A Teologia Política do Imperialismo

por Lucas G. Freire

Podemos definir provisoriamente o imperialismo como o uso, pelo estado, do seu poder de coerção e força a fim de se expandir e de controlar outros territórios. Uma definição mais aprofundada, que considere o caráter espiritual desse fenômeno político, vai à raiz do problema: a idolatria e a cobiça pelo poder. Para nós, cristãos, qual é a relevância disso? Um exame profundo do que o imperialismo representa nos leva a refletir sobre sua teologia política.

Infelizmente, muitos que se dizem crentes, que declaram da boca para fora que seguem o evangelho de Jesus Cristo, que querem nos convencer de que são súditos do Príncipe da Paz, apoiam com entusiasmo o uso da espada, considerado legítimo num território, para “pacificar” uma outra jurisdição. As alegações são diversas: falam de “choque de civilizações”, de “eixo do mal”, de “ameaça fundamentalista” e de “tornar o mundo seguro para a Liberdade e para a Democracia”.

Quando recorrem a esse tipo de discurso, essas pessoas se apoiam em três pressupostos sobre a natureza do Estado agigantado, do monumental Leviatã, a fim de implementar a sua agenda. Os estatistas da guerra, apesar de se rotularem cristãos, atribuem onipotência, onisciência e onipresença ao poder imperialista. Este é o credo do estatólatra.

O imperialista “cristão” afirma, primeiramente, que o estado é onipotente. O estado (e, em particular, o estado expansionista) pode se esticar de Leste a Oeste, do Norte ao Sul, de diversas maneiras sem que sofra quaisquer consequências negativas. Nada sucumbe ao seu poder. Todos tremem diante do seu estandarte de guerra.

A potência imperialista pode reescrever a justiça, a moralidade e a própria história, a fim de se esticar por todo canto da terra. Em troca, nada sofrerá. Pode financiar guerras e guerras sem se preocupar com a falta de recursos. Se o dinheiro acaba, basta aumentar os impostos. Basta imprimir mais moeda. Para o esforço de guerra, a potência imperialista pode controlar tudo na sua sociedade. A imprensa, a liberdade de ir e vir, até mesmo a capacidade de pensar. Tortura? Justificada. Crimes de guerra? Ficção. Autocrítica? Só na comédia da televisão.

O estatólatra imperialista crê piamente que não há limites à capacidade de inchaço do monstruoso Leviatã que apoia. Porém, caso barreiras sejam identificadas, esse dito “cristão” não hesitará em abrir mão do senhorio absoluto de Cristo sobre todas as coisas, princípio limitador de cada governo civil, para delegar a esse governo o poder absoluto de controlar a tudo e a todos.

Se o imperialista “cristão” não encontra todo joelho se dobrando diante da bandeira do seu país, nem confessando o seu domínio, ele buscará uma forma de militar pela expansão do seu poder. Se não é onipotente ainda, um dia o será. Afinal, o fim é nobre e justifica qualquer meio.

Além de proclamar a onipotência do seu mestre e ídolo, esse cruzado da época contemporânea também o entende por onisciente. O estado imperialista tudo sabe. Ele conhece e perscruta todas as coisas. Intervém nos assuntos de outros países porque sabe o que é melhor para os estrangeiros lá fora. E, quanto aos de dentro, intervém na vida de cada um porque o ideal da “civilização” assim o requer. Não é somente a segurança nacional que está em jogo nesta Cruzada, e sim a “forma de vida” – não, melhor ainda, a “civilização que com suor, sangue e lágrimas construímos”.

A potência imperialista não é tida por onisciente só quando age como uma pretensa babá que tem toda a população mundial potencialmente sob sua custódia. Ela também confia com fervor puritano nas “pessoas de bem” que estão encarregadas de conduzir a Marcha Triunfal contra os “bárbaros”. Confia que estão bem informadas e que dispõem de inteligência absolutamente capaz de definir a situação e as necessidades. Confia que é verdade neutra e perfeita quando se diz que o outro é uma ameaça, e que é preciso apagá-lo do mapa. Confia que todas as possíveis consequências e efeitos da ação já foram pesadas na balança do juízo político.

Por vezes, a Confissão de Fé do imperialista que ousa se definir como “cristão” até mesmo faz uso de profecias “bíblicas” a respeito do futuro, a respeito de qual país é “do bem” e qual é “do mal” e a respeito do “destino manifesto” do povo que exalta sobre todos os povos. “Afinal, se por oráculo divino podemos estar certos de que haveremos de prevalecer, então quem será contra nós?”

Não se trata, assim, de onisciência meramente condenscendente (“eu sei o que é melhor”), ou mesmo analítica (“eu sei como funciona”). Trata-se, também, de onisciência fiduciária, de confiança última, de uma matriz que gera todas as outras “verdades”. O estatólatra que confessa essa fé vê na história uma revelação clara de que a sua bandeira é excepcional, única e inigualável. É claro que haverá de prevalecer! É claro que deve prevalecer.

Mas onipotência e onisciência são somente dois lados do tríplice Catecismo imperialista. Esse par de atributos incomunicáveis do estado agigantado é complementado por uma terceira característica – a onipresença.

Sim, é de coração que os que gostam de fazer retumbar os tambores de guerra confessam a doutrina da onipresença da nação. O estado imperialista, querem crer, é perfeitamente capaz de se fazer notado em todo aspecto da vida, em todo nível de governo e em todo centímetro quadrado do universo.

“Não há um só centímetro quadrado que o estado imperialista não reivindique para si, e diga: Meu!”. A expansão externa desse ídolo da modernidade é um mero complemento da sua expansão interna. Alguns antiimperialistas alegam que a expansão começa com grupos de pressão cooptando a coerção governamental para expandir a sua opressão. Mentira: esses grupos de pressão cooptam antes o poder interno do estado. O poder de controlar oferta e demanda, de controlar quem entra e quem sai, de controlar o sentido de nação, a educação e a religião.

E a presumida onipresença continua não dentro e fora da jurisdição, como também no mundo virtual e até mesmo fora do planeta. Tudo isso justificado pelo objetivo-mor que, a essas alturas, nem sabemos qual é mais. Mas, para estar presente em tudo quanto é lugar, o estado imperialista precisa se justificar.

O ideal “civilizador” é menos popular que já foi. O ideal de “controle” sobre as (supostas) ameaças – em geral abstratas – é o que alimenta essa máquina. E dinheiro, muito dinheiro corrupto. O dízimo da estatolatria, extraído dos clientes que têm interesse na sua onipresença.

A Confissão de Fé do imperialista, muitas vezes disfarçada de um “cristianismo conservador” é claramente uma afronta ao cristianismo bíblico. É um credo que implicitamente atribui ao estado a Origem última da existência, coerência e diversidade dos valores que alega promover: “liberdade”, “prosperidade”, “moralidade” e assim por diante. É um credo que afirma a possibilidade de converter os corações de seus subordinados através do Espírito da Lei, do “fiat” imperial.

E, no caso de vir disfarçado de um “cristianismo liberal”, messiânico e social, não nos enganemos: sendo liberal, é muito fácil que seja também horizontal, imanente. Idólatra. Seja “conservador” ou “liberal”, o imperialismo estatólatra deve ser denunciado por fazer parte da oposição anticristã ao plano de Deus para a justiça pública.

Não nos deixemos enganar pelas vozes, daqui ou de fora, que tentam nos vender esse projeto que, longe de civilizar e ser civilizado, é bárbaro e pagão.

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