Sociedade Diversificada

por Lucas G. Freire

Estado por cima, famílias de um lado, corporações de outro e, dependendo do caso, uma igreja aqui e ali. A sociedade brasileira está monocromática demais. Digo “está”, porque essa não é, nem vai ser, a sua condição permanente.

Mas essa é a situação agora. Uma sociedade muito uniforme, muito agrupada em “grandes blocos”. Uma política muito voltada para servir ao interesse desses blocos, e um padrão de interação social muito pouco criativo. Eu tenho família, trabalho, vou à igreja e confio no governo para o resto.

O resto? O resto é muita coisa! Pare para pensar um pouco: você provavelmente também faz parte de um grupo, formal ou informal, de pessoas que praticam esportes. E as instituições de ensino? Certamente já esteve em alguma, não é? E o seu sindicato trabalhista? E o clube?

Acontece que esses outros “departamentos” da vida social têm perdido seu lugar. Aos poucos, temos sido persuadidos a delegar mais e mais, por inércia, aos “grandes blocos”. Invariavelmente, esses “grandes blocos” tem esse tamanho porque ou pertencem ao próprio governo, ou recebem deste uma ajuda especial.

Em outras palavras, temos largado um papel ativo na formação de associações, sociedades e organizações “intermediárias” entre cada um desses “blocos” e deixado que eles “engulam” a função que seria dessas camadas sociais “intermediárias”.

Um exemplo clássico é o que tem acontecido com a filantropia e a caridade ultimamente. Já que a maioria foi persuadida de que é papel do governo ser o Provedor e Mantenedor de todas as coisas, não faz sentido para essas pessoas buscar envolvimento com essas camadas “intermediárias”.

Tem problemas no sistema de saúde? Precisamos do governo-médico. Problemas na educação? Chamem o governo-professor. Problemas nos hábitos depravados da nossa cultura? Chamem o governo-babá!

O governo tenta ser médico, mas faz o serviço pela metade. Pior, arrisca vidas, ao distorcer a lógica própria da esfera da saúde. O governo arrisca ensinar, mas acaba doutrinando. Aliás, adestrando. O governo se atreve a reformar a cultura, e no final das contas, degrada ela ainda mais.

Alguns às vezes concluem que o governo não é competente nessas esferas, mas que deve usar seu poder de coerção e compulsão para inflar outros “grandes blocos”. Parcerias público-privadas. Empréstimos facilitados. Financiamento público.

Aí nasce o agigantamento de certas indústrias, de certas instituições e de certas manifestações culturais. Não porque as pessoas preferem assim, mas porque acreditam que o governo deva escolher por elas e, na inércia, cruzam os braços.

O problema é que o governo não é médico, nem professor e muito menos babá. Nem mesmo consegue julgar quem é. Governo civil, seja ele Estado ou não, é provedor de justiça pública. E os demais governos – os pais em casa, os mestres na escola, os artistas na arte – saberão organizar as demais esferas.

O cristão é o primeiro a confessar que somente Deus é o Soberano Senhor, Provedor, Criador e Mantenedor de todas as coisas. Somente Ele tem autoridade absoluta. A sociedade cristã, por causa disso, é necessariamente diversificada.

Na sociedade cristã, o governo civil deve ser limitado. O mesmo para as demais esferas da sociedade. Na sociedade cristã, o povo não cruza os braços e deixa o governo moldar a cultura à sua imagem e semelhança: nada disso, o povo busca ativamente entender como cada esfera tem seu próprio espaço e como cada uma delas deve cooperar para satisfazer as demandas da vida social.

O nosso chamado e privilégio é o de formar uma cultura cada vez mais refinada no entendimento dos limites de cada esfera, e de vida em comunidade dentro de cada esfera. Isso requer dois tipos de esforços. Ambos os tipos derivam da ideia de que somente Deus é o Soberano sobre todas as coisas.

Primeiramente, temos o esforço de limitar a autoridade em termos de escopo. Cada uma dessas esferas tem uma “lógica” própria, e cabe a nós entender que a distorção da “lógica” interna de uma esfera envolve distorção na forma como ela nos serve em sociedade.

Isso, por exemplo, é o que acontece quando universidades são distorcidas para servir ao propósito estatal de promover a justiça pública. A função primária da universidade é reduzida à função do governo civil.

Algo parecido ocorre quando empresas são distorcidas por algum “resgate” ou “proteção” governamental para ficarem imunes à lógica de mercado. A função primária da empresa é, com isso, invertida.

Outro exemplo é quando o próprio governo civil é distorcido porque um certo número de políticos religiosos quer usar o governo para beneficiar as igrejas de que são membros, o que transforma a função pública e geral do magistrado na de um mero comitê executivo do bloco de pressão.

A lista de distorções é quase infinita. Não é de surpreender, assim, que cada uma dessas esferas distorcidas esteja aos poucos sendo “apagada”. O resultado é que uma sociedade que deveria ser “colorida” passa a ter uma só cor: uma sociedade “monocromática”.

O limite de cada esfera na sua “lógica” própria é o primeiro princípio a ser seguido. Outro princípio é o esforço de limitar a autoridade em termos de nível. Cada uma dessas esferas tem não somente uma “lógica” própria, como também uma série de níveis.

Os arranjos de autoridade dentro de cada esfera emergem no nível local e vão subindo de nível até onde for necessário. Esse princípio é muito mais fácil de perceber olhando para a história do que para a situação hoje.

Hoje em dia, em cada esfera a interação anda tão centralizada que o abuso de poder é praticamente norma em vez de exceção. Isso é tanto verdade no caso de igrejas, como no caso do governo civil, dentre outros exemplos.

O importante é entender o princípio que estipula que o poder deve ser limitado. Se a autoridade utilizando esse poder está sozinha, sem nenhum “contrapeso” nos níveis inferiores, é muito mais difícil resistir ao abuso centralizador.

Se, pelo contrário, existem vários níveis, então ainda podemos falar de autoridade limitada e relativa dentro dessa esfera. Não é à toa que, por todo canto do mundo, os cristãos reformados procuraram desenvolver princípios políticos de “federalismo” (ou vários níveis), tanto dentro das igrejas como dentro dos estados.

Assim, esses dois princípios de limitação do poder funcionam em cooperação para formar uma sociedade diversificada. O limite em escopo garante pelo menos um espaço mínimo para cada esfera tentar se desenvolver. O limite em nível dentro de cada esfera protege os mais fracos da concentração excessiva de poder no topo.

A política e a sociedade dos “grandes blocos” tem um impulso contrário ao impulso da limitação da autoridade e do abuso de poder. É uma prática e um hábito de preguiça cultural, de delegação do dever de desenvolver todas as esferas a apenas uma dessas esferas. Sendo assim, é uma prática de concentração da soberania em um aspecto da criação.

Essa prática confunde a criação, que é relativa, com o Criador, que é Absoluto. A sociedade “monocromática” é a sociedade da idolatria. O impulso do cristão reformado deve ser o de formar uma cultura que diferencie cada uma das esferas. Além disso, deve ser um impulso que, dentro de cada esfera, combata a centralização e o abuso de poder.

Por isso, a sociedade cristã e reformada deve ser uma sociedade diversificada, tanto em escopo como em nível. É uma sociedade erguida ou reerguida de baixo para cima, e não imposta de cima para baixo. Cientes de que existe potencialmente muito mais vida além do trio estatal/empresarial/eclesiástico, os membros dessa sociedade procuram ativamente transformar esse potencial numa realidade.

A atividade política seguindo a fé reformada deve, portanto, enfatizar essas camadas intermediárias da sociedade que têm sido prejudicadas com a política dos “grandes blocos”. É hora dos cristãos entenderem que a soberania divina absoluta contrasta com a soberania terrena limitada. É hora de pararem de ser parte do problema e passarem a pensar na solução.

 

 

Licença Creative Commons
O trabalho Sociedade Diversificada de Lucas G. Freire foi licenciado com uma Licença Creative Commons – Atribuição – NãoComercial – SemDerivados 3.0 Não Adaptada.

Anúncios

4 pensamentos sobre “Sociedade Diversificada

  1. Pingback: Sociedade Diversificada | Política Reformada

Deixe seu comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s