A Situação na Síria

por Lucas G. Freire

A comunidade internacional tem voltado sua atenção para a situação delicada na Síria. A Síria é um país do Oriente Médio. Faz fronteira com Israel, Jordânia, Líbano, Turquia e Iraque. Por muito tempo o regime autoritário que governa a Síria tem sido alvo de críticas. Desde o ano passado, mais críticas tem ocorrido dentro e fora do país. Isso foi quando movimentos de oposição ao governo sírio começaram seus protestos. Outros governos na região e no norte da África também tiveram problemas parecidos. No caso da Síria, os protestos começaram com uma demanda. Grupos de oposição ao governo queriam mais abertura política. Eles pediram que o presidente sírio soltasse alguns presos políticos. Em vez disso, houve grande violência. Apesar da pressão internacional, o governo da Síria continua tratando a oposição com métodos questionáveis. Há relatos de várias mortes, incluindo civis indefesos. Porém, muitos membros da oposição que protesta também tem empregado a violência. Eles iniciaram uma verdadeira rebelião revolucionária. O noticiário tem informado que a Síria está praticamente em guerra civil. A Síria não tem boas relações com os Estados Unidos e seus aliados. O governo americano tem pressionado o país. A imprensa alemã descobriu semanas atrás que alguns dos que se revoltaram contra o governo causaram grande derramamento de sangue. Resumindo: tanto o governo como os rebeldes tem usado de violência e matança.

A Síria tem boas relações com o governo russo, mas até a Rússia pressionou pedindo mudanças. A Assembléia Geral da ONU emitiu uma declaração pedindo que a situação seja resolvida. As regras do Direito Internacional permitem que países externos lutem para mudar um país que viola os direitos humanos. Porém, existem condições que restringem esse tipo de guerra. Para uma intervenção, é preciso que o Conselho de Segurança da ONU aprove um documento. Nenhuma das grandes potências pode ser contra. Até agora, alguns países tem votado contra. Isso porque uma intervenção desse tipo, mesmo para fins humanitários, é algo muito grave. A própria ONU aceita que cada país deve respeitar o governo dos demais países. Por isso, uma guerra de intervenção é um caso bastante extremo. Outra medida que tem sido considerada é a de pressionar o governo Sírio com sanções econômicas. Uma sanção significa que o comércio com a Síria fica vetado. Com isso, os outros países esperam que o governo Sírio decida cooperar. Dois países fortes da região se beneficiariam com a Síria enfraquecida: Israel e Turquia. Alguns grupos que se preocupam com a situação da violência na Síria tem pedido aos governos para tomarem medidas mais fortes. Nos Estados Unidos, há uma grande pressão da mídia e de várias pessoas para que haja uma guerra de intervenção.

O governo brasileiro recentemente lamentou as sanções que foram levantadas pelo governo americano contra a Síria. As sanções foram feitas pelos Estados Unidos em isolamento da comunidade internacional. Em geral, o Brasil tende a apoiar decisões tomadas de forma coletiva. Nosso governo seria a favor de sanções que seguissem as regras da ONU. O governo americano declarou que deseja ver o Brasil mais ativo na denúncia ao governo Sírio.

O caso da Síria é um caso de violência, injustiça e rumores de guerra. Por isso, demanda uma reflexão bíblica. Há três princípios que precisamos seguir. O primeiro é o princípio de buscar a paz. Jesus disse “bem-aventurados são os pacificadores”. O segundo é o princípio de buscar a justiça. Paulo disse que o magistrado civil tem o poder da espada para fazer a justiça. O terceiro é o princípio de limitar o poder. Paulo não disse que o poder do governo é absoluto. Nós vemos no Antigo Testamento que os líderes em Israel tinham o dever de proteger o povo do abuso de poder da parte dos reis. Então, existem aqui três princípios relevantes: paz, justiça e limite. Como entender a situação na Síria usando esses pontos?

A primeira coisa que precisamos compreender é que tudo o que acontece está debaixo do controle soberano de Deus. Foi ele que colocou um governo na Síria. Esse governo tinha a missão de usar o poder para buscar a justiça e combater a violência. Em vez disso, ele tem utilizado a força para combater a oposição política. Isso é um uso ilegítimo do poder. A bíblia instrui a obediência aos governantes, mas se eles abusam do poder é legítimo buscar defesa através dos líderes inferiores. Porém, não é correto pegar em armas e usar de violência da forma como os rebeldes fizeram. Portanto, podemos ver que os dois lados no conflito sírio não tem seguido esses princípios bíblicos de paz, justiça e limite.

E os outros países? Eles também precisam buscar paz, justiça e ficar dentro dos limites. Quanto aos Estados Unidos, é preciso entender que uma sanção é uma decisão muito séria, mesmo que não envolva uma guerra agora. É uma declaração de hostilidade. O princípio de paz não tem sido buscado. O pior é as sanções prejudicam as camadas mais indefesas da sociedade. No caso da Síria, são as famílias mais pobres que ficarão sem acesso ao alimento, pois os preços vão subir. E isso dá mais poder ao governo sírio, pois terá controle de recursos que serão mais preciosos. E talvez algumas dessas famílias estariam apoiando a pressão internacional e vão mudar de lado por causa do sofrimento imposto por essa pressão. Além de não funcionar no longo prazo, as sanções provocam injustiça, o contrário do que os governantes devem buscar na política internacional. E os limites? Será que uma guerra para mudar o governo da Síria e impor um sistema novo respeita o princípio bíblico de limites? Algumas pessoas acham que os Estados Unidos são uma nação especial, porque tem democracia e poder. Essas pessoas defendem uma presença americana ativa em todas as áreas do mundo. Porém, a bíblia nos ensina que cada governo deve manter limites não só dentro do país, mas também fora. Quando Israel saiu do Egito, Deus ordenou que, na terra prometida, o rei não poderia acumular muitos cavalos. Isso porque cavalos eram usados para a guerra ofensiva. Israel deveria se contentar com a sua terra, e não invadir outros países. Curiosamente, a nossa política mundial é baseada também nesse valor, chamado de princípio da não-intervenção. Assim, mesmo que vários governos concordem em batalhar a favor dos que se opõem ao governo Sírio, é preciso lembrar que essa falta de limite é problemática.

Isso quer dizer que o mundo todo pode cruzar os braços e deixar um governo perverso fazer o que quiser? Não. De forma alguma. Como já vimos, seria legítimo a população local resistir ao governo violento, mas de forma ordeira, e liderada pelos magistrados inferiores. Esses líderes poderiam fazer um pedido de emergência para legitimar uma intervenção da comunidade internacional. Os países de fora, por sua vez, deveriam limitar o uso da força e deixar o novo governo em paz logo que fosse possível. Outra coisa que pode ser feita é o facilitamento às pessoas que desejam ajudar de algum modo. Uma sanção isola um país do outro. Isso é o contrário de facilitar. Se grupos nos Estados Unidos desejam fazer algo de natureza humanitária para ajudar, seria melhor facilitar a sua ação, e não dificultar.

E nós no Brasil? Há três coisas principais que devemos fazer. Primeiramente, devemos orar pela paz, justiça e limite. Isso serve tanto para os nossos líderes como para os governantes no resto do mundo. Devemos também lembrar dos cristãos que sofrem perseguição na Síria. Muito provavelmente há um grande número deles passando fome e doença por causa das sanções que foram levantadas. Devemos orar para que a igreja ali esteja unida e para que haja alguma forma de ajuda. Isso leva ao segundo ponto. Em segundo lugar, devemos procurar saber se há algum tipo de ajuda humanitária que genuinamente contribua para aliviar o sofrimento na Síria. Podemos nos comunicar com essas organizações para saber mais a respeito do assunto. É preciso ter cuidado com esse tipo de apoio porque não queremos ajudar aqueles que tem pegado em armas para fazer revolução. Em terceiro e último lugar, é preciso acompanhar nossos magistrados inferiores e ver como eles pensam a respeito do assunto. Você sabe quem é o congressista ou senador que o representa? Como tem sido o voto dele ou dela no congresso ou no senado? O que tem defendido em questões de política internacional? Ore pelos nossos magistrados inferiores e pelo governo em geral. Que possa agir com sabedoria e cumprir o seu papel nessa crise internacional buscando paz, justiça e limite.

Exeter, 23 Jun. 2012

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O trabalho A Situação na Síria de Lucas Grassi Freire foi licenciado com uma Licença Creative Commons – Atribuição – NãoComercial – SemDerivados 3.0 Não Adaptada.
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2 pensamentos sobre “A Situação na Síria

  1. Lucas, gostei muito do seu texto. Só uma pergunta, me interessa sua leitura a respeito. Como você lida com o fato de que as iniciativas revolucionárias que acontecem nos vários países árabes, denominada de “primavera árabe”, não são baseadas em princípios revolucionários “liberais” (como se imagina por aí), mas em uma luta islâmica para a remoção de “tiranos” aliançados com o ocidente? E, o pior, o esforço é, por exemplo, no caso do Egito, uma tentativa de permuta de poder. A troca é: retira-se uma tirania ocidentalizada, e coloca-se uma ditadura islâmica. O que acontece aí é uma revolução islâmica e não um revolução democrática. Como não vi isto sendo tratado no texto, fiquei curioso para saber seu ponto de vista a respeito.

    • Prezado Igor,

      É verdade que, em geral, os grupos obtendo apoio do “Ocidente” (leia-se CIA) nessas operações têm esse vínculo com a “luta islâmica”. Porém, muitos dos “rebeldes” têm também outras finalidades no seu engajamento, seja ele violento ou não.

      Deixo aqui as seguintes proposições:

      1. Do ponto de vista ético, interferir nos assuntos internos de outro país não é prerrogativa normal de governo algum;
      2. Muito menos incentivar movimentos revolucionários, independente do lugar que ocupam no espectro político;
      3. Governos, mesmo os governos com serviços avançados de inteligência e poderio militar, não são oniscientes e em geral erram no seu cálculo ao interferir em situações de extrema complexidade.
      4. Erram mais ainda quando provocam tais situações, ou proveem combustão para elas. O resultado dessas ações muitas vezes é negativo, o “tiro sai pela culatra” eventualmente, sem contar que não ajuda sequer a causa de supostos “aliados” na região; pelo contrário, gera mais rancor e reação.
      5. Um exemplo de consequência não prevista é a eliminação quase total da igreja nesses locais. Veja-se o caso do Iraque e Egito, onde cristãos “bem intencionados” acabaram promovendo indiretamente, via apoio a essas ações intervencionistas de seus governos ocidentais a favor de grupos islâmicos radicais, a própria perseguição à igreja. De fato, os ditadores de ontem eram mais seculares, e a igreja tinha certo grau de liberdade maior nesses lugares que no momento tem.

      Ou seja, a situação é complexa demais para um bando de comentaristas políticos achar que basta mandar um número x de tropas e decretar eleições livres que tudo se resolverá. E nessa brincadeira, mulheres, crianças e civis inocentes morrem. Os que sobrevivem e eram antes indiferentes passam a se tornar hostis a essa entidade abstrata, “Ocidente”, que os atacou.

      Uma leitura (secular) recomendada a respeito é “Blowback” de Chalmers Johnson.

      Obrigado pelo comentário.

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