5 pensamentos sobre “Política e o Catecismo de Heidelberg (Parte 1)

    • Prezado Ismael,

      Obrigado pela pergunta. Se por “governo” você quer dizer governo dos pais em casa, dos professores na sala de aula, dos presbíteros na igreja, e assim por diante, o papel tem a ver com o governo da “lógica interna” da esfera correspondente, tendo em vista o fato de sua autoridade e jurisdição serem limitados ao “escopo” e “nível” dentro dessa esfera.

      Se você quer dizer apenas “governo civil”, então o mesmo argumento se aplica, mas limitado à justiça pública. Porém, isso às vezes implica restringir o abuso de poder dentro de outras esferas. Por exemplo: se um pai agride a esposa e filhos, aquela agência chamada “governo civil” que tem o poder da espada para punir os agressores tem o direito de exercer esse poder de coerção para proteger os inocentes e castigar o lado culpado. Mas isso ainda é prerrogativa do “governo civil”, sem invasão da esfera da autoridade paterna e materna sobre o lar. Se o governo civil, por outro lado, estivesse ditando o que os filhos deveriam comer, o que deveriam estudar, e assim por diante, haveria uma invasão inaceitável.

    • Prezado Frank,

      Obrigado pela questão. Digo três coisas a respeito. Primeiro, que o cristão reformado confessional hoje estará mais provavelmente pactuado com igrejas que confessam a fé conforme as alterações, do que com as poucas que mantiveram o formato original. Cabe a esse cristão entender que os demais, mesmo sendo uma pequena minoria ligados às confissões antigas, não deixam de ser cristãos por motivo dessa divergência.

      Em segundo lugar, é importante entender o contexto pactual dessas diferenças antes que sejam discutidas. O cristão pactuado à igreja reformada e confessional entende a igreja, e não o teólogo X ou Y, ou o indivíduo, por “coluna e baluarte da verdade”. Portanto, caso deseje questionar qualquer ponto da fé que até então confessava, deve se dirigir à autoridade eclesiástica da igreja local à qual está pactualmente vinculado a fim de buscar instrução, e não publicar sua divergência para o mundo inteiro. Esta é uma implicação da confessionalidade que infelizmente temos perdido no contexto brasileiro por várias questões.

      Em terceiro lugar, por outro lado, se a igreja concluir, com oração e jejum, com exame das Escrituras, e com o procedimento correto, que, como igreja, ela tem confessado uma inverdade nos seus credos, ela deve de fato tomar as medidas necessárias para alterar as confissões. Não digo os artigos básicos da fé cristã, mas sim esses artigos de aplicação. O que não pode é confessar uma coisa da boca para fora e na prática demonstrar que não é essa a sua fé.

      Note que eu não entrei no mérito dos artigos e capítulos mencionados. A respeito destes, em termos de conteúdo me parece que as versões posteriores (como a Igreja confessa hoje) defendem um magistrado civil menos inflado que antes, sem poder de natureza eclesiástica, mas que se fizer sua tarefa mais limitada de promover a justiça pública ainda assim acabará ajudando o avanço da igreja. As versões atuais parecem contrariar o princípio de uma Igreja Nacional ou Igreja Estatal, mais que as versões antigas. O comentário que eu faço é a respeito do conteúdo. Não sou eu quem vou “julgar” o mérito da alteração, estando vinculado à Igreja de Cristo que confessa as doutrinas no seu formato atual. Mas também não sou eu quem vou “julgar” o status da fé dos que permanecem com as igrejas que confessam o formato antigo, pois não sou eu quem detenho as “chaves do céu”.

      Espero que essa resposta, menos direta, ajude a mostrar como uma abordagem “pactual” a questões confessionais seria aplicada, tanto nessa como em outras possíveis divergências. Tendo tentado ilustrar isso, paro por aqui.

      Grato,
      Lucas.

  1. Pingback: Política e o Catecismo de Heidelberg (Parte 2) | Política Reformada

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