Governo, Economia e Furacões

por Lucas G. Freire

Diretamente dos Estados Unidos.

Quando o telefone tocou, eu fiquei apreensivo. Era bem tarde, e o voo Londres-Washington DC estava marcado para o dia seguinte. De Exeter a Heathrow, o principal aeroporto londrino, eu esperava umas cinco horas de viagem. E agora o telefone tocava. Um furacão em Washington, Nova Iorque e em outros lugares. O voo estava cancelado.

Um desastre natural desse calibre sempre nos lembra que não estamos no controle. Apenas reagimos, com heroísmo ou covardia, trabalho ou preguiça, ânimo ou indiferença. E, às vezes, com estupidez. Independente da nossa reação, uma coisa é certa: não estamos no controle.

Decidi tomar o ônibus e ficar no aeroporto assim mesmo. Depois de quatro dias, finalmente consegui voar e cá estou, nos Estados Unidos da América. O povo se livra, aos poucos, dos efeitos do Furacão Sandy. O povo medita sobre o que aconteceu. O povo se prepara para observar que novo rumo a nação tomará nesta semana de eleições.

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Mitt Romney e Barack Obama, os principais candidatos à presidência dos EUA nesta temporada, decidiram dar uma pausa nas suas campanhas para tratar de alguns efeitos do desastre natural. Porém, agora as campanhas continuam, embora em marcha mais lenta, e os eleitores têm a impressão de que tudo o que deveria ser dito já foi.

Talvez o furacão mais grave que assombre o país é o furacão da centralização política. Ambos os candidatos, independente da cor do logotipo partidário, apoiam políticas de concentração de poder no âmbito federal. Nunca a “terra dos livres e lar dos bravos” foi tão ameaçada em suas tradições e instituições.

Uma dessas ameaças é o próprio sistema de reação a desastres naturais. Nos Estados Unidos, existe toda uma indústria que se beneficia de furacões, a começar pela FEMA, a agência federal que é acionada na hora de evacuar locais potencialmente em perigo.

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O sistema, principalmente quando está em ação durante tempos de crise, é raramente questionado. Só que há vários motivos para duvidar da sua eficácia. Para começar, a criação da FEMA nunca foi constitucionalmente autorizada. Além disso, desde tempos passados, a truculência do governo federal em casos de emergência já é bem notada. Sem contar que tudo, legalmente ou não, é mantido pelos impostos.

Com o furacão natural, o furacão político da centralização é fortalecido ainda mais. Em tempos assim, quem é que vai questionar o sistema? Certamente, nenhum dos candidatos principais à presidência e ao poder ainda mais centralizado que a ocasião promove.

O resto da indústria do furacão se divide entre agências governamentais locais e estaduais e empresas envolvidas em parcerias público-privadas. Sempre uma combinação explosiva. Uma das formas principais em que as regulações governamentais e a promiscuidade com o setor privado determinam vencedores e perdedores é a política de seguros.

O governo tem sinalizado às seguradoras e aos segurados que eles podem reconstruir em áreas afetadas por desastres naturais. Mesmo áreas que foram afetadas mais de uma vez no passado. Em condições normais, em que tanto seguradoras como indivíduos arcariam com os custos a partir do próprio bolso, a decisão seria muito mais difícil. Contudo, por conta da promessa de resgate via dinheiro público, um número grande de pessoas insiste em reconstruir em áreas que serão novamente afetadas por furacões e desastres.

Ou seja: o sistema acaba criando e ampliando o problema ao invés de resolver e dar um fim nisso tudo. Um sistema que nem é legitimamente constitucional.

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Algumas pessoas dizem que injetar mais dinheiro na economia americana seria uma boa ideia, principalmente para o esforço de reconstrução. É claro que o grupo de empresas que seriam contratadas para o esforço, bem como seguradoras e outros setores, receberiam vários benefícios.

Nada indica uma solução imediata para a incompetência do planejamento central da FEMA, junto com a promiscuidade público-privada e o incentivo à negligência e à falta de segurança montado pelo próprio sistema. Longe de querer reconstruir e dar segurança às pessoas, a indústria da reconstrução pressiona o governo para que financie com dinheiro público a ideia furada da “vidraça quebrada”.

Trata-se da noção de que o horror dos desastres naturais, da guerra ou simplesmente a perda trazida por vidraças quebradas estimula a economia. Essa noção idiota já foi refutada muito tempo atrás. Basta lembrar que é possível sim manter a vidraça intacta (ou as casas antes do furacão, ou o país antes da guerra) e usar o dinheiro de restauração com algo mais produtivo e menos destrutivo.

Economicamente falando, é tudo um horror. Politicamente falando, só há incentivo para aumentar o horror. O furacão da centralização, talvez por ser menos visível à população em geral, é potencialmente mais nocivo que o furacão natural. A economia não ganha com isso e a política só perde.

O papel do governo civil é a promoção da justiça pública. O papel não é o de aumentar ainda mais o efeito nocivo de desastres naturais, mesmo que o povo acredite que na verdade a atuação governamental seja benéfica. Que deve o cristão fazer? Lutar contra a centralização (e não a favor dela), contra a violação dos limites ao papel do governo e contra a injustiça.

No plano pessoal, deve estar sempre ciente de que não tem controle sobre os elementos, mas que tem responsabilidade sobre suas ações. Deve procurar, também, ajudar quem sofreu perdas. Deve fazer o possível para dar apoio espiritual e material a essas pessoas.

O cristão não deve estar disposto a militar por ainda mais poder de coerção e compulsão governamental. Em geral, quando esse poder é defendido, mesmo com boas intenções, o resultado é inesperado e desastroso. A campanha eleitoral prossegue, e os cristãos neste país não dão sinais de entenderem a profundidade do problema e a falsidade das “soluções” propostas pelos seus candidatos prediletos.

Kyrie eleison.

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Um pensamento sobre “Governo, Economia e Furacões

  1. NÃO É PRECISO SER ESPECIALISTA EM GEOGRAFIA, OU CLIMATOLOGIA PARA CONCORDAR QUE RECONSTRUIR UMA CIDADE ARRAZADA PELAS AGUAS DAS TEMPESTADES PELA SEGUNDA VEZ, ABAIXO DAQUELAS MESMAS COTAS DE INUNDAÇÃO, É ARRISCAR-SE A ENFRENTÁ-LAS DE NOVO, NA PRÓXIMA RECORRÊNCIA.
    MAS A SENSAÇÃO QUE ESTE ARTIGO DÁ É QUE ATIRA PRA MUITAS DIREÇÕES. FICA COMO A VELHA HISTÓRIA DO ITALIANO NA CONTRAMÃO NA AV. PAULISTA: TODO MUNDO ESTÁ ERRADO DIANTE DAS LENTES MULTIFOCAIS DO CRISTÃO REFORMADO?????
    (NEM O PESSOAL DO MANHATHAN CONECTION TEM FEITO TAIS ABORDAGENS)
    AH! E FICA MUITO VAGO QUAIS AS MARACUTAIAS QUE O(A) TAL FEMA SE ENVOLVE LA AO ENFRENTAR OS FURACÕES??

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