Inflação e Fraude

por Lucas G. Freire

Funcionários do Banco Central do Brasil estão em greve. Pedem um reajuste de salário em torno de 23%.

Uma das causas desse pedido é que, desde o último reajuste, a vida se tornou mais cara. A comida subiu de preço. As roupas aumentaram de valor. A gasolina está um absurdo.

Quando os preços mais importantes de uma economia aumentam sem parar, temos um sintoma da inflação. Inflação em si não é o mero aumento de preços. Inflação tem a ver com o mecanismo que causa esse aumento geral.

A nossa economia é baseada na confiança que as pessoas tem no dinheiro que usam. O dinheiro em si é somente um pedaço de papel, mas as pessoas creem que o governo vai ser responsável na fabricação das notas e moedas.

Se o governo fabricar muito dinheiro e jogar na economia, o excesso de dinheiro vai tornar muito fácil comprar coisas em um primeiro momento. Quem vende coisas acaba percebendo o aumento e muitas vezes não consegue lucrar ou arrumar mais itens para vender. Portanto, decide aumentar o preço.

Excesso geral de moeda leva, portanto, a um aumento geral de preços. Isso não é automático, nem ocorre em todos os setores da economia ao mesmo tempo. Mas é uma tendência geral.

O nosso Banco Central tem outras formas de tentar controlar o dinheiro. A principal é a taxa da juros. O ajuste da taxa de juros pelo Banco Central é um sinal para os bancos que fazem empréstimo. Se os juros estão muito baixos, mais pessoas pegam emprestado para comprar ou usar de outra forma. Se os juros estão altos, as pessoas tendem a poupar para o seu dinheiro render na conta do banco.

Nosso governo tem, ao longo do tempo, determinado que o Banco Central deixe os juros baixos. Isso é uma política deliberada do governo. Alguns economistas acham que, quando as pessoas consomem mais, inclusive se endividando, a economia cresce. A política de juros baixos tem em mente estimular o consumo e outros usos do dinheiro, e não a poupança.

Um jornal de investimentos mundialmente famoso aponta a ironia da greve do Banco Central. Diz que os funcionários estão em greve, querendo um aumento de salários para compensar a inflação. Porém, um dos principais deveres do Banco Central é justamente… combater a inflação!

De fato, muitos acreditam que é preciso que um grupo de pessoas inteligentes e especiais faça previsões sobre qual é a quantidade ideal de moeda que a economia deve ter. Esse tipo de planejamento central é pouco discutido na mídia e nos livros de economia. Muitos simplesmente tem fé que essa forma de socialismo é saudável e desejável.

Acontece que, desde que os bancos centrais passaram a ter essa função, a moeda só perdeu seu valor. Nenhum banco central conseguiu combater a injeção de um excesso de moeda na economia. Na verdade, bancos centrais nem mesmo tem todo esse controle sobre as coisas. Um banco privado, ao emprestar mais dinheiro que tem guardado (via crédito), acaba criando moeda também.

Ou seja, funcionários do Banco Central, que tem sido responsável por boa parte desse aumento geral de preços, pararam de trabalhar, exigindo aumento para compensar pelo problema causado em boa parte pelo Banco Central. Eles tem sentido na pele o efeito da inflação que corrói o meu bolso e o seu.

Algum tempo atrás, as pessoas não confiavam em pedaços de papel emitidos pelo governo para comprar e vender. Elas utilizavam ouro, prata e outros metais. Você não pode criar ouro e prata da mesma forma que imprime notas de dinheiro. O máximo que você pode fazer é misturar o metal mais nobre e caro com um metal barato, para criar um número maior de moedas.

Um falsificador de moedas consegue, de duas moedas, tirar três ou mais. Basta misturar um metal barato e imitar as moedas verdadeiras. Com isso consegue comprar mais do que compraria antes. Porém, se todos tiverem a mesma ideia, os vendedores perceberão a mudança e aumentarão os preços para não saírem prejudicados.

Foi assim que os governos da antiguidade roubavam do povo, ao inflacionar a moeda para tirar vantagem. O primeiro falsificador de moeda é o que tem mais vantagem. Os governos, ao falsificarem os metais, conseguiam comprar mais coisas na mesma faixa de preço. Quando o dinheiro chegava nas mãos de um cidadão comum, os preços já tinham aumentado.

Qualquer pesquisador de moedas do mundo antigo pode perceber que, via de regra, as moedas são de metais misturados. Os grandes impérios do passado sofreram todos inflação.

O profeta Isaías, ao condenar a situação de injustiça e corrupção na sua terra, comparou a mistura dos príncipes do povo de Deus e outros príncipes com a mistura entre vinho e água e a mistura entre metal nobre e metal barato.

Isaías não estava condenando somente a fraude na política dos príncipes, no comércio de vinho e no sistema monetário e financeiro. Ele estava condenando a injustiça que levava o governo a fazer vista grossa a essas coisas.

E, de fato, o governo era tão corrupto e injusto que, além de ignorar a fraude, também promovia a fraude e o roubo. Falsificação de dinheiro é uma forma ilegítima de tirar vantagem do próximo. Inflação é uma forma de falsificação. Inflação é roubo.

Na época de Isaías, ainda se podia descobrir a fraude usando uma balança e comparando a densidade dos metais das moedas. Até certo ponto a fraude poderia ser despistada, mas existia esse freio.

Porém, hoje, existe ainda menos freio à expansão de moeda. Hoje em dia, basta uma impressora especial e um papel bonito para um governo criar mais moeda. É claro que as pessoas em uma situação extrema param de usar a moeda do governo, apesar de o governo obrigar que elas usem.

Em muitos países com bastante inflação, as pessoas simplesmente escolhem trocar coisa por coisa, em vez de coisa por dinheiro. Em outros lugares, elas decidem usar uma moeda estrangeira em vez da moeda nacional hiperinflacionada.

O importante disso tudo é que, do ponto de vista ético e bíblico, inflação é fraude. Se o governo promove inflação, ele deve ser denunciado como corrupto. O magistrado civil deve refletir a justiça e a equidade de Deus. Um governo ladrão é um governo que zomba de Deus, o Justo Juiz.

O profeta Isaías entendeu assim. Aqui estão suas palavras:

Como se fez prostituta a cidade fiel! Ela que estava cheia de retidão!
A justiça habitava nela, mas agora homicidas.
A tua prata tornou-se em escórias, o teu vinho se misturou com água.
Os teus príncipes são rebeldes, e companheiros de ladrões;
cada um deles ama as peitas, e anda atrás das recompensas;
não fazem justiça ao órfão, e não chega perante eles a causa da viúva.
Portanto diz o Senhor, o SENHOR dos Exércitos, o Forte de Israel:
“Ah! tomarei satisfações dos meus adversários, e vingar-me-ei dos meus inimigos”.
Isaías 1:21-24

O profeta, nessa denúncia, condena um povo injusto e violento, que tem um governo ladrão, e que por isso está debaixo do juízo de Deus.

É uma verdadeira vergonha o que os cristãos brasileiros muitas vezes têm feito. Eles têm se engajado tanto em usar o governo para impor moralismo aos outros, mas têm negligenciado esse importante aspecto da justiça pública.

Isaías nos chama a refletir sobre o Justo Juiz que julga a corrupção, a fraude e o roubo. O chamado do magistrado civil é o de promover a justiça pública.

Alguns afirmam que o governo deve fazer boas ações utilizando seu poder inflacionário para levantar receita. Por melhor que seja a intenção, isso não justifica a fraude monetária promovida pelos governos modernos. Deus convoca o magistrado civil a refletir a Sua justiça e equidade, e não a falsificar moeda.

 

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O trabalho Inflação e Fraude de Lucas G. Freire foi licenciado com uma Licença Creative Commons – Atribuição – NãoComercial – SemDerivados 3.0 Não Adaptada.

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