus onde Ele é rejeitado e desprezado. Que comunhão pode ter a Luz com as trevas?

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